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O descuido nos leva a provocar estremecimento nas estruturas
da amizade, abala os alicerces da convivência, fragiliza o
equilíbrio nos contatos profissionais, enfraquece a união familiar.
Então, saímos batendo portas porque não conseguimos caminhar os
outros mil passos, recomendados por Jesus. É o domínio do orgulho
estancando a fonte de compreensão e humildade que possuímos
interiormente: nossa consciência primeira, gerada por Deus.
Bater a porta abala a construção, amolece a porta, estoura a
pintura, reverbera em outros pontos da casa, repercute em outros
apartamentos. Bater a porta atinge o vizinho. Bater a porta encerra
a tentativa de acordo, enterra o diálogo, fecha a reaproximação e
constrói abismos. Batendo porta todos os dias, impedimos a união,
pois alimentamos o mundo individualizado.
São tantas portas construídas para facilitar a convivência,
organizando espaços. Mas, são transformadas em instrumentos
transmissores da violência incontida. Bater a porta se contrapõe ao
abraço do perdão. Os braços abertos não podem encontrar outros
braços que estão do outro lado da porta. O som descomunal da porta
batendo sufoca o pedido para esperar, retornar, tentar novamente.
Bater a porta despreza a reconciliação, impede nova chance, aborta
novas tentativas. E estamos aqui para tentar sempre com a intenção
sincera da aprendizagem sobre os erros cometidos.
Como devedores, nascemos para falhar várias vezes.
Como perfectíveis, nascemos para estudar.
Como criações divinas, vivemos para cometer falhas,
estudá-las e nelas encontrar a semente da futura perfeição.
Mantenhamos as portas abertas e os corações livres de todo
mal pensamento. Fechemos a porta com delicadeza, convidando ao
próximo para abri-la quando for necessário. Mantenhamos as nossas
relações com vias liberadas ao estreitamento dos laços de união.
As portas abertas não estão à mercê da violência. Por elas,
os irmãos ignorantes sobre as leis divinas, não encontram passagem
às suas atitudes de violência. As portas fechadas, como isolamento,
ou seja, o bater das portas, atrai a atenção, desperta curiosidade e
cobiça. O isolamento é frágil como frágil é a porta que separa
corações. Dos dois lados estão vigorando o egoísmo, o ciúme, o
orgulho e a cobiça. As portas fechadas convidam para ações ilícitas
que visam arrombá-las. As portas cerradas transmitem equilíbrio,
atraem visitas de carinho, oferecem aconchego ao visitante.
Bater a porte obriga a bater na porta. Nossa casa precisa de
permissão para ser acessada. Essa permissão passa por uma seleção
pessoal que é excludente: nem todos são irmãos, nem todos são
aceitáveis, nem todos são íntimos para entrar pela porta. Por isso
se bate, para pedir autorização ao ingresso.
Em vez de bater as portas, vamos bater palmas a cada novo
irmão que ingressa no nosso círculo de amizades. Escancaremos as
portas para que o coração esteja sempre aberto. É nossa obrigação,
no terceiro milênio, iniciar a formação da família universal
apontada pelo Cristo, há dois mil anos.
Bater a porta não resolve as situações difíceis. Mas, após
bater a porta, surgem mais dificuldades e novas portas terão que ser
batidas. Então, a atitude é, ao segurar a porta, para batê-la,
pensemos alguns segundos, voltemos, puxemos a cadeira, respiremos
fundo e recomecemos o diálogo. Agora, já com a porta aberta e a alma
comprometida com a paz.
Cristiano Fádel
http://espiritualizar.blog.terra.com.br