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TÍMIDOS OU COVARDES?!

 

Alkíndar de Oliveira

(alkindar@terra.com.br)

 

 

 

Caro(a) amigo(a), o texto abaixo é um excepcional relato do espírito José de Arimatéia sobre o tema  “Jesus e o Sábado”. O texto é comovente e esclarecedor. Depois que o li, melhor compreendi como – tendo Jesus como modelo – precisamos quebrar os paradigmas que prejudicam nosso desenvolvimento espiritual. Paradigmas estes presentes em nossos modelos mentais, em nossos Centros Espíritas e em nosso movimento espírita.

Em relação ao sábado dos judeus, o texto abaixo nos mostra o melhor exemplo do que é ser corajoso!

 

Conversando com um amigo espírita sobre a importância de sermos ousados na divulgação espírita, ele acrescentou: “Nem é questão de passar a sermos ousados, mas, sim, de deixarmos de ser covardes!”. O termo “covardes” soou forte, muito forte. Mas, se lembramos das atitudes e desprendimentos dos primeiros cristãos, dá para melhor refletirmos sobre a afirmação desse amigo. Não é?

 

No livro Terapêutica de Emergência, pelas mãos de Divaldo Franco o espírito Marcelo Ribeiro nos alerta sobre a importância da premente divulgação do Espiritismo:

“O Espiritismo é um tesouro de alto valor que tem a missão de produzir lucros de amor e juros de paz.

         Ocultá-lo, sem o promover entre as criaturas, é o mesmo que enterrar uma fortuna, que assim perde a finalidade para a qual existe.

         Retê-lo, constitui crime de avareza, considerando-se a fome de luz de que padecem as criaturas.

         Adiar a sua divulgação, onde se encontre o espírita, representa perda de oportunidade valiosa, que não se repetirá”.

 

Observação-1: O texto a seguir é transcrição do capítulo XII do pequeno e excelente livro O Romance de José de Arimatéia, de José Carlos Leal, Editora CELD: www.celd.org.br Não obstante não haja nenhuma informação no livro de que o texto seja mediúnico é possível deduzir, pela sua característica e riqueza de detalhes, que a única alternativa plausível é de que o livro foi escrito por influência e ação direta  do espírito José de Arimatéia.

         Amigo(a), se posso lhe dar uma sugestão: adquira o mencionado livro.

 

Observação-2: Se o texto do espírito José de Arimatéia nos motivar a sermos mais corajosos na divulgação do Espiritismo, lembremo-nos de que:

a)     Coragem sem fraternidade não é coragem, é violência;

b)     Primeiramente tenhamos a coragem de enfrentar a nós mesmos, que é o propósito maior do Espiritismo. Mas que enfrentemo-nos com auto-fraternidade, isto é, sem nos violentarmos e sem sentimento de culpa.

 

 

         Fraternalmente,

 

         Alkíndar de Oliveira

  

Jesus e o Shabbath

(Relato de José de Arimatéia)

 

          Antes de entrar  nesta parte de minha  narrativa, acredito ser útil falar do sentido do Shabbath para  o meu povo. Trata-se de um dia muito especial; para os judeus, mais do que especial, é um dia sagrado. Para cada judeu, o Shabbat não era apenas o último dia da semana, mas o sinal do pacto entre Iahweh e o seu povo. Como no sétimo dia da criação Iahweh descansou, todo judeu sincero deve também, nesse dia, descansar. Para nós, o Shabbath é muito semelhante à circuncisão: ambos são selos, marca do contrato que o Senhor fez conosco, e isso, para nós, é muito, muito sério.

          Corriam, entre nós, muitas lendas e tradições com respeito ao Shabbath. Alguns diziam que o primeiro canto que a humanidade entoou foi o canto do Shabbath,  cantado por Adão, sete dias depois de ter sido perdoado por Deus; outros diziam que Moisés e o seu povo haviam atravessado o Mar Vermelho em um dia de Shabbath; dizia-se, também, que Iahweh ainda descansa, até hoje, no Shabbath.

          O nosso Shabbath tem início na véspera, no crepúsculo da sexta-feira, e se inicia logo que as três primeiras estrelas aparecem, no começo da noite. Nesse momento, o hazzan vai ao armário da sinagoga, retira a trombeta do Shabbath, sobe no telhado da casa mais alta da localidade e faz soar três notas. A primeira adverte aos trabalhadores do campo de que seu  trabalho terminou; a segunda avisa aos comerciantes que é hora de encerrarem suas atividades e cerrarem as portas de suas tendas; e a terceira ordena a todos que acendam a sua lâmpada doméstica. Quando todas as lâmpadas são acesas, surge uma chama dourada. Então, diz-se que, em todos os lares, brilha a chama do Shabbath.

          Nós chamamos de “preparação” a véspera do Shabbath. Nesse dia, a mulher limpa toda a casa cuidadosamente. Prepara os alimentos que serão consumidos no dia seguinte. Os alimentos devem ser frios, porque não se pode cozinhar  nesse dia. A boa esposa de que nos fala o Rei Salomão não se esquece, no dia da preparação, de encher com azeite a lâmpada “shabbáthica” e de preparar bolos, peixes, tâmaras e figos para a ceia “shabbáthica”. As pessoas que têm ocupações nas quais são obrigadas a sujar seus corpos, como os curtidores de peles e os ferreiros, devem tomar um banho escrupuloso na véspera do grande dia.

          O Shabbath é um dia de preces ao Senhor, mas não é, necessariamente, um dia triste. Não é proibido que se coma com gosto e se bebam vinhos excelentes. As roupas mais caras e mais belas podem ser retiradas das arcas e usadas nesse dia. A idéia dominante é a de que o homem que trabalhou duro nos seis dias da semana tenha uma sensação semelhante a de Deus ao terminar a Criação.

          Nós  - os judeus cuidamos desse dia com extremo rigor. Alguns, inclusive, do meu ponto de vista, chegam a excessos que deveriam ser evitados. Assim, nesse dia,  está interditado: acender fogo, andar mais de sete estádios, conduzir objetos pesados, fazer ou desfazer um nó, caçar, pescar ou, simplesmente, escrever duas letras no alfabeto. Todas essas coisas que acabo de narrar servem para nos dar uma idéia de como Jesus escandalizou os judeus mais conservadores, no caso do Sábado.

          Um dos primeiros casos aconteceu na grande festa das colheitas, quando Jerusalém regurgitava de peregrinos que vinham das montanhas de Efraim ou subiam pela estrada pedregosa que ia para Jericó. Naquele dia, entravam na cidade de Davi, pelas portas abertas na grande muralha, cantando hinos muito antigos compostos pelos filhos de Coré e pelo próprio Davi. Muitos dançavam ao som de adufes, flautas e tambores de Nínive. Homens,  mulheres e crianças bailavam e cantavam, em honra a Iahweh que, naquele ano, dera ao povo uma colheita farta.

          Quem descesse do Monte das Oliveiras, na direção do centro da cidade, encontraria os bairros pobres enfeitados para a ocasião festiva. No meio da multidão alegre, via-se, também, um grande número de sofredores: aleijados arrastando-se, apoiados em muletas; paralíticos conduzidos, em suas camas ou macas, por amigos, parentes ou mesmo por pessoas pagas para isso; cegos levados pela mão por meninos ou mulheres. Todos eles iam em busca de cura na piscina de Betsaida.

          Segundo uma antiga tradição, havia, fora da cidade, um tanque que ficava entre a Torre Antônia e a Porta das Ovelhas. A esse tanque, de manhã bem cedo, principalmente em dias festivos, vinha um anjo do Senhor e agitava as águas. Quem tivesse a oportunidade de, no exato momento do fenômeno, entrar na água ficaria curado de sua doença, fosse ela qual fosse. Os miseráveis, por isso, agrupavam-se como moscas em torno de um prato com leite, na esperança de se beneficiar do milagre.

         Assim, quando o Sol mandava à Terra os seus primeiros raios, a agitação crescia, porque era a hora do anjo revolver a água milagrosa. Então, os que traziam os doentes faziam um esforço terrível para conseguir a benção e, nesse esforço para tentar alcançar a água, aconteciam lutas, pisoteamentos e muitos ficavam feridos.

          Foi assim que deixou esta vida um meu primo chamado Rafael, filho de um irmão de minha mãe, que trouxe um amigo paralítico a Betsaida. Para alcançar mais rapidamente a água, ele colocou seu amigo nas costas e tentou subir em uma pedra. Foi então empurrado e caiu com seu fardo. Na queda bateu com a cabeça na mureta de proteção e morreu. Fatos como esse eram mais ou menos comuns naquele lugar.

          No dia da Grande Festa a que me referi, junto do poço, encostado na parede de pedra, estava  um homem chamado Abimael, paralítico há cerca de trinta e oito anos. Nos últimos tempos, haviam morrido os parentes que tentavam erguê-lo às águas e não tinha mais com que pagar pessoas para ajudá-lo. Por isso tornara-se mendigo, mas junto da fonte, porque não perdera a esperança de um dia conseguir a sua cura; apenas não tentava mais competir com os outros, porque isso lhe era impossível.

          Naquele dia, estava Abimael pedindo esmolas, quando notou alguém por perto. Voltou-se e viu, junto a si, um homem ainda jovem, que, por suas vestes, parecia um Galileu. O mendigo ia pedir-lhe esmola, quando o homem lhe disse.

          - Queres ficar bom, amigo?

          - Senhor, Deus o abençoe. Estou aqui há muitos anos, mas não tenho  alguém com fortes braços para me tomar e me colocar na água no momento em que o anjo agitar a água. Ás vezes, ainda tento, reunindo as energias que me restam, entretanto, alguém mais novo e mais forte me empurra e eu não consigo alcançar as águas.

          - Queres mesmo ficar curado? – Perguntou-lhe Jesus.

          -  Quero, senhor, quero muito. – Disse o pobre homem.

          - Eu também o quero. Levanta, toma tua cama e anda. – Falou Jesus, com voz firme.

 

          O homem ficou pálido. Não podia compreender aquela ordem; estava paralítico há muito tempo, não sabia o que fazer. De repente, sentiu em seu corpo algo como uma corrente elétrica. Um estranho vigor tomou-lhe as pernas e ele se ergueu. Levantou-se, testou alguns passos, tomou a sua cama e saiu correndo, dando glórias a Deus.

          Lá ia  ele gritando, quando, ao passar perto da Porta das Ovelhas, um grupo de fariseus o avistou carregando sua cama e dando pulos de alegria. Como era o dia do Shabbath, os fariseus interromperam a caminhada do homem e lhe disseram:

 

          - Estás alucinado ou és mesmo um louco insensato?

          - Eu? Por quê?

          - Não sabes que hoje é o dia do Shabbath e não podes andar pela rua conduzindo a tua cama.

          - Como? Louco és tu. Estou há trinta e oito  anos paralítico, um homem me cura sem que eu precise entrar na água e tu vens me falar do Shabbath. Deus sabe o que se no meu coração  e se eu estiver cometendo excessos, ele me perdoará.

          - Dizes que foste curado por um homem?

          - Foi o que aconteceu.

          - Onde está ele agora?

          - Eu não sei, mas, provavelmente, no lugar onde me curou, junto do poço do anjo.

          - Podes nos levar até ele? – Disse o fariseu que liderava o grupo.

          - Se o queres...

 

          E saíram os fariseus com o ex-paralítico. Ao chegarem às proximidades da fonte, o homem, vendo Jesus, indicou-o aos fariseus. Eles se aproximaram de Jesus e lhe disseram:

                

          - Foi você quem curou este homem?

          - Sim.

          - Não sabes que não é lícito curar no Shabbath?

          - Meu Pai trabalha até hoje e eu também trabalho.

          Dito isto, Jesus deu-lhes as costas e seguiu o seu caminho. Os fariseus correram e foram contar a Caifás o que Jesus fizera e mais: o que ele havia dito.

          Eu não consigo entender o comportamento de Jesus, que me  parece estar dando passos largos para um conflito aberto com o Templo,  Jesus está desafiando o Templo, e as conseqüências desse desafio, para mim,  são terríveis. Soube, também, que ele violou o Shabbath em outras circunstâncias. Em  um desses dias consagrados, ele parou com seus discípulos junto de uma plantação de trigo e permitiu que seus amigos colhessem algumas espigas. Os fariseus que a isso  assistiam, com escândalo, disseram-lhe que não era lícito colher espigas no Shabbath e ele lhes respondeu: “Terá sido o homem feito para o sábado ou sábado feito para o homem?” Sua resposta  lançou confusão na alma dos fariseus, que saíram desconcertados; pior ainda: saíram magoados, e homens magoados são capazes de tudo. Tudo isso tem me preocupado muito, muito mesmo.

 

[Texto transcrito do capítulo XII do pequeno e excelente livro O Romance de José de Arimatéia, de José Carlos Leal, Editora CELD: www.celd.org.br]

 

 

Alkíndar de Oliveira
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