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Não há qualquer
intenção de denegrir essa obra ou diminuir sua importância como roteiro material
e espiritual que conduziu, e ainda conduz o povo israelita, e continua a ser um
farol a iluminar milhões de mentes e corações, principalmente no mundo cristão.
Mas a verdade, neste caso, deve ser dita com toda clareza, porque só ela tem a
força de abrir algemas estruturadas ao longo dos séculos e desfazer
cristalizações milenares, numa época em que a razão começa a predominar sobre a
imposição.
Muitos entendem que a Bíblia, vista como a palavra de Deus, não pode
ser questionada, apenas obedecida.
Sabemos que o ser humano evolui com o passar do tempo. A mentalidade da
humanidade, hoje, é bem diferente daquela que marcou os séculos e os milênios
passados. É a força da vida impulsionando a criatura para frente, modificando
sua ótica, seus enfoques, seus conceitos, suas concepções. É como alguém que vai
subindo pelas encostas de uma colina; quanto mais sobe, mais vasto vai ficando o
horizonte que sua vista alcança.
Será que tudo que era bom nos milênios passados continua servindo nos
dias atuais?
Certamente, não.
Exemplo disso temos nas leis do Antigo Testamento, das quais apenas umas poucas
podem ser aplicadas na atualidade.
Na
Bíblia encontramos dois tipos de mentalidade: as duras leis de Moisés, cobrando
“olho por olho e dente por dente”, e o Evangelho onde Jesus recomenda perdoar as
faltas alheias de forma incondicional; amar a Deus, em vez de temê-lo; amar o
próximo como a si mesmo, e praticar o bem em todas as suas expressões.
As
leis de Moisés eram adequadas e corretas para educar aquele povo rude e
indisciplinado, em suas fases mais primárias. Já as que foram trazidas por
Jesus, mostram o amor e o perdão, além de vários outros valores, como atitudes a
serem aprendidas e praticadas.
PERGUNTA FREQÜENTE
Se as religiões
judaico-cristãs têm suas bases assentadas na Bíblia, qual delas está com a
verdade, já que todas possuem argumentos que entendem serem os mais fortes?
Vamos raciocinar um
pouco?
Se você estiver elaborando seu orçamento doméstico e alguém lhe afirmar
que 5 mais 3 são 11, o que fará?
Vai aceitar esses valores como certos, só porque alguém em quem você
acredita disse isto, ou irá fazer a conta para ver se aquela afirmação está
correta?
Se
aceitar simplesmente o que lhe dizem, sem nada questionar, você se arrisca a ter
grandes problemas em sua vida.
O mesmo acontece com relação às religiões. Cada uma diz que está com a
verdade, embora todas pensem diferentemente umas das outras.
Que fazer então, para encontrar a verdade religiosa?
Certamente o mesmo que você faria para encontrar os valores reais para
o seu orçamento: calcular, analisar, questionar, usar a razão e o bom senso.
a) Matar os filhos que nos faltassem com o devido respeito. Esse
mandamento está em Êxodo 21:17.
b) Executar sumariamente todos que alguma vez tivessem relações sexuais
com outra pessoa que não o seu cônjuge. Esse mandamento está em Levítico 20:10.
c) Matar tanto o homem quanto a mulher que tivessem relação sexual
estando ela menstruada. Esse mandamento está em Levítico 20:18.
d) Executar todo aquele que fizesse qualquer atividade no dia de
sábado. Esse mandamento está em Êxodo 20:8 a 11 e Levítico 23:3.
e) Matar a quem ingerir sangue. Esse mandamento está em Levítico 7:27.
Essas são apenas algumas das muitas situações para as quais as leis do
Antigo Testamento determinam pena de morte:
Se não acredita, pode conferir na Bíblia.
Seus cinco primeiros livros são conhecidos como o Pentateuco. Neles é
narrada a criação da Terra, de Adão e Eva, e a saga de parte da sua descendência
até a chegada do povo israelita às vistas da terra prometida, e a morte de
Moisés. Trazem também as leis, desde os dez mandamentos, recebidos no monte
Sinai, até às mosaicas, ou leis de Moisés, assentadas no princípio olho por
olho, dente por dente.
É fácil entender porque Moisés estabeleceu leis com penalidades tão
severas. Elas eram necessárias para disciplinar aquela gente de índole rebelde.
Tamanho rigor podia também justificar-se pelo fato de não haver prisões, e por
isso, para um povo nômade, que vivia a peregrinar pelo deserto, não era possível
escalonar castigos proporcionais à gravidade dos delitos.
As leis de Moisés, como se pode facilmente perceber, eram normas
temporárias, elaboradas para um povo, num determinado momento de sua história.
Só que hoje, no mundo moderno, uma parcela da humanidade ainda guia-se por elas.
É por isso, por essa fuga à realidade, que há tanta confusão religiosa no mundo
ocidental.
Isto ocorre porque a mente humana vem sendo condicionada desde a sua
pré-história a obedecer cegamente a líderes que se apresentam como
representantes da divindade, esse algo misterioso, muitas vezes assustador, e
que se acredita ser o mandante de castigos e também doador de benesses. Com
isso, as gerações foram se acostumando a obedecer cegamente suas religiões, sem
nada questionar.
Mas quem deseja abandonar esse status quo, sair dessa condição
de rebanho, assumir a realidade que a evolução possibilita, encontra sempre
grandes dificuldades interiores, e o medo de estar dando um passo errado e por
isso ser castigado. E essas dificuldades se multiplicam quando irmãos de outros
credos se põem a pregar, afirmando de forma incisiva e veemente as suas crenças.
Os longos condicionamentos psicológicos são muito difíceis de ser
erradicados. Também por isso entendemos ser necessário tratar deste assunto,
mesmo de forma superficial. Isto é importante para que não restem dúvidas sobre
questões levantadas por irmãos de outros credos, em seu combate às idéias
espíritas, e que para isso se apegam a determinada norma estabelecida por Moisés
para o povo israelita, como por exemplo, a comunicação com os espíritos.
É importante para quem está procurando, poder fazê-lo com a mente livre
dessas amarras milenares. E é justamente esse conhecimento que irá liberá-lo de
possíveis sentimentos de culpa, para que possa, com a alma leve e o espírito
tranqüilo, iniciar uma nova etapa na busca da verdade, a procura de Deus.
Mas isto absolutamente não significa que estejamos amesquinhando o
papel da Bíblia, ao contrário. Seus ensinamentos morais têm sido o farol a
iluminar o povo israelita e todos os povos cristãos, sem falar no Evangelho,
esse roteiro de luz que chegou ao mundo como o maior dos sorrisos na história do
pensamento humano.
Entre as centenas de leis estabelecidas por Moisés vamos encontrar
também aquela que proíbe a consulta aos mortos, e que diz assim: “Quando
entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme
as abominações daquelas nações. Entre ti não se achará quem faça passar pelo
fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem
agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador de encantamentos, nem quem consulte um
espírito adivinhante, nem mágico, e nem quem consulte os mortos, pois todo
aquele que faz tais coisas é abominação ao Senhor” (Deut. 18:9 a 14).
O escritor Jaime Andrade, no livro O Espiritismo e as Igrejas
Reformadas, referindo-se a essa lei de Moisés, diz: “Vê-se que a proibição
tinha por escopo evitar que os israelitas se contaminassem com as práticas
supersticiosas e idólatras dos povos bárbaros que deveriam conquistar. O que
também prova que aqueles povos tinham por hábito consultar seus mortos”.
Como os ataques são dirigidos principalmente ao Espiritismo, ao
contrário do que muitos acreditam, essa doutrina nada tem de comum com as
práticas proibidas por Moisés. As comunicações com os espíritos que acontecem
sob a sua égide não são consultas, porque elas têm a finalidade de ajudar os que
estão sofrendo, esclarecer os obsessores no intuito de levá-los a abandonar
idéias de vingança e deixar de perseguir seus desafetos. As comunicações dos
espíritos mais evoluídos visam sempre o bem comum, o esclarecimento, as
exortações para a prática dos ensinamentos de Jesus, o amor posto em ação.
E lembramos o que Jesus disse, em Mateus 7:16 e 17: “Pelos frutos os
conhecereis” e “Toda árvore boa produz bons frutos e toda árvore má produz
frutos maus”.
Na verdade, os frutos do Espiritismo são todos bons.
Mas é indiscutível que a Bíblia deve ser considerada um livro sagrado,
pelos extraordinários valores éticos e religiosos que apresenta, mas nem por
isso se deve aceitar cegamente tudo que ela diz. O bom senso não permite ignorar
as inúmeras contradições e incoerências que são encontradas em seu corpo,
particularmente no Antigo Testamento.
E para que as coisas fiquem claras e não restem dúvidas, vejamos em
primeiro lugar algumas de suas contradições:
1 - A primeira se encontra logo no primeiro capítulo de Gênesis, com a
criação das noites e dias, a separação das águas, a produção de relva e árvores
frutíferas que davam frutos e sementes, para só depois, no quarto dia, serem
criados o sol, a lua e as estrelas. Como poderia haver noites e dias, plantas
frutificando, sem o sol?
2 – A humanidade inteira, durante milênios e até hoje, estaria pagando
pelos pecados de Adão e Eva, embora Deus tenha afirmado em Ezeq. 18:20, Deut.
24:16, Jer. 31:29/30, que os filhos não pagam pelos pecados dos pais, nem o
justo pelo pecador. E se o justo não paga pelo pecador, por que Jesus teria
morrido na cruz para pagar pelos pecados da humanidade?
3 – Em Êxodo 9:1 a 7 vemos Deus mandando uma praga que matou todos os
animais dos egípcios, inclusive os seus cavalos, mas dias mais tarde a cavalaria
egípcia é afogada no Mar Vermelho. Que cavalaria, se todos os cavalos tinham
sido mortos com a praga?
4 – Como poderíamos conciliar (Ecles. 9:15) que diz: “Os vivos sabem
que hão de morrer mas os mortos não sabem de cousa alguma”, com a parábola
sobre o rico e Lázaro (em Lucas 16:23); ou com a cena em que Moisés e Elias
(mortos há séculos), conversaram com Jesus no monte, na presença de três
apóstolos (Lucas 9:30), ou ainda, com a entrevista que teve Saul com o espírito
de Samuel, já que este estava morto? (1o Samuel 28:11/20).
5 - Em Oséas 6:6 Deus diz: “Misericórdia quero e não sacrifícios e o
conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. No entanto, Ele próprio ordena
oferendas, holocaustos e sacrifícios pelos mais insignificantes delitos... E não
só pelos delitos, mas também por uma infinidade de comemorações e obrigações.
QUESTIONAMENTO PARA REFLEXÃO
Se há contradições no corpo de uma obra, é coerente aceitá-la
cegamente, em sua totalidade?
Mas no Novo Testamento também há inúmeras incoerências e contradições,
como, por exemplo:
a) João afirma: “Se dissermos que não temos pecado, não existe verdade
em nós” (1o João, 1:8), mas no cap. 5:18 ele mesmo afirma que “quem é
nascido de Deus não peca”.
b) Em 1o João 2:2 lemos: “Jesus é a propiciação pelos nossos
pecados, e não somente pelos nossos mas ainda pelos pecados do mundo inteiro”,
mas logo adiante, no capitulo 5, vers. 19 contradizendo o que dissera, voltamos
a ler: “Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no maligno”.
c) Também os apóstolos nunca se entenderam quanto ao instrumento da
salvação, se seria a graça, as obras ou a fé.
d) E lembramos ainda Jesus quando disse: “Não acabareis de percorrer as
cidades de Israel, sem que venha o Filho do Homem” (Mateus 10:23), “Alguns dos
que aqui estão não verão a morte sem que vejam o Filho do Homem no seu reino”
(Mateus 16:28), e, falando sobre o que é interpretado como sua segunda vinda,
afirmou que não passaria aquela geração sem que tudo se cumprisse.
Mas é bom lembrar que os Evangelhos foram escritos muitos anos depois
da morte de Jesus, foram copiados e re-copiados milhares de vezes, sofreram
inúmeras traduções, interpolações, interpretações e até mesmo modificações e
enxertos em seus textos, visando acomodá-los às idéias e interesses da Igreja.
Como exemplo podemos citar a guarda do sábado, que foi simplesmente transferida
pela Igreja para o domingo.
Também há grandes contradições entre o Velho Testamento, os Evangelhos
e as Epístolas. O conteúdo da mensagem de Jesus está integralmente calcado na
mais perfeita justiça, na mansuetude, no perdão e no amor. Já o discurso de
alguns dos fundadores do cristianismo difere essencialmente dos ensinamentos de
Jesus. Por exemplo: o Mestre coloca o amor e a prática do bem, como condições
únicas para se alcançar o reino de Deus. Já Paulo afirma que a salvação vem
apenas pela fé. Diz ele: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé,
independentemente das obras da lei” (Rom. 3: 28). Enquanto isso outros apóstolos
ensinam que a salvação é pela graça e outros ainda, afirmam que é pelas obras.
Como se vê não existe consenso em seus ensinamentos, ou seja, apresentam
contradições.
E essas contradições acabaram por produzir centenas de religiões que
interpretam a Bíblia, cada qual à sua maneira.
O que mostramos até aqui é apenas um fração de todas as contradições e
incongruências que podem ser encontradas na Bíblia. Alguém que queira
aprofundar-se mais encontra farta bibliografia a esse respeito, como por
exemplo, no livro já citado O Espiritismo e as Igrejas Reformadas.
Mas é possível encontrar explicações para algumas dessas contradições,
principalmente as do Novo Testamento.
O conceituado escritor Carlos Torres Pastorino, diplomado em Filosofia
e Teologia pelo Colégio Internacional S. A. M. Zacarias, em Roma, e Professor
catedrático no Colégio Militar no Rio de Janeiro, no livro Sabedoria do
Evangelho diz:
“Os primeiros exemplares do Novo Testamento eram copiados em papiros
(espécie de papel), material frágil e facilmente deteriorável. Mais tarde
passaram a ser escritos em pergaminho (pele de carneiro), tornando-se mais
resistentes e duradouros.
Os manuscritos eram grafados em letras “capitais” ou unciais” (ou seja,
maiúsculas). Só a partir do 8o século passaram a ser escritos em
“cursivo” ou letras minúsculas.
Os encarregados de copiar os manuscritos eram chamados copistas ou
escribas. Mas nem sempre conheciam bem a língua, sendo apenas bons desenhistas
das letras. Pior ainda se tinham conhecimento da língua, porque então se
arvoravam a “emendar” o texto, para conformá-lo a seus conhecimentos.
Não havia sinais gráficos para separação de orações, e as próprias
palavras eram copiadas de seguida, sem intervalo, para poupar o pergaminho que
era muito caro. Daí inúmeros recursos empregados, como por exemplo, as
abreviaturas, as interpolações e muitos outros, que acabavam mudando os textos
originais. Há também a questão das traduções, das inserções e modificações que
foram feitas ao longo do tempo para atender a diferentes interesses."
Também a isto se devem algumas das contradições e muitos trechos de
quase impossível entendimento racional.
No livro citado anteriormente, Torres Pastorino transcreve um texto de
Orígenes, considerado um dos maiores exegetas (estudioso e intérprete de textos
bíblicos) que, referindo-se às cópias do Novo Testamento, diz: “Presentemente é
manifesto que grandes foram os desvios sofridos pelas cópias, quer pelo descuido
de certos escribas, quer pela audácia perversa de diversos corretores, quer
pelas adições ou supressões arbitrárias”.
Fica assim bem claro que o Novo Testamento que hoje lemos sofreu
infinitas modificações, não sendo possível, portanto, aceitá-lo “ao pé da
letra”.
PERGUNTA LÓGICA
Existe alguma religião ou doutrina que possa ser seguida cegamente, sem
questionamentos, sem usar a razão, o bom senso?
Certamente, não.
Vamos então concluir a análise desta questão, com lógica e bom senso.
Para que a verdade plena estivesse na Bíblia, esta teria de ser
absolutamente coerente, sem contradições e estar de acordo com a razão, porque
as contradições no corpo de uma doutrina fragilizam a sua credibilidade.
Muitos dizem: “A Bíblia é a palavra de Deus e precisa ser obedecida e
não compreendida”.
Mas se Deus nos deu o raciocínio e um pouco de sabedoria, é para
podermos discernir em nossa busca pela verdade. E lembramos que Jesus afirmou:
“Conhecereis a Verdade e ela vos libertará”. Com isso Ele deixou claro que veio
nos ensinar uma ética de vida, como realmente o fez, mas a Verdade (ou mais uma
parte dela) viria mais tarde, quando o ser humano já estivesse bastante
amadurecido para entendê-la e poder, assim, libertar-se dos condicionamentos
milenares a que se encontra algemado.
Além disso, para ser a “palavra de Deus”, a Bíblia teria de ser
absolutamente coerente e vazada em todo o seu corpo na mais perfeita justiça,
ética e amor, tendo em vista que deve refletir as qualidades d’Aquele que o
teria escrito ou ditado.
Assim, o bom senso nos diz que a verdade plena está apenas com Deus. Só Ele
tudo sabe.
Sendo assim, nós só temos dela vislumbres... E é por isso que brigamos
e até desencadeamos guerras sangrentas, porque cada qual entende ser o dono
exclusivo da verdade, quando realmente só tem dela alguns fragmentos.
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