Este roteiro recebeu do Ministério da Cultura o premio de Melhor Roteiro Cinematográfico de Longa Metragem, em 1997

 

 

ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO    (longa metragem)

O Desafio Virtual

 

UM ORIGINAL DE

SAARA NOUSIAINEN

 

Seqüência  01         RESID. DOS PRAXEDES

 

Seu Reynaldo e dona Selma estão na sala do micro. Seu Reynaldo terminou de instalá-lo e está testando. No monitor aparecem as telas de saída da Internet. Seu Reynaldo segue os comandos próprios para desligar o micro, enquanto conversam.

 

 SELMA

-  Eles vão adorar...

REYNALDO

-  Se vão!... É o maior sonho deles...

SELMA

-  Só espero que não deixem os estudos pra segundo plano.

REYNALDO

-  Eu acho que não... Nossos filhos são muito responsáveis... São meninos de ouro...

 

Dona Selma faz um ar sonhador.

 

SELMA

É... são meninos de ouro...

 

 

 

Seqüência  02     SALA DE AULA DE SERGINHO/GIL        INT/ EXT / DIA

 

A sala de aula de Serginho, assim como a de Gil e Teca ficam no térreo, com janelas dando para o jardim. A aula está no fim. As crianças começam a guardar seus livros e cadernos. Serginho olha para a professora e vê que ela está de costas, guardando algo no armário. De mansinho, sem que alguém perceba, Serginho pula o batente da janela e, pelo jardim, vai até a janela da sala onde estudam Gil, seu irmão e Teca, sua prima. Faz um sinal para Gilberto. Teca, que está sentada perto percebe e faz um muxôxo. Gil olha para a professora e vê que ela está apagando o quadro-negro. Levanta-se cautelosamente, apanha suas coisas e vai se aproximando da janela. Teca liga um radinho de pilha; está tocando uma música. A professora olha para ela com expressão de quem vai proibir. Teca faz um gesto de quem pede para deixar. A sineta toca, encerrando a aula. A professora faz leve expressão de sorriso e anui, por mímica, voltando-se novamente para o quadro-negro. Gil vê que ela está de costas para ele, pula rapidamente o batente e sai em companhia de Serginho. As crianças levantam-se e começam a dirigir-se para a porta, mas esta se abre violentamente e entra um homem armado que começa a atirar. Plano do homem apontando a arma e atirando rapidamente. No audio, os gritos das crianças; conforme o homem vai atirando, os gritos vão diminuindo até silenciarem, ficando só a música do radinho da Teca e, de mais longe, vozes e gritos, aproximando-se. O homem, corre os olhos em torno. Plano das crianças e professora, todos mortos. Os gritos aproximam-se mais.

 

GRITOS DIVERSOS

-  Cuidado!

-  Chamem a polícia!

-  Meu Deus!... é um louco!

-  Cuidado! Ele é perigoso!

 

O homem corre os olhos pela sala. Olha mais demoradamente para a professora caída sobre a mesa. Close do homem, calmamente, virando o cano da arma mirando a própria boca. Câmera faz pan   até o radinho da Teca, enquanto no audio o som do tiro, misturado à música. Câmera corrige para o rosto de Teca, deitada no chão. Há um corpo estendido sobre ela. Aos poucos Teca entreabre os olhos, com expressão de medo e pavor. Gira os olhos na direção do assassino. Fade out.

 

Seqüência  03         RESID. DOS PRAXEDES   SALA DO COMPUTADOR       INT / DIA

 

Câmera colhe uma sucessão de imagens de telas de computador: telas de trabalho, jogos,  internet, etc. fazendo fusão com peças do hardware, teclado, mouse, CPU, intercalando com detalhes de mãos, olhos, boca, mão no mouse, no teclado, expressões atentas de Gilberto e Serginho que estão navegando no computador. Gilberto, vai clicando aqui e ali, teclando de vez em quando, e as telas vão se sucedendo. Sobre estas imagens começam a passar os letreiros de abertura, continuando, se necessário, na segunda sequência.

De repente, Gil pára e fica olhando ao longe.

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Sequência 04  (FLASH BACK)   SALA DE AULA DE GILBERTO   INT / DIA

 

Detalhes dos rostos dos colegas de Gil e da professora, na sala de aula.

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Continua seqüência  03

 

Gil olha para Serginho com ar triste. Serginho compreende. Ficam olhando um para o outro por algum tempo. Serginho reage.

 

SERGINHO

-  A gente tem que parar de pensar nisso...

GIL

-  Eu sei... mas é difícil... Eles eram meus amigos... e agora estão mortos.

SERGINHO

-         O pior que é que ninguém pode fazer nada...

GIL

-         Eu tava pensando que a gente devia ir ver os   pais deles...

SERGINHO

-  Sei não...  acho que eles iam ficar mal de ver a gente...

GIL

-  E a Teca, hein? Deve tá mal...

SERGINHO

-         É...

Mamãe disse que ela vem passar o fim de semana com a gente.

GIL

Ah, é?  Que bom!... Assim a gente se distrai um pouco

SERGINHO

É... Mas é melhor não tocar no assunto...

GIL

-  É isso mesmo.

Vamos tratar de tirar essa idéia da cabeça... É melhor...

 

 

Sequência 05     RESID. DOS PRAXEDES     HALL DE ENTRADA

 

Dona Selma está na cozinha fazendo o almoço. Entra seu Reynaldo e vai abraça-la pelas costas. Selma vira-se para ele e sorri; empurra-o de leve e continua preparando a comida. Ambos estão com roupas caseiras.

 

SELMA

-  Tua irmã ligou... Pediu pra a Teca ficar aqui em casa, este fim de semana. Ela ainda está muito traumatizada...

REYNALDO

-  Também não é pra menos... Coitada!

Teve sorte essa menina... Já pensou? O colega cair por cima dela...

SELMA

-          Eu não consigo pensar em outra coisa...

E me dá uma angústia... quando penso que os meninos podiam...

 

Selma não consegue terminar a fala... Reynaldo abraça-a. Percebe-se que ambos se amam e se dão bem.

 

REYNALDO

-  Calma, amor... calma!... Já passou... eles estão bem... e a Teca também.

SELMA

-  Bendito computador...

REYNALDO

É mesmo...

 

Selma vira-se para encarar o marido.

 

SELMA

-  Acho que estamos sendo horrivelmente egoístas...

Nossos filhos estão a salvo... e estamos felizes...

... e as outras mães... os pais...

 

A campainha toca, interrompendo, e seu Reynaldo sai para atender. Vai até a porta e abre. São Dora, sua irmã, e a filha Teca.

 

REYNALDO

-  Oi, mana! Como é que você está?

DORA

-  Ainda estou zonza... Foi terrível demais!

REYNALDO

-  Em situações assim... a gente não sabe nem o que dizer...

E esta mocinha? Já está mais calminha?

 

Teca abraça o tio. Percebe-se que gosta muito dele.

 

TECA

-  Oi tio...

Eu não consegui dormir, tio... Só ficava vendo aquela coisa horrível... o tempo todo...

... eu nunca vou esquecer aquilo...

REYNALDO

-  Vai sim, garotinha... As coisas ruins a gente tem que esquecer...

Anda... Os meninos estão lá em cima, no computador.

 

Teca segue para a escada e sobe.

 

REYNALDO

-  Almoça com a gente, Dora?

DORA

-  Não, mano. Fica pra outra vez. Dá um beijo em Selma por mim, tá?... Já estou atrazada...

Tchau!

REYNALDO

Tchau...

 

Dora sai andando de volta para o carro.

 

REYNALDO

- ... e não se preocupe com a Teca. Ela e os meninos são doidos por um computador... Logo, logo ela esquece.

 

Dora volta-se, sorri, acena, e vai embora.

 

Seqüência  06     RESID. DOS PRAXEDES     SALA DO COMPUTADOR    INT / DIA

 

As três crianças estão diante do computador. Gil com a mão no mouse. Detalhes dos rostos com expressões entusiasmadas.

De repente, entra uma tela com a palavra DESAFIO, e em letras menores: curso de idiomas estrangeiros. As crianças olham-se, com ar interrogativo.

Gilberto dá enter. A tela dá lugar a uma porta fechada com os dizeres: “Parabéns. Você conseguiu encontrar o Desafio, chegou à primeira porta. Para continuar digite “abra a porta” em inglês.”

As crianças entreolham-se.

 

SERGINHO

E agora?

TECA

-  É moleza. Digite open the door.

 

Gilberto digita e dá enter. As imagens na tela começam a girar, primeiro lentamente e depois cada vez mais depressa. Forma-se um rodamoinho que sai da tela e suga os Praxedinhos, como são conhecidas as três crianças, por sempre andarem juntas.

 

Seqüência  07             SALÃO DE ASHTARIH         INT / DIA

 

PG do salão de Ashtarih. É um grande salão semicircular, como se fosse um teatro. Só que em vez de cadeiras há nos largos degraus pequenos camarotes. À frente, um palco com arranjos de flores raras, plantas exóticas e uma mesa com três caixas: uma contém os mini-micros, tipo relógio de pulso desses grandes, mas fechado com uma tampa; outra contém pedrinhas cor-de-rosa e a terceira uma espécie de canetinhas, com uma das pontas azulada. As arquibancadas de mármore azul e as paredes, cor de pérola, vão se fechando para cima até formar pequena abertura no alto. Por essa abertura penetra um feixe de luz que vai mudando lentamente de cor: azul, rosa e amarelo dourado, refletindo-se nas paredes e arquibancadas fazendo belos efeitos cromáticos. Os camarotes estão quase todos ocupados por grupos de 3 ou 4 crianças, aparentando entre 8 e 14 anos. Câmera vai passeando pelos camarotes mostrando que os grupos de crianças são das mais diferentes partes do Brasil. Plano de um camarote vazio, onde surgem, de repente, Serginho, Gil e Teca, como vindos de um rodamoinho. Estão com ar muito espantado. Em outros camarotes que ainda estavam vazios também vão surgindo grupos de 3 ou 4 crianças, também, como vindos de um rodamoinho. Todas demonstram surpresa em suas expressões.

Uma música alegre toca baixinho e as crianças estão todas quietas, em grande expectação. De repente a música pára e no meio do palco aparece uma luz azulada muito forte, que vai tomando a forma de uma menina de uns 12 anos. É muito bonita. Tem uma expressão serena, meiga mas firme. Os olhos demonstram inteligência e do fundo das pupilas, vez por outra, brotam raios de uma suave luz dourada, como se viessem do centro da cabeça. Está vestida com roupas futuristas, sem exageros. Que magnífica figura! As crianças estão maravilhadas.

A menina mostra por mímica que devem colocar os head fones que se encontram nos camarotes. Todos atendem.

A menina corre o olhar pelos camarotes. Sorri, um sorriso lindo, expontâneo. A voz tem um timbre cheio, gostoso de se ouvir. Percebe-se que ela está acostumada a liderar e falar a grandes platéias.

 

ASHTARIH

-  Eu sou Ashtarih, e represento o Comando do Sistema Solar.

Nós temos aqui crianças de todas as partes da Terra e cada  um de vocês está me ouvindo em seu próprio idioma.

Vocês podem me fazer perguntas... é só levantar a mão.

 

Um garotinho levanta a mão. Ashtarih faz um gesto convidando-o a falar.

 

GAROTINHO

-  Eu pensei que isto fosse um curso de idiomas com prêmios para os vencedores.

ASHTARIH

-  É verdade. Só que o desafio de vocês vai ser outro... Se vocês concordarem... é claro.

 

Ashtarih faz pequena pausa e continua, falando pausadamente.

 

ASHTARIH

-  Vocês foram escolhidos, junto com muitos outros grupos de crianças, para ajudarem a Terra.

 

Inúmeras crianças perguntam a uma só voz.

 

VÁRIAS CRIANÇAS

-  Ajudar a Terra?

ASHTARIH

-  Exatamente.

 

Ashtarih percorre  com o olhar os camarotes, enquanto fala com muita seriedade.

 

ASHTARIH

-  Este planeta tem evoluído muito nos últimos anos... Milhões de pessoas querem ver a Terra como um grande lar onde todos possam viver bem...

 

Uma menina levanta a mão. Ashtarih faz sinal para que fale.

 

 

MENINA

- Isso é verdade. Mas acho difícil porque a violência está crescendo demais...

 

Um garotinho moreninho levanta a mão e acrescenta:

 

GAROTINHO

-  E não é só a violência. A corrupção também... Até parece que no mundo só tem desonesto.

 

Outro menino, aparentando uns 12 anos, diz por sua vez:

 

MENINO

-  Eu acho que o pior são as drogas. Lá no meu colégio é só o que dá...

 

Serginho cria coragem e levanta a mão. Quando vê que todos estão olhando para ele fica meio encabulado, mas dá o recado, falando de jeito engraçado.

 

SERGINHO

-  Pois é... eu acho que desse jeito o mundo vai mesmo é se ferrar...

 

É uma risada só, desde Ashtarih até a última das crianças. Quando silenciam, Ashtarih continua:

 

ASHTARIH

-  Vocês sabem por que as coisas na Terra estão desse jeito? É porque milhões de pessoas curtem a violência. Outros tantos milhões são desonestos e gananciosos... E seus pensamentos e emoções estão criando em torno do planeta uma faixa de energia muito perigosa...

 

Ashtarih faz pequena pausa. Uma menina levanta a mão e pergunta.

 

MENINA

-  Será que dá pra explicar melhor?

ASHTARIH

- Algum de vocês já entrou num presídio?... ou mesmo num matadouro?

 

Ninguém se manifesta.

 

ASHTARIH

-  A pessoa que entra num presídio sente logo um ambiente pesado, agressivo... Já numa igreja ou num lar feliz, equilibrado, você sente um ambiente leve, gostoso... Isto ocorre por causa do tipo de energia mental e emocional que é gerada pelas pessoas que ali habitam ou freqüentam...

Só que há tanta gente curtindo a violência, a desonestidade... os vícios... que aquela faixa de energia maléfica de que falei está crescendo muito em torno da Terra.

 

Ashtarih faz pequena pausa. O auditório está em silenciosa expectativa. Fala pausadamente, com veemência.

 

ASHTARIH

-  Um Gênio do Mal, conhecido como Ruk Pollus está planejando dominar este planeta, usando essa energia, conhecida como Energia Psi Negativa.

 

Um frêmito perpassa pela assembléia infantil. A preocupação se estampa em todos os rostos. Gilberto, vencendo a timidez, levanta a mão e pergunta:

 

GIL

-  E esse comando de que você falou, não vai fazer nada?

 

 

ASHTARIH

- O Comando Solar entende que isso é responsabilidade dos  terráqueos.

GIL

-  Por que?

 

Há ansiedade em todos os rostos. Ashtarih responde pausadamente:

 

ASHTARIH

-  Porque se os terráqueos criaram essa fonte de energia pervertida, são eles próprios que terão de destruí-la... Ou pelo menos dar os primeiros passos...

... E é para isso que estamos reunidos aqui, hoje.

 

Teca está preocupada. Levanta a mão e quando autorizada, pergunta:

 

TECA

-  Por que esse trabalho tem que ser feito por crianç[LP1] as?

ASHTARIH

-  As crianças ainda não estão contaminadas pelo gosto do poder, da ganância, do ódio... são mais sinceras e honestas... Tem mais chances de vencer...

 

Algumas crianças estão eufóricas; outras, assustadas. Um garotinho levanta a mão e vai perguntando:

 

GAROTINHO

-  Nós vamos ter que lidar com esse tal de... Ruk Pollus?

ASHTARIH

-  Terão que lidar com ele, sim. Mas vocês não estarão sozinhos... e serão protegidos.

 

Teca está quase chorando.

 

TECA

-  Eu estou com medo.

 

Outras crianças também estão assustadas. Gilberto novamente levanta a mão. Autorizado a falar, corre os olhos pela platéia e fala com segurança.

 

GIL

-  Ontem nós três escapamos de morrer assassinados por um louco... Foi por um triz...

... Então... eu tava pensando que... se o mundo continuar assim como está, logo vai ficar tão ruim que vai ser pior que o inferno...

Eu acho que nós podemos confiar em Ashtarih... 

 

Ashtarih sorri para Gilberto, faz um gesto abrangente.

 

ASHTARIH

 -  Existem forças cósmicas muito poderosas, porque são amparadas pela Grande Lei... e nós trabalhamos dentro dessas diretrizes. Se juntarmos amor com justiça, inteligência e energia com dedicação e coragem...

 

Gil levanta os polegares das duas mãos.

 

GIL

-  Eu topo...

 

Gil bate os olhos em Serginho e vê sua expressão desconfiada. Fala, meio acanhado.

 

GIL

-  Eu sei que sou meio agressivo... Adoro ver filme violento, luta marcial... de vez em quando dou uns bofetes no Serginho...

 

Fala com convicção e ênfase.

 

GIL

-  ...Mas, se for pra melhorar o mundo... eu seria capaz até de virar santo.

 

Ashtarih sorri, levemente emocionada.

 

ASHTARIH

-  Não é preciso ninguém virar santo... Basta fazer tudo para dominar a agressividade...  e mais algumas outras coisinhas que eu já vou explicar.

 

Serginho faz o mesmo gesto com os polegares, e diz com voz firme.

 

SERGINHO

-  Eu também topo... Eu quero fazer a minha parte pra melhorar o mundo.

 

Teca enxuga algumas lágrimas. Levanta também os dois polegares.

 

TECA

-  Está bem... eu também topo...

 

Uma por uma todas as crianças daquela estranha assembléia levantam-se, erguem bem alto os dois polegares, em gesto afirmativo, e gritam.

 

CRIANÇAS

-  Eu topo...

-  Eu também topo.

 

Ashtarih sorri satisfeita.

 

ASHTARIH

-  Ótimo!... Muito bem! ... Eu tinha certeza de que poderia contar com vocês...

Repito: não precisam ficar com medo. Nós vamos lhes dar cobertura.

Agora, que as equipes venham uma a uma receber seus instrumentos de trabalho.

 

Gilberto levanta, seguido dos irmãos e vai se dirigindo ao palco. As outras equipes também levantam mas todos dão a vez aos Praxedinhos, venho em Gilberto um líder. Eles sobem no palco e Ashtarih coloca no pulso de Gil um aparelho parecido com um relógio:

 

ASHTARIH

-  Isto aqui é um mini -micro. Vai ser muito útil.

 

À Teca entrega uma pedrinha cor-de-rosa:

 

ASHTARIH

-  Isto é um condensador e transmissor de vibrações de amor. Basta usar o pensamento e a emoção.

 Pode colocá-lo em seu bolso.

 

A Serginho dá um objeto parecido com uma canetinha, que prende em sua camisa:

 

ASHTARIH

-  Isto aqui, Serginho, numa ponta é gerador de energia e na outra dinamiza a alegria...

TECA

O Serginho não precisa disso. É a criança mais alegre que já vi. Quando não está brigando com Gil, está sempre sorrindo.

 

Ashtarih olha carinhosa para Serginho e alisa seu cabelo.

 

ASHTARIH

-  A sua alegria, Serginho, é muito útil e é muito importante. Mas, você vai precisar deste aparelho. Cuidado para não perdê-lo.

 

Ashtarih olha com seriedade para os três.

 

ASHTARIH

-  Procurem não brigar.

GIL

-  No que depender de mim...não vai ter briga.

 

Ashtarih faz sinal para a equipe seguinte subir no palco, enquanto os Praxedinhos descem pelo outro lado.

 
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INSERT

 

Seqüência   08      GABINETE DE COMANDO DE RUK        INT / DIA

 

Ruk Pollus está examinando um painel de controle. É um tipo alto, musculoso. Tem a cabeça raspada e o tórax nú. Da cintura para baixo veste uma espécie de calção azul marinho que vai até o meio das canelas, amarrado na cintura com uma faixa vermelha. Nos pés, uma espécie de botinas de borracha. Nos braços, uns braceletes de couro com enfeites de bronze. Pelos olhos muito pretos, perpassam reflexos cor de aço. É uma figura assustadora.

A seu lado está Fávia. É uma menina em tudo parecida com Ashtarih. Só que a expressão do seu rosto, assim como o olhar são duros, frios.

Ruk termina de examinar alguns instrumentos e fala, com ar meio satisfeito, meio preocupado:

 

RUK-

-  Estamos chegando perto...

FÁVIA

Se o Comando Solar não se meter...

 

Ruk olha para Fávia com um daqueles olhares que vão até o fundo da alma. Pergunta  pausadamente:

 

RUK-

-  Que é que você está sabendo?

FÁVIA

            -  Eu?... nada... é só um palpite.

 

Ruk agarra a menina pelos ombros com violência. Fica olhando firme para ela. Fávia está assustada. Fala meio gaguejando.

 

FÁVIA

-  Eu acho que a Ashtarih está reunindo crianças...

 

RUK

-  Reunindo crianças?... Que é que ela pretende?

FÁVIA

-  Eu não sei...

RUK

-  Pois trate de saber... agora!

FÁVIA

-  Eu vou... grande Ruk... Eu já vou.

 

 

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Continua seqüência  07

 

A última equipe desce do palco. Todas já receberam seus instrumentos. Ashtarih dirige-se a todos.

 

ASHTARIH

-  Agora, uma coisa muito importante. A missão de vocês vai ser a de fomentar e gerar Energia Psi Positiva.

Essa energia positiva anula a negativa... entenderam?

Dessa forma, todo o bem que vocês conseguirem fazer... e fazer com que aconteça... e todos os bons sentimentos que nutrirem, serão dinamizados ao extremo e irão atuar naquela faixa de energia perigosa de que falei, ajudando a destruí-la. Aí, Ruk Pollus não terá mais poder sobre a humanidade.

 

Gilberto levanta a mão e fala.

 

GIL

-  Mas Ashtarih, de que adianta isso se a Terra está cheia de pessoas tão ruins quanto esse tal de Ruk Pollus?

 

 

ASHTARIH

- A ordem é destruir essa faixa energética de que falei porque esse perigo é imediato... e é dos mais graves na história deste planeta...

Depois, o Comando sabe o que deverá fazer.

 

As crianças estão muito atentas e mesmo preocupadas.

 

ASHTARIH

-  Acho que nem é preciso dizer que tudo isto é muito sigiloso. Não comentem com ninguém... mesmo porque, se vocês contarem isto a alguém, não vão acreditar... dirão que vocês estão loucos.

Só os pais de alguns de vocês serão avisados por nós.

 

Faz pequena pausa.

 

ASHTARIH

-  A partir de agora vocês serão conhecidos entre nós como os Mensageiros de Ashtarih. Agradeço a todos em nome do Comando e lhes desejo sucesso.

 

Antes que alguém possa fazer mais alguma pergunta, Ashtarih faz um gesto com a mão e vários rodamoinhos acontecem, sugando as equipes que desaparecem[LP2] , uma a uma.

 

Seqüência   09                   DESERTO, PROXIMO A MONTANHAS       EXT / DIA

 

Os Praxedinhos estão caminhando em meio a altas montanhas. Estão cansados. Param um pouco.

 

GIL

-  Onde será que estamos?

 

 

TECA

-  E faz diferença?

Quero é ver onde vamos encontrar comida... Estou morrendo de fome.

GIL

-  Não é reclamando que a gente vai conseguir alguma coisa. Acho melhor é botar o pé na estrada...

 

Teca senta em cima de uma pedra e informa os irmãos, com ar decidido.

 

TECA

- Eu não dou mais nenhum passo... estou morta!

 

Gil e Serginho também param e sentam sobre uma ponta de rochedo. Serginho lembra-se do aparelho que Ashtarih entregou a Gil. Aponta para ele.

 

SERGINHO

-  Nós podemos pedir socorro.

GIL

-  Isso, só em último caso, bobão. Nós vamos é continuar andando...

SERGINHO

-  E não me chame de bobão, que eu incho teu nariz com um murro.

 

Teca levanta a mão na direção de Serginho.

 

TECA

-  Nem pense, Serginho... e abaixe o tom da voz. Nada de brigas... nem ofensas.

Vocês se esqueceram que estamos em missão?

 

Serginho fala com expressão irônica.

 

SERGINHO

Olha só quem tá falando... Você até agora não se lembrou disso.

GIL

-  A Teca tem razão, Serginho. Lembra que  prometemos não brigar.

 

Serginho balança a cabeça.

 

SERGINHO

-  Tá bom...

Mas eu ainda tô querendo saber pra que é que serve esse tal de minimicro.

 

Gilberto olha o aparelho com mais atenção. Parece um relógio de pulso, desses grandes, fechado com uma tampa. Abre a tampa e esta se transforma num miniteclado. A face do aparelho é a tela de um micromonitor.

 

SERGINHO

Que legal!

GIL

É massa!

 

Teca, de má vontade, e já quase arrependida de ter concordado com a aventura, resmunga.

 

TECA

- Quero é ver pra quê que serve...

 

Gil Toca a tela com a ponta do dedo e aparece uma frase em inglês:  What do you want?

 

GIL

-  Olha que legal!. Está perguntando o que desejamos.

TECA

O que desejamos?  Cair fora daqui... é claro.

SERGINHO

- Quer parar com essa mania de viver reclamando?!!!... Você ainda vai se dar mal...

 

Gilberto digita; Estamos com fome e sede, e dá “enter”. A tela dá uma piscada e fica escura. Gil levanta o aparelho para jogar no precipício.

 

GIL

-  Essa porcaria não serve pra nada

 

Quando levanta a mão para jogar o aparelho fora, pára, com os olhos arregalados.

 

GIL

-  Olhem!

 

À sua frente surgira do nada um poste com um cartaz onde está escrito: À direita = Pousada.   À esquerda =  Deserto.

As crianças tomam o caminho da direita.

 

 

Seqüência  10            POUSADA DA MONTANHA       EXT / INT / DIA

 

O tempo está ameaçador. As crianças chegam a uma clareira e avistam uma casinha que parece pregada na encosta da montanha. 

 

GIL

-  Até que enfim, achamos uma casa! Estou morto!

TECA

-  Vocês chamam isso de casa? Isso ai parece é um velho guarda-roupa... rindo da nossa desgraça.

 

Mal acaba de falar começa a chover. Correm para a casinha. Por sorte a porta não está trancada. Entram, a tempo de evitarem um tremendo banho. Serginho fica olhando Teca com um sorriso irônico. A garota, meio envergonhada, resmunga:

 

TECA

-  Tá bom... retiro o que disse.

GIL

-  Por que você não deixa de vez essa mania de reclamar de tudo... hein, Teca?

SERGINHO

-  E aproveita para dar um “thiuti” na preguiça.

 

Seu Timón aparece na porta, vindo do interior da casa.

 

TIMON

É isso mesmo!

 

As crianças assustam-se. Teca agarra-se a Gilberto, com medo. Aos poucos se acalmam diante da figura simpática.

 

TIMON

Não se preocupem... Sou amigo.

 

Seu Timón relanceia o olhar pelas crianças.

 

TIMON

Vocês devem ser as crianças mandadas por Ashtarih...

TECA

-  Quem é o senhor?

TIMON

-  Podem me chamar de Timón.

SERGINHO

O senhor conhece a Ashtarih?

TIMON

-         Conhecer mesmo... ninguém conhece.

Mas vamos ao que interessa. Eu vou estar com vocês durante algum tempo... em alguns períodos.

TECA

-  Ótimo, seu Timón. Assim não ficamos sozinhos.

TIMON

-  Muito bem, vocês podem tomar um bom banho e... depois, tem o que comer na cozinha.

 

As crianças fazem gestos de satisfação. Ouve-se dois sinais de bip no relógio de seu Timón. Ele diz, tranqüilamente.

 

TIMON

-  OK, garotada. Já estou indo. Até a próxima ...

 

Seu Timón desaparece assim como uma tela de computador que é fechada. Teca dá um grito de susto. Serginho e Gil estão mudos de espanto. Finalmente Teca consegue perguntar:

 

TECA

-  E agora?...  Nós vamos dormir aqui sozinhos?

 

Serginho não perde a chance de fazer uma brincadeira.

 

SERGINHO

-  Claro que não. Não viu aqueles fantasmas que se esconderam ali no quarto quando chegamos?

 

Teca arregala os olhos e faz uma expressão apavorada.

 

GIL

-  Não diga bobagens, Serginho. Garanto como você também está morrendo de medo. Só não tem é coragem de assumir.

SERGINHO

-  Eu, com medo? É só o que faltava...

GIL

-  Pois então, vá na frente.

SERGINHO

- Eu?... na frente? De jeito nenhum! Você é que vai... é o mais velho.

TECA

É isso mesmo, Gil... Você vai na frente.

 

Gil aceita e começa a se dirigir para o interior da casa. Está tudo na penumbra e as sombras são fantasmagóricas. Teca e Serginho seguem atrás de Gil. Suas expressões são de medo, principalmente Teca. Gil abre a porta do quarto e começa a entrar mas pára de repente, faz um ar apavorado, dá um grito e volta correndo. Teca e Serginho disparam para a sala de entrada e daí até a porta da rua. Param no patamar, com expressão apavorada, como a calcularem os que é menos mau, ficarem na casa com os fantasmas ou saírem para fora na chuva.. Gil começa a rir, dando gargalhadas das caras dos irmãos. Teca e Serginho entendem que foi brincadeira. Teca fica furiosa correndo atrás de Gil para dar-lhe um cascudo e Serginho começa a rir.

 

SERGINHO

-  Fica me devendo essa, seu Gilberto...

Ah, se fica!...

TECA

-  Quer me matar de medo, seu idiota?

 

Teca consegue dar o cascudo em Gil, que para de rir.

 

GIL

Tá bom... tá bom... já chega!

Vamos cuidar do banho e do rango.

 

 

Seqüência  11          POUSADA DA MONTANHA      INT / NOITE / DIA

 

O dia está perto de amanhecer. As crianças estão dormindo. Acordam, assustadas, ouvindo vozes na casa e vendo luzes bruxuleantes pela fresta da porta

 

TECA

-  Quem será?

 

As vozes se aproximam e dois vultos entram no quarto, carregando uma lanterna. São dois homens, um alto e outro mais baixo, magros e com expressões extremamente tristes. Barbas por fazer, roupas escuras e em desalinho, cabelos compridos e embaraçados. Nos rostos tristes os olhos expressam profunda amargura. A voz é lúgubre, carregada de tristeza; a fala, lenta.

 

ALTO

-  Que é isso? Que estão fazendo aqui?

 

As crianças estão sem voz. O susto e o medo paralisam suas cordas vocais. Ficam apenas olhando com espanto para aquelas duas estranhas figuras.

 

BAIXO

-  Quem são vocês?

 

A muito custo Gilberto consegue responder.

 

GIL

-  Eu sou Gilberto, essa é a Teca e esse é o Serginho... nós somos irmãos.

 

O mais alto olha com olhar doloroso para as crianças e fala, com voz igualmente dolorosa.

 

ALTO

Sorte de vocês... Só assim, vocês também vão ficar livres da carga pesada.

 

Teca consegue perguntar num murmúrio.

 

TECA

-  Carga pesada?...

BAIXO

-  Isso mesmo. Já que invadiram nossa casa vão ficar conosco pra sempre. Não precisam voltar pro mundo... O mundo é mau... e é muito triste...

 

As crianças pulam para fora da cama, terrivelmente assustadas. Teca fala num gemido.

 

TECA

-  Eles estão querendo nos prender aqui...

 

O Baixo fala numa voz lúgubre e chorosa.

 

BAIXO

-         Vocês vão fazer parte da confraria dos tristes... Vão receber uma iniciação e nunca mais vão ter de sorrir...

-          

SERGINHO

Mas sorrir é bom. A melhor coisa da vida é a alegria...

 

O Alto avança para Serginho com a mão erguida, disposto a agredi-lo.

 

ALTO

-  Nunca mais, ouviu?... nunca mais diga essa palavra horrível!

 

As crianças, muito assustadas, correm para a sala procurando a porta para fugir. Está trancada. O alto coloca a mão sobre o bolso, mostrando que está com a chave.

 

ALTO

-  Não adianta... está trancada. Não tem como escapar.

 

O Baixo, sem perder o ar triste e lúgubre, comenta com certa satisfação.

 

BAIXO

São mais três para a nossa confraria.

 

As crianças estão realmente apavoradas.

 

GIL

-  Temos que sair daqui! Tem que haver uma maneira.

 

Serginho se aproxima dos dois homens e ajoelha-se em frente a eles.

 

SERGINHO

-  Por favor, senhores, não façam isso conosco. Se os senhores são tristes... nós não queremos ser.

 

Os dois homens não lhe dão a menor atenção. O Alto olha o relógio:

 

ALTO

-  Daqui a cinco minutos chegam os oficiais da Confraria. Aí podemos começar a cerimônia.

 

Teca, por sua vez, aproxima-se dos homens com expressão e voz suplicantes.

 

TECA

-  Pelo amor de Deus, não façam isso com a  gente... Nós temos mãe e pai... Eles vão ficar desesperados...

Por favor...

 

Os homens derramam um olhar lamentoso sobre as crianças. A voz é chorosa e ao mesmo tempo firme.

 

ALTO

-  Vocês não sabem o que estão dizendo. A vida é uma cruz escura e pesada que a gente tem que carregar... Por isso nós criamos a “Confraria dos tristes fora do mundo”.

 

Gilberto chama os irmãos para um canto da sala.

 

GIL

-  Não adianta a gente discutir com eles... Temos que encontrar outro jeito.

TECA

-  Que jeito? Eles vão nos transformar em criaturas horríveis como eles mesmos.

 

De repente, Serginho arregala os olhos.

 

SERGINHO

-  Eu acho que achei...

 

Gil e Teca olham ansiosos para o irmão.

 

SERGINHO

-  O problema deles não é a tristeza, a depressão?... Então, vamos jogar alegria em cima deles...

GIL

-  Você está sonhando. Isso não vai dar certo... Nós estamos é perdendo tempo...

TECA

-  Eu acho que o Serginho tem razão. Vamos ver... Cadê a tua canetinha?

SERGINHO

-  Está aqui...

 Esta ponta azulada é a da alegria.

 

Teca coloca as pontas dos dedos na parte azulada, mostrada por Serginho.

 

TECA

-  Vamos, Gilberto, toca aqui... e vamos mentalizar alegria para esses homens.

GIL

Está bem... vamos ver.

 

Os três fecham os olhos para melhor poderem concentrar-se. Suas expressões relaxam e um leve sorriso desenha-se em seus lábios, depois suas fisionomias vão tomando expressão de profunda alegria. Ouve-se o canto de um pássaro sobre o telhado da casa. Depois outro e mais outro. Da cumeeira penetram na sala dois pássaros de belíssima plumagem colorida. Eles pousam sobre as mãos dos dois homens e começam a gorjear. Seu trinado é suave e belo. Aos poucos fica mais vibrante, cheio de encanto e alegria. Os homens não conseguem desgrudar os olhos dos pássaros. Suas expressões começam a mudar lentamente, muito lentamente. Seus rostos ficam menos tristes. Aos poucos, um sorriso tímido começa a esboçar-se num canto da boca espalhando-se para todo o rosto. Outros pássaros penetram na sala e ficam voejando em torno dos homens, juntando seus gorjeios aos demais. As crianças abrem os olhos e ficam deslumbradas.

 

 

SERGINHO

-  Que coisa fabulosa!

TECA

Nunca vi nada igual... nem na TV.

GIL

-  É demais!

 

Os pássaros continuam voando pela sala, soltando no ar seus magníficos gorjeios. O Alto começa a assobiar, tentando imitar os pássaros. O Baixo faz o mesmo. As crianças, felizes, começam a bater palmas e dançar. Os homens também começam a dançar. Primeiro sem jeito, duros... aos poucos vão relaxando e logo todos cantam, assobiam e dançam na maior alegria.

De repente, os pássaros vão embora, deixando a casa silenciosa...  O Alto olha o relógio e fica pálido. O Baixo prende a respiração. O minimicro no pulso de Gil começa a emitir sinais de alarme. Todos estão com medo, olhando uns para os outros...

 

ALTO

-  São os oficiais da Confraria que estão chegando...

BAIXO

-  Eu não quero mais voltar a ser triste... Prefiro morrer...

ALTO

-  Eu também não quero... Agora que senti o gostinho da alegria... nunca mais vou ficar triste... Nunca mais!

 

De fora chega o som de lamentos e o ruído de algo se arrastando no chão. Todos correm para a janela. Os Tristes estão chegando, gemendo, lamentando-se, arrastando uma enorme cruz escura.

O Alto dá um tapa na própria cabeça, como quem tem uma idéia importante e pergunta, dirigindo-se às crianças:

 

ALTO

-  O que foi que vocês fizeram há pouco, pra chamar aqueles pássaros?

BAIXO

-  É mesmo...

Vocês podem fazer isso de novo?

 

As crianças olham umas para as outras com um brilho de entusiasmo nos olhos. Serginho pega a canetinha e convida:

 

SERGINHO

-  Venham os senhores também. Segurem aqui... agora, é só pensar na alegria...

GIL

-  É melhor a gente ir lá pra fora...

 

Os cinco saem para fora, ficam em círculo e tocam a canetinha com os dedos. Fecham os olhos e seus rostos vão-se iluminando. Os da Confraria ficam espantados ao ver seus chefes transgredindo o maior de seus mandamentos (estão sorrindo), mas antes que possam dizer algo, os pássaros entram em cena, pousando sobre suas mãos e trinando alegremente. Acontece o mesmo fenômeno de antes. Seus rostos tristes começam lentamente a perder a expressão de tristeza e um tímido sorriso vai-se insinuando. Logo, logo, estão todos sorrindo, cantando, assobiando e dançando, na maior alegria, festejando o fim da tristeza. O Alto corre para dentro da casa e volta com uma lata de querosene. Os outros, como se fosse num ritual, batem palmas e ajudam a tocar fogo na enorme cruz que os oficiais haviam deposto no chão do pátio. Ficam dançando e batendo palmas, circulando em torno da cruz incendiada, até acabar de queimar. O dia já está dando sinais de luz, lá nas fímbrias do horizonte. Os homens preparam-se para partir. Teca dirige-se ao Alto e ao Baixo.

 

TECA

-  Por que não ficam com a gente?

 

O Alto responde, com largo sorriso nos lábios.

 

ALTO

-  Agora que descobrimos a alegria vamos aproveitar cada minuto.

Nós vamos sair por aí...  Cantar pras pedras e as árvores... Conversar com os pássaros e dizer pras pessoas que a alegria é a melhor coisa da vida...

 

O Baixo, num gesto expontâneo, ajoelha-se diante das crianças e fala com emoção.

 

BAIXO

- Nós agora estamos leves... cheios de vigor, de esperança... graças a vocês. Muito obrigado.

 

O Alto também se ajoelha, rindo e chorando de alegria. Pegam nas mãos das crianças, beijando-as.

 

ALTO

Muito obrigado mesmo... vocês nos salvaram.

BAIXO

Quem sabe, um dia a gente possa retribuir...

 

As crianças ficam mudas. Não sabem o que dizer. Os dois se levantam para seguir caminho. Os oficiais também agradecem efusivamente e todos partem assobiando e cantarolando, felizes, sob os deslumbrantes raios do sol matinal.

Teca esfrega os olhos e dá um longo bocejo.

 

TECA

- Acho que vou dormir um pouco.

 

Mal acaba de falar soa um alarme no minimicro. Gilberto olha a telinha, na qual aparece a frase: É hora de ir.

 

GIL

Tá dizendo que é hora de ir...

TECA

-  Ir, agora? ... eu tô morrendo de sono.

SERGINHO

-  Vá lavar o rosto que o sono passa.

TECA

Eu vou é dormir.

 

Serginho pisca o olho para Gilberto.

 

SERGINHO

-  Gil, vamos deixar a Teca aqui, descansando.

Vamos só nós dois.

 

Teca, que já estava encaminhando-se para a casa, dá um pulo.

 

TECA

Ficaram loucos? Me deixar aqui sozinha?...

 

Serginho e Gil caem na gargalhada, por causa da cara engraçada da Teca.

 

GIL

-  Vamo embora gente... pé na estrada. 

 

Saem Gilberto, Serginho e finalmente Teca, tomando o rumo do caminho.

 

 

Seqüência  12       CAMINHO DAS MONTANHAS             EXT / INT / DIA

                               NAVE DO RUK

 

As crianças param à beira do caminho para descansar. À sua frente, altas montanhas. Serginho olha em torno, procurando algo.

 

TECA

- Tá procurando o quê, Serginho?

SERGINHO

- Um lugar pra fazer pipi.

GIL

-  Ora essa. Faz atrás daquelas moitas, ali.

 

Serginho vai para trás das moitas de arbustos, que ficam bem na encosta da montanha, à frente de um rochedo, enquanto os outros deitam-se na grama para repousar.

Câmera  acompanha Serginho que some atras das moitas. Corta para Teca e Gil quase adormecidos sobre a grama. De repente Teca levanta a cabeça com ar preocupado.

 

TECA

-  Serginho tá demorando muito.

 

Gilberto grita na direção em que foi o irmão.

 

GIL

-  Hei, Serginho... Enganchou?...

 

Serginho não responde. Gilberto e Teca levantam e vão procurá-lo. Nada. Atrás dos arbustos, ninguém. Chamam... e, nada. Teca começa a chorar e Gil não sabe o que fazer. De repente lembra-se do minimicro e toca a telinha. Aparece a palavra: procurem.

 

GIL

-  Olha, aqui, Teca! O mini está mandando procurar.

TECA

-  Mas, procurar onde, Gil?

GIL

-  Sei lá...

 

Teca fica olhando os arbustos atrás dos quais Serginho sumiu.

 

TECA

-  Será que não tem alguma entrada secreta nesses rochedos?

 

Gil e Teca olham-se em silêncio e correm para os rochedos. Procuram um pouco e encontram uma estreita fenda, que se abre para uma gruta. A um canto no chão, bem visível mesmo na penumbra, uma lanterna e fósforos.

 

TECA

-  Olha ali, Gil!... Uma lanterna!

GIL

-  E uma caixa de fósforos!

 

Gilberto acende a lanterna e se dispõe a seguir pela gruta. Teca está com medo.

 

TECA

-  Gilberto... eu acho que é perigoso entrar ai...

GIL

-  A gente não tem escolha, Teca.

O Serginho pode estar em perigo...

TECA

Está bem... Mas vamos devagar.

 

Os dois seguem gruta a fora, caminhando em meio a estalactites e estalagmites com formas as mais belas e estranhas. A gruta termina em degraus ascendentes que levam a uma porta. Gilberto abre-a.  Não está trancada. Entram num longo corredor e chegam a um grande salão, em tudo semelhante àquele onde participaram da Assembléia comandada por Ashtarih.

Teca e Gil dão um suspiro de alívio. Acreditam estar nos domínios de Ashtarih. Uma voz, vinda não sabem de onde, fala.

 

VOZ

-  Muito bem, crianças.  Ashtarih vai recebe-los logo.

 

Entra um homem enorme de pele bronzeada e brilhante, vestido com uma espécie de bermudão feito em tecido tipo couro, cheio de detalhes de metal. Da cintura para cima está nu; nos braços alguns braceletes de couro e metal. Com um gesto convida as crianças a acompanha-lo, conduzindo-as para uma sala vizinha. Há um sofá, duas poltronas, estante com livros e, a um canto, um computador.

Teca e Gil sentam-se no sofá. Mal acabam de fazê-lo entra Fávia É muito parecida com Ashtarih. As diferenças estão na expressão do rosto, nos olhos e nas maneiras. Nos olhos de Ashtarih aparecem vez por outra uns raios dourados que vem lá de dentro; suas maneiras são encantadoras e seu rosto tem uma expressão suave, embora firme. Fávia tem os olhos dourados, como se usasse lentes de contato e suas maneiras são bruscas; a expressão é dura. Ela veste-se com roupas iguais às de Ashtarih. Fala, procurando ser simpática e tendo o cuidado de não mostrar os olhos de frente. Teca, aflita, vai logo perguntando:

 

TECA

-  Onde está nosso irmão... o Serginho?

FÁVIA

-  Não se preocupem. Já, já ele estará aqui.

GIL

-  Por que nos atraíram pra cá?

FÁVIA

- Vocês foram chamados aqui porque resolvemos mudar alguns planos.

 

Fávia vai caminhando pelo salão enquanto fala, sempre observando os Praxedinhos com o canto dos olhos e sem olhar para eles de frente.

 

FÁVIA

-  Nós estamos precisando falar com as crianças da Terra... com o maior número possível de crianças. E achamos que vocês poderão ser os nossos porta-vozes.

 GIL

-  Por que nós?

FÁVIA

 -  Porque vocês receberam o poder de Ashtarih... E vocês tem muito carisma... O que falarem vai repercutir na mente de todas as crianças semelhantes a vocês.

 

Gilberto e Teca percebem que há algo de errado nessa Ashtarih. Trocam rápido olhar e se entendem. Teca procura falar com naturalidade.

 

TECA

-  Semelhantes a nós?

FÁVIA

-  É... crianças assim... de boa natureza, fraternas, honestas...

GIL

-  E o que devemos fazer?

FÁVIA

-  Não se preocupem. No momento certo vocês saberão. Agora, vão ser levados a seus aposentos.

 

Fávia bate palmas rápidas e entra o mesmo homem que os conduzira até ali. Com um gesto convida as crianças a acompanhá-lo. Os “aposentos” são um apartamento de bom tamanho, bem mobiliado e belamente decorado. Na sala de jantar, a mesa posta com pratos os mais diversos, desperta o apetite das crianças.

 

TECA

-  Pelo cheiro, isto deve estar uma delícia.

 

Os dois sentam-se à mesa e enquanto fazem os pratos conversam disfarçadamente e em voz muito baixa.

 

TECA

-  Será que essa é mesmo a Ashtarih?

GIL

-  Achei ela estranha. Não tem aquele ar sincero e luminoso da outra. Temos que ter muito cuidado. Acho que eles pegaram Serginho.

 

Teca engole o medo e a vontade de chorar. Não podem dar demonstração de suas desconfianças. Sentam-se para comer. Teca está sem fome. Gilberto fala em voz baixa e disfarçando.

 

GIL

 -  Coma tudo, Teca. Precisamos estar alimentados... senão, como é que vamos poder salvar o Serginho?

 

As crianças terminam a refeição com demonstrações de sono invencível. Vão para o sofá e mal deitam, adormecem. Entram dois homens truculentos, vestidos como o anterior, e as carregam para fora do apartamento.

 

 

Seqüência   13     NAVE DO RUK – QUARTO DAS CRIANÇAS       INT / DIA

 

Teca e Gil estão no quarto, dormindo. Gil já está acordado e Teca dá sinais de acordar. A expressão de Gil é de raiva, irritação...

 

GIL

Ah, que raiva!

 

Gil observa a si mesmo. Olha para Teca e faz expressão de raiva.

 

GIL  -  (OFF)

Que é que está acontecendo comigo?

Preciso me controlar... a qualquer custo...

 

Teca levanta . Sua expressão também é de raiva. Segue para a sala. Ali estão Serginho e seu Timón.

 

TECA

-         Serginho!  Onde é que você estava?

 

SERGINHO   (irônico)

-  Aqui... Não está vendo?

TECA   (raivosa)

- Olha aqui, ô, seu coisa... Não comece com suas brincadeirinhas, que acabo te enchendo a cara de tapa...

 

Gil vindo atrás de Teca, também entra na sala.

 

GIL

-  Serginho! Onde é que você andou?

SERGINHO

-  Mas que saco!... Eu sei lá...

 

Gil está intrigado com a atitude dos irmãos e consigo próprio.

 

GIL

-  Seu Timón... que bom que o senhor está aqui.

 

Teca e Serginho olham para seu Timón com ar de poucos amigos.

 

SERGINHO   (irônico)

Bom, coisa nenhuma. Seu Timón some e aparece como se fosse um fantasma.

 

Seu Timon olha para as crianças observando suas expressões e reações. Percebe que Gil está mais controlado. Olha para ele e em seguida significativamente para o minimicro. Gil entende e consulta-o discretamente. Na tela, os dizeres: Computador – sala ao lado. Gil, como quem não quer nada, dirige-se para a sala ao lado. Ali tem um computador. Vai até lá e liga-o .

 

GIL

- Hei, pessoal. Aqui tem um micro.

 

Os outros vão também para lá, inclusive seu Timón. Na tela surgem imagens de uma região polar, seguidas de um mapa onde se vê o polo norte, a Noruega, a Suécia e a Finlândia. A parte norte destes países que fica dentro do círculo polar está destacada em outra cor, com o nome LAPÔNIA.

 

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INSERT

Seqüência  14              SALA DO RUK         INT / DIA

 

Na sala do Ruk, este e Fávia estão diante de um monitor, pelo qual estão observando as crianças e seu Timón.

 

FÁVIA

-  Grande Ruk, eu não entendo seu interesse por esse grupo. É apenas uma, das dezenas de equipes de Ashtarih.

 

Ruk olha para Fávia com ar de superioridade e uma ponta de desprezo.

 

RUK

-  Eu me interesso por todos eles... Mas esse menino, o  Gilberto, é um líder nato. Eu quero traze-lo para o meu lado... ou então...

 

Ruk completa a idéia com um gesto que significa, matá-lo.

 

FÁVIA

-  O que estamos esperando?

RUK

-  Os chips completarem seu efeito... aí, eles serão meus escravos.

 

 

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Continua Seqüência  13

 

Os quatro observam no computador imagens sobre a Lapônia.

 

GIL

-  Seu Timón, não é na Lapônia que tem o sol da meia-noite?

TIMON

-  É sim. No verão o sol fica girando no horizonte e não se põe, durante três meses. Já no inverno, é o contrário. São três meses de noite. O sol não aparece.

 

Seu Timon toma ares de contador de histórias.

 

TIMON

Há uma lenda por lá que fala na festa do sol. Diz que todos os animais do planeta mandam seus representantes para verem o sol nascer pela primeira vez depois dos três meses de noite polar. Dizem que eles tem um pacto de paz, de não agressão, durante duas horas.

 

As crianças esquecem um pouco o mau humor... estão curiosas. Gil digita: Lapônia - Festa do sol e dá enter, enquanto comenta.

 

GIL

- Deixa ver se tem alguma coisa sobre isso.

 

Na tela surge a imagem de um platô no alto de montanhas, tudo coberto de neve. Sobre o enorme platô, milhares de animais, dos mais diversos, aguarda em silenciosa expectativa, todos voltados para o nascente. No lado do nascente, uma gigantesca estátua de gelo representando um leão. A um canto, um trenó... daqueles fechados.

As imagens se animam e no céu surgem luzes fantásticas como cortinas luminosas em movimento constante, ou como ondas de fogo que vão subindo do horizonte ao zênite.

 

TECA

- Que coisa mais linda!

O que é isso?

 

TIMON

É a aurora boreal.

SERGINHO

Aurora boreal?

TIMON

Ela ocorre nas regiões polares, nos períodos em que o sol tem uma atividade maior. As partículas solares aproximando-se da Terra, são desviadas ou atraídas para os pólos. Essa luminosidade ocorre quando entram em contato com a atmosfera.

 

A imagem mostra o horizonte começando a iluminar-se levemente, com prenúncios dos primeiros clarões do sol nascente. Seu Timón, como quem não quer nada, pega no mouse, leva a seta até o trenó e dá um comando de zoom. Ao mesmo tempo, fala intencionalmente.

 

TIMON

Eu prefiro ver o que está acontecendo em Londres.

 

O zoom traz o trenó para tela cheia e tudo começa a rodar e o grupo entra nesse torvelinho, perdendo noção de lugar...

 

 

Seqüência  15         LAPÔNIA – DENTRO DO TRENÓ       INT / DIA

 

Quando o torvelinho pára, eles estão dentro do trenó, daquele que tinham visto no computador. As cortinas estão fechadas, não dando para verem o que há lá fora.

 

TIMON

Gilberto. Digite CANAL RUK DEL.

GIL

-  Por que?

 

Seu Timón fala em voz de comando.

 

TIMON

Faça logo! Rápido!

 

Gil obedece e seu Timón respira aliviado.

 

TIMON

Pronto. Conseguimos escapar ao Ruk Pollus.

 

As crianças estão espantadas.

 

TECA

-  Escapar ao Ruk Pollus?...

TIMON

-  Nós estávamos na nave dele.

 

GIL

-  Bem que eu estava desconfiado...

TECA    (agressiva)

Tô cheia de você, Gilberto, com esse seu ar de sabe-tudo.

 

Serginho também se prepara para dizer algo agressivo, mas seu Timón não deixa.

 

TIMON

-  Parem com isso...

Eu acho que o Ruk colocou algum chip em vocês.

OS TRÊS

-  Chip?...

 

Seu Timón confirma com a cabeça e a expressão e as crianças começam a procurar, apalpando-se. Serginho, passando a mão na nuca sente algo estranho. Gil vai olhar e com cuidado retira o chip. Todos se olham espantados. Seu Timón ajuda a retirar os chips de Teca e Gilberto, enquanto comenta, com alegre sorriso.

 

TIMON

-  Eles vão nos procurar em Londres.

GIL

E se desconfiarem que viemos para cá?

TIMON

-  Mais cedo ou mais tarde eles nos encontram... Mas eu preciso falar com vocês, sem que eles saibam.

 

As crianças estão sérias, compenetradas. Estão tomando consciência dos riscos que correm. 

 

TIMON

-  O Ruk está voltando seus esforços especialmente para vocês...

SERGINHO

Por que?

TIMON

-  Não sei ao certo, mas ele vai fazer carga pesada...

 

Serginho e Gil estão sérios. Teca começa a querer chorar.

 

TECA

E agora?...Eu sabia que ia sobrar pra a gente.

GIL

-  Deixa de ser boba, Teca. Se não conseguirmos anular o Ruk, vai sobrar pra a humanidade inteira... inclusive nós.

 

Teca engole as lágrimas.

 

TIMON

-  É importante que mantenham calma.

 

Há instantes de silêncio. Câmera colhe expressões fisionômicas dos quatro. Finalmente Gil fala.

 

GIL

-  O que o Ruk pretende fazer?

TIMON

-  Parece que ele conseguiu criar uma tecnologia... uma espécie de atalho entre as realidades virtual e real. Por esse canal ele pretende dominar as mentes e emoções dos operadores de computador...

 

As crianças estão deveras temerosas. Gilberto fala a custo.

 

GIL

-  Mas, então... se ele conseguir isso... vai poder escravizar todas as pessoas que mexem com computador.

TECA

-  Mas isso é terrível!

 

 

SERGINHO

-  Desse jeito o mundo tá perdido...

TIMON

-  Calma... Também não é assim.

O Ruk, pra ativar esse atalho, precisa dobrar os seus estoques de Energia Psi Negativa.

E, pra isso, ele espera contar com vocês, através de programas de rádio e TV.

GIL

-  Mas nós nunca faríamos isso.

TIMON

Se tivessem continuado com os chips...

 

Serginho passa a mão pela nuca, onde estivera o chip e fala com ar muito sério.

 

SERGINHO

Mas esse Ruk é muito perigoso.

TIMON

-  Ele é perigoso, sim... Mas vocês tem como anulá-lo...

Essa, aliás, é a missão de vocês e das outras equipes de Ashtarih...

 

As crianças estão boquiabertas. Suas expressões são de susto, medo e ansiedade. Olham-se... As fisionomias mudam para expressão decidida. Teca levanta a mão, como num juramento e fala em tom solene.

 

TECA

Eu não reclamo mais... e vou trabalhar com tudo que puder... com tudo... Enquanto não ver os projetos desse Ruk Pollus destruídos.

 

Gil também levanta a mão e o tom é solene.

 

 

 

GIL

-  Pra mim, a primeira prioridade da minha vida vai ser essa luta contra Ruk Pollus e seus horríveis projetos... até que ele seja vencido.

 

 

Serginho faz o mesmo.

 

SERGINHO

E eu também... até que o Ruk seja vencido.

 

Ouve-se lá fora, vinda do interior da estátua de gelo um som estranho, como toques de trombeta. Seu Timón entreabre a cortina da janela do trenó. Os primeiros raios do sol começam a brilhar estranhamente no gelo da imensa estátua, mas o resto do platô ainda está com um pouco de penumbra, dando mesmo assim para ver que está repleto de animais, todos em silenciosa expectativa. As crianças estão boquiabertas. Finalmente Serginho consegue falar.

 

SERGINHO

Uai... Parece que viemos pra Lapônia.

GIL

Nossa!  Quanto bicho!

 

Serginho e Gil começam a procurar a porta do trenó, para descerem. Teca se interpõe.

 

TECA

-  Vocês estão loucos?...

GIL

Besteira, Teca. Não viu que eles tem um pacto de não agressão durante duas horas?

TIMÓN

Não agressão, entre eles...

 

Antes que Gil possa dizer algo, os lábios da estátua parecem mover-se e uma voz grave, como se saísse das entranhas da terra, dirige-se aos presentes, ressoando naquelas vastidões geladas com ecos estranhos.

 

ESTÁTUA

-  Nobres cavalheiros e belas damas do reino animal. Sejam benvindos à festa do Sol.

Dentro de instantes o astro-rei vai mostrar-se a nós por alguns instantes e, então, a calota polar irá tremer com a vibração das nossas vozes reunidas, saudando o Sol...

 

O platô da montanha estremece com as vozes dos animais, concordando com o que foi dito. A estátua de gelo continua:

 

ESTÁTUA

-  Mas, enquanto aguardamos e conforme rezam nossas tradições, façamos um pensamento fraterno para o Rei da Criação: o homem.

 

Os ocupantes do trenó estão mais do que espantados. De repente Teca dá um pinote.

 

TECA

Gente, vamos aproveitar essa energia...

GIL

-  Aproveitar como?... Pra quê?

TECA

- São milhares de animais fazendo uma vibração de fraternidade... Vamos multiplicar essa energia... pra ajudar a destruir as reservas do Ruk Pollus...

 

Enquanto fala, Teca apanha a pedrinha cor-de-rosa, segurando-a na mão. Os outros colocam  uma das mãos em cima dela e todos fecham os olhos, para melhor poderem concentrar-se. A estátua continua falando. Durante a cena inserts com detalhes dos animais ouvindo a estátua e dos ocupantes do trenó fazendo suas mentalizações.

 

ESTÁTUA

- Nós, os animais, considerados bichos, feras... já somos capazes de nos reunir numa assembléia fraterna uma vez por ano. Nessas duas horas nenhum de nós faz um mau pensamento a respeito do próximo. Ninguém tem um gesto indelicado. Todos somos atenciosos e afáveis, educados e prestativos.

Pergunto-lhes: quando será que o homem, “Rei da Criação”, conseguirá viver um só minuto de fraternidade?

Agora, irmãos, vamos fazer silêncio enquanto aguardamos o primeiro toque dos raios do Sol.”

 

Os quatro reabrem os olhos e dão um grito. Há uma mão escura e cabeluda sobre as deles. Detalhes das expressões de susto. Detalhe de Gil virando a cabeça lentamente, apavorado. Pan da mão cabeluda, subindo pelo braço até a cara de um chimpanzé que está bem ao lado de Gil. Este dá outro grito e o chimpanzé acha engraçado, bate palmas. O grupo relaxa, menos Teca, encolhida num canto o mais longe possível do animal. Gil, primeiro com medo, depois mais despreocupado, estende a mão para o macaco e ele a segura. Gil fala, ainda meio assustado.

 

GIL

-  Bom dia, seu macaco...   Tudo bem?

 

O chimpanzé faz-lhe um cafuné, com a outra mão. Gil fica encantado. Os outros respiram aliviados, menos Teca, que ainda está com medo.

 

GIL

-  Eu sou Gilberto... Este aqui é seu Timón, e estes dois são meus irmãos, Teca e Serginho...

TECA

Acho bom botar esse bicho pra fora... eu não confio nele...

GIL

De jeito nenhum. Ele é meu amigo... Ele é meu.

Eu vou chama-lo de Migão... Não é, Migão?

 

Do horizonte, cor de fogo, os raios do sol já começam a iluminar o platô com os animais. Ouve-se de novo a voz, cujos ecos percorrem as montanhas:

 

ESTÁTUA

-  Sol... luz que nos alumia, calor que nos aquece, energia que nos vivifica, sê benvindo. Traz tua luz e calor a estas regiões escuras e geladas, aquecendo também os corações dos animais... e dos homens.

 

Ouve-se então, como se fosse o rugir de tempestades, milhões de animais gritando a uma só voz:

 

ANIMAIS

- SALVE O SOL!... SALVE!!!

 

Os quatro estão paralisados de espanto. Aos poucos, vão se recuperando. Gilberto esfrega a testa e exclama:

 

GIL

-  Nunca pensei que pudesse existir uma coisa assim! É demais!

TECA

-  Ninguém vai acreditar quando a gente contar...

 

De repente ouve-se um ruído esquisito, como o bater de asas gigantescas. Seu Timón olha pela janelinha do trenó.

 

TIMON

-  É um pássaro gigante... imenso!...

 

Mal acaba de falar o trenó é violentamente arrancado do solo, começando a voar. Seu Timón grita.

 

TIMON

-  Cuidado! Não abram a porta, senão podemos cair.

 

As crianças estão apavoradas. Seu Timón, depois do susto inicail, parece divertir-se. Sentado junto à fresta, vai dando conta do que acontece:

 

TIMON

 -  Estamos a grande altura... viajando para o sul.

 

Inserts de imagens aéreas, primeiro de regiões frias, com neve, passando a outras mais quentes: campos florestas, cidades, mar... Detalhes das crianças, Teca com medo, Serginho e Gil assustados, embora encantados com a aventura, Migão, junto a Gil, parecendo divertir-se. Teca lembra-se de algo.

 

TECA

Por que não pedimos socorro no minimicro?

TIMON

-  Para pedir socorro é preciso os três estarem de comum acordo. Todos os três tem de teclar, um depois do outro.

 

Serginho, apesar do medo, está adorando a aventura.

 

SERGINHO

-  Eu acho que não precisa pedir socorro.

GIL

Eu também acho...

TECA

-  Será que vocês só sabem ser do contra? A gente tá nesse sufoco e vocês num tão nem aí...

 

Gilberto está pensativo. Olha para seu Timón como quem quer perguntar mas desiste. Seu Timón sorri embaixo dos bigodes grisalhos.

 

TIMON

-  Por que não pergunta?

 

Gil, apanhado de surpresa, pergunta.

 

GIL

Será que aquela ação, lá com os animais... valeu?

 

Seu Timón fala com seriedade.

 

TIMON

-  Não lembram do que disse Ashtarih? É claro que valeu... e muito.

Aliás... vocês estão fazendo um excelente trabalho.

 

Expressões das crianças, satisfeitas com o elogio.

 

TIMON

-  É por isso que o Ruk está de olho em vocês.

 

Expressões das crianças murchando diante do aviso.

 

Seqüência   16    NINHO DA ÁGUIA  /  SOPÉ DO NINHO   EXT / DIA / NOITE

                           

Já está anoitecendo. Um solavanco, e o trenó fica imóvel, enquanto o bater de asas do pássaro vai se distanciando até desaparecer.

 Seu Timón espia pela janelinha.

 

TIMON

-  Parece que pousamos...

É melhor eu ver primeiro, antes de vocês descerem.

 

Seu Timón abre a porta do trenó e olha para fora.

 

TIMON

-  É... acho que estamos no ninho desse bicho.

 

Desembarcam. Estão no topo de um penhasco. Teca arregala os olhos e fala num gemido.

 

TECA

-  E se ela voltar e... quiser nos jantar?

 

Serginho fala brincando.

 

SERGINHO

-  E se ela quiser nos adotar?... Aí a Teca  vai ser filhote de águia...

 

Teca olha para o irmão com os olhos arregalados, mas antes que diga qualquer coisa, seu Timón dá uma informação ainda mais assustadora.

 

TIMON

-  Deve ter cobra por aqui. É bom ter cuidado.

 

Teca arregala tanto os olhos que parece quererem saltar das órbitas.

 

TECA

-  Não brinque com a gente, seu Timón. Se aqui tem cobra eu vou embora... de qualquer jeito... Eu morro de medo...

 

 

SERGINHO

-  Só se pedir carona pra águia...

Eu acho é que vamos acabar dividindo o trenó com elas.

 

Teca está apavorada. Gilberto fica com pena.

 

GIL

-  É conversa deles, maninha. Não se preocupe que a gente dá um jeito de sair...

Aliás, daquele lado ali, acho que dá pra descer... O Serginho vai na frente e se tudo der certo... aí a gente também desce.

 

Serginho está com ar desconfiado.

 

SERGINHO

-  Por que eu na frente?

GIL

-  Porque você é o mais gordinho... e se em vez de um caminhozinho encontrar uma caidazinha... não vai nem se machucar. Ai então a gente resolve se desce ou fica aqui.

 

Serginho, tão acostumado a rir de tudo, não percebe a brincadeira de Gilberto e comenta, magoado:

 

SERGINHO

-  Eu pensei que vocês gostassem mais de mim.

GIL

-  Estou brincando, seu bobo. Se a gente tiver que dar o “mergulho” vamos todos juntos... Não somos irmãos?

 

Serginho sorri, satisfeito. Gosta dos irmãos e de sentir-se amado por eles. Enquanto isso Migão, como se entendesse, aproxima-se da beira do precipício e com sua mímica especial mostra que por ali dá para descer.

Ouve-se um ruído como se uma tempestade estivesse se aproximando. Olham e um grito sai junto de todas as gargantas. A águia gigante está voltando para o ninho. Sem tempo para mais nada, começam a descer a encosta. Alguns arbustos os escondem da águia, que fica voando em torno dos rochedos a sua procura.

Chegam embaixo com alguma dificuldade. De repente, são cercados por três nativos, armados com arco e flecha, lanças e facões. Enquanto um vigia, de lança na mão, os outros dois tratam de amarrar seu Timón e as crianças em troncos de árvores. Confabulam em sua língua. Um sai, como que a buscar reforços e dois ficam vigiando, sentados à sombra de uma árvore.

Serginho, que não perde o bom humor, nem mesmo numa circunstância como aquela, comenta.

 

SERGINHO

-  É... parece que pulamos da frigideira no fogo.

 

Teca está apavorada.

 

TECA

-  Que será que vão fazer com a gente?

TIMON

-  Não creio que nos façam mal...

SERGINHO

-  Talvez só queiram nossas cabeças pra enfeitar suas casas.

 

Teca está a ponto de ter um piripaco de tanto medo. Gil fica com pena.

 

GIL

-  Pára com isso, Serginho. Será que nem mesmo numa situação dessas você deixa de brincar?

 

Teca começa a chorar, mas seu Timón adverte:

 

TIMON

-  Segura as lágrimas, Teca. Pelo que sei os nativos não gostam de choro. Eles podem ficar zangados...

 

Teca tenta engolir o choro.

 

GIL

-  Nós temos que dar um jeito de escapar, antes que cheguem reforços.

 

Seu Timón procura soltar-se.

 

TIMON

Esses nativos parece que são especialistas em dar nó...

 

Gil olha em todas as direções. A penumbra do crepúsculo deixa ver sombras por toda parte.

 

GIL

-  Cadê o Migão? Será que ele se perdeu da gente? ... Pobre Migão!

SERGINHO

-  Pobre? Ele é muito é felizardo... escapou da sopa.

TECA

Sopa?

SERGINHO

A não ser que eles achem melhor fazer churrasco...

 

Serginho não completa a frase. Vê, a sua frente e atrás dos vigias, os dois ex-homens tristes que fazem sinal para ficarem calados. Ambos trazem nas mãos pedaços de pau. O Alto faz sinal para o Baixo, mostrando de qual dos vigias ele deve cuidar. Em seguida, vão-se aproximando silenciosamente e basta uma paulada bem aplicada para fazer dormir os dois nativos. Os Praxedinhos e seu Timón demonstram alegria e alívio, enquanto os dois ex-tristes amarram os desmaiados.

 

GIL

-  Puxa! Os senhores chegaram bem na horinha. Só está faltando...

 

Detalhe da expressão de pavor de Gil, que não conclui a frase. Câmera corrige para as suas mãos, amarradas atras, vendo-se as mãos cabeludas de Migão desamarrando-o. Detalhe da expressão de Gil que passa de pavor para a esperança e dai para alegria ao perceber quem é que está às suas costas. Detalhe das expressões de seu Timón, Teca e Serginho, rindo da cara de Gil.

Gil, ao ficar solto abraça Migão, efusivamente.

 

GIL

-  Eu sabia que cê não ia abandonar a gente! Cê é grande, Migão!

 

Os ex-tristes mal terminam de soltar os outros, quando ouvem-se gritos dos nativos. Algumas tochas refletem seus clarões ameaçadores na galharia das árvores.

 

ALTO

-  Vamos!!!  Depressa!!!

 

O grupo parte correndo na penumbra do anoitecer. Seu Timón leva Teca pela mão, o Alto ajuda Gilberto que, por sua vez puxa Migão e o Baixo leva Serginho pela mão. Correm o mais que podem, apesar do escuro. Os gritos dos nativos aproximam-se cada vez mais. Logo estão tão perto que começam a atirar flechas. Algumas delas passam zunindo, próximas. De repente, uma flecha atinge Migão  nas costas. Gilberto segura firme a mão do animal, puxando-o, mas ele cambaleia e acaba caindo. O Alto passa para o outro lado e pega Migão pela outra mão. Dessa forma, conseguem carrega-lo. Mas os nativos, muito ligeiros, já os estão cercando, dando gritos de vitória.

Olham uns para os outros com desalento, assim  como quem “entrega o couro às varas”. Quando os nativos se aproximam e já estendem as mãos para pega-los aparece no céu uma luz... um foco de luz azulada que envolve o grupo e o suga para cima, deixando os nativos confusos e apavorados. Uns, mais corajosos, ainda atiram flechas e jogam lanças nos fugitivos aéreos, mas sem atingi-los.

 

Seqüência  17           NAVE DO RUK        INT / NOITE

 

O grupo dá entrada na nave do Ruk estacionada a grande altura. Gilberto e o Alto colocam Migão, cuidadosamente, no chão. Seu Timón, com muito cuidado, consegue retirar a flecha e faz uma atadura com um pedaço de pano rasgado da roupa de alguém. O estado do animal parece melindroso. Gilberto senta a seu lado, alisando-lhe o pêlo macio. Tem lágrimas nos olhos e na voz:

 

GIL

-  Você vai ficar bom Migão...

... nós vamos cuidar de você...

 

O grupo está reunido em torno do chimpanzé. Teca pergunta em voz baixa.

 

TECA

-  Será que estamos nos domínios do Ruk?...

TIMON

-  Só esperando pra ver... Mas algo me diz que sim.

 

Mal acabam de falar entra Fávia, desta vez sem os disfarces que a tornavam parecida com Ashtarih. Traz uma capa longa em tons de vermelho, azul marinho e dourado ricamente bordada e na cabeça uma tiara, também em tons fortes..

Pára em frente ao grupo. Olha intencionalmente para as crianças e fala sem rodeios:

 

FÁVIA

-  Eu tenho uma proposta pra vocês. Venham, por favor.

GIL

-  Seu Timón vai com a gente...

FÁVIA

-  Está bem... mas só ele...

 

O grupo, menos os ex-tristes, segue Fávia até um grande salão, carregando Migão, desacordado. Fávia olha com ar de desprezo para o macaco. Numa das pontas do salão um grande painel de comando em frente a um enorme globo representando a Terra girando no espaço.  Em seu giro ela vai sendo iluminada por um grande foco, representando o sol. Todos os países estão demarcados por linhas e as grandes potências aparecem em cores mais brilhantes e fortes. Na outra ponta uma  mesa com cadeiras, para a qual Fávia conduz os “visitantes”.

 

FÁVIA

-  Sentem-se.

 

Migão é cuidadosamente colocado num sofá e o grupo toma assento à mesa. Fávia olha as crianças uma por uma e diz com firmeza e sem rodeios:

 

FÁVIA

-  Como vocês sabem, o grande Ruk Pollus está se preparando para governar o mundo... E para consegui-lo... falta pouco.

 

Faz um gesto largo com a mão abarcando o grande globo, e continua:

 

FÁVIA

- Nós vamos fazer deste planeta tudo o que quisermos... Entenderam?

 

Fávia tenta sorrir para tornar-se simpática mas está tão acostumada à frieza de sentimentos que só consegue fazer uma careta. Teca consegue dominar o medo e pergunta com ar ingênuo.

 

TECA

-  Se vocês são tão poderosos assim, por que estão querendo nossa ajuda?

 

Seu Timon sorri da pergunta inteligente, enquanto Fávia responde.

 

FÁVIA

-  É  porque  precisamos do trabalho de vocês para completar nossas reservas de energia.

 

Fávia olha intensamente para as crianças, como a passar-lhes um pouco de sua própria ambição.

 

FÁVIA

-  Pollus é muito generoso com quem o serve... Muito generoso mesmo...

 

Faz-se ainda mais insinuante.

 

FÁVIA

-  Vocês podem escolher... podem pedir qualquer coisa... riqueza, poder... qualquer coisa...

GIL

-  Qualquer coisa mesmo?

FÁVIA

-  Qualquer coisa. É só pedir... Imaginem tudo aquilo que vocês mais possam desejar...

 

Gilberto olha para Migão, profundamente penalizado. Suspira.

 

GIL   (OFF)

- O que eu mais queria agora é ver o meu amigo curado.

 

Como que adivinhando, Fávia vai até o animal e toca-o com a ponta do dedo procurando disfarçar o nojo.

 

FÁVIA

-  Nós temos meios de tratá-lo. Temos médicos, veterinários... tudo que é preciso...

É só vocês decidirem nos ajudar...

 

As crianças estão silenciosas. Fávia vê que a parada está difícil. Trata de apelar. Vai até Gil e puxa-o pela mão até Migão.

 

FÁVIA

-  Não quer salvar o seu amigo?

 

Gilberto ajoelha-se ao lado do amigo, alisa seu pêlo macio e fica olhando para ele com olhar distante, como quem consulta a própria consciência.

Fávia observa a cena. Não quer dar tempo ao grupo para pensar. Puxa Gil delicada, mas firmemente, pela mão, para junto da mesa. Gil permanece em pé.

 

FÁVIA

-  Vocês, Teca e Serginho também podem pedir qualquer coisa que quiserem... O senhor também, seu Timon. Vamos... peçam!

 

Gilberto, Serginho e Teca trocam um olhar e se entendem. Gilberto volta para junto de Migão, abaixa-se e fica olhando para ele. Duas lágrimas se formam em seus olhos. Abraça o animal, enterrando o rosto no pescoço peludo, como a pedir-lhe perdão e volta para junto dos outros. Tem lágrimas nos olhos mas encara Fávia com serenidade.

 

GIL

-  Está bem... Então vamos pedir.

 

Gil faz uma pausa. Fávia já sorri, vitoriosa.

 

GIL

-  Nós queremos que haja paz na Terra; que haja fraternidade, justiça, honestidade e respeito. Que todos os seres humanos tenham direito a uma vida digna e com plena liberdade...

 

Detalhe da expressão de Fávia, passando de esperançosa para furiosa. Gil faz pequena pausa e conclui com firmeza.

 

GIL

- É isso que nós pedimos... e queremos.

E é por isso que vamos lutar... nem que seja até a última gota do nosso sangue... sempre.

 

Fávia não contava com essa reação das crianças. Está com vontade de esganá-las, mas contém-se. Procura abrandar a voz.

 

FÁVIA

-  Isso é utopia...

 

Serginho pergunta, ingenuamente.

 

SERGINHO

-  O que é utopia?

 

Seu Timón sorri da pergunta numa hora tão inoportuna.

Enquanto rola a próxima conversa, Teca dá uma leve cutucada em Serginho e Gilberto por baixo da mesa, mostrando-lhes a pedra cor-de-rosa que Ashtarih lhe dera. Os dois entendem, encostam as pontas dos dedos na pedra e se concentram. Observa-se que as crianças, mesmo aparentemente atentas, estão concentradas em emoções ligadas ao amor, direcionadas à própria Fávia Seu Timón percebe as intenções das crianças e procura distrair Fávia e ganhar tempo.

 

TIMÓN

-  Utopia é um país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, que viveu  pelo ano 1.500 da nossa era. É um país onde o governo é organizado de maneira a proporcionar ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz...

 

Fávia corta.

 

FÁVIA

-  O que é absolutamente impossível.

GIL

-  Eu acho que só é impossível se as pessoas não quiserem.

 

Fávia arregala os olhos. Não sabe que sensação estranha é aquela que lhe penetra os sentimentos. Sua expressão se abranda e todo o corpo relaxa. Aos poucos um suave sorriso começa a se esboçar em seu rosto.

A porta se abre intempestivamente e entra Ruk Pollus, enraivecido, acompanhado de cinco gigantes, nus da cintura para cima. Outros dois entram arrastando os ex-tristes.

 

RUK

-  Levem-nos! Levem-nos depressa! Todos eles! Depressa!

 

Os homens agarram os “visitantes” , inclusive Migão, e os levam para uma espécie de plataforma de desembarque. A grande nave está pousando numa planície onde são largados nossos amigos. Os gigantes retornam rapidamente a bordo e o estranho aparelho decola, desaparecendo quase em seguida.

A ação foi enérgica e rápida.

 

SERGINHO

-  Pôxa! Escapamos fedendo.

 

 

 

Seqüência  18     PLATÔ NAS MONTANHAS       EXT / NOITE

 

O grupo está acampado num pequeno platô, numa região muito árida. Seu Timón está terminando de fazer um curativo em Migão, usando ervas medicinais.

 

TIMÓN

-  Vamos ver se com isso podemos salvar nosso amigo...

 

Deitam-se sobre palha e folhas secas. Gil, é claro, ao lado de  Migão. As estrelas brilham intensamente no céu. Seu Timon, olhando as estrelas, fala como se estivesse dizendo a si mesmo.

 

TIMÓN

-  Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.

 

 

GIL

-  Que legal!... Não sabia que o senhor era poeta.

SERGINHO

O que significa isso de “a lei moral dentro de mim”?

TIMON

-  Isso foi dito por Kant, um filósofo alemão que viveu no século XVIII. Para ele, todas as pessoas sabem o que é certo e errado. Não porque aprenderam mas porque a lei moral é algo que faz parte da própria razão. Alguns filósofos acham que a consciência é uma parcela de Deus em nós.

 

Gil fica pensativo.

 

TECA

-  Mas nem sempre a gente sabe se está agindo certo, ou não.

TIMON

-  Há uma regra básica, infalível: só fazer aos outros o que gostaríamos  que os outros nos fizessem.

TECA

-  A maioria das pessoas faz o contrário.

TIMON

-  Mas não são felizes... Quem age contra a consciência está violentando a si mesmo...

 

Detalhes das expressões dos sete, sonolentos, e adormecendo sob as estrelas.

 

Seqüência   19     PLATÔ NAS MONTANHAS         EXT / DIA

 

O dia já amanheceu. Migão está de cócoras, coçando a cabeça de Gil. Este acorda, abre os olhos e vê, recortado contra o céu, a figura de Migão. Olha atônito para o animal e seus olhos vão se enchendo de lágrimas.

 

GIL

-  Migão, você está curado!...

Gente, o Migão tá curado!

 

Os outros acordam e vão levantando.

 

TECA

-  Olha... que legal!

 

Serginho vai acarinhar Migão. Seu Timón e os ex-tristes também se aproximam.

 

TIMON

-  É... parece que ele está bem...

 

O Alto olha sorrindo para Migão e depois para os outros. Enquanto rola a conversa os dois partem.

 

ALTO

-  Nós já vamos...

BAIXO

-  Até um dia.

GIL

Muito obrigado pela ajuda.

ALTO

Aqui, quem deve somos nós.

TECA

Adeus e obrigada!

SERGINHO

Se cuidem, tá?!

 

Seu Timón acena em despedida e ao desviar os olhos vê algo.

 

TIMON

Parece que tem uma caverna ali.

Vou dar uma olhada.

 

Seu Timón entra na caverna e os outros vão atras.

 

 

Seqüência  20    SALA DOS BRINQUEDOS  E  DAS ESTÁTUAS DE PEDRA   -   INT / DIA

 

Seu Timón, as crianças e Migão estão na caverna. Num canto, uma fenda.

 

TECA

-  Olhem! Ali parece que tem uma passagem.

GIL

-  É mesmo...

 

Entram por ela. Andam um pouco e chegam diante de uma parede com uma porta fechada. Em cima, uma placa onde se lê: “ FAÇA UMA BOA AÇÃO E RECEBA UMA GRANDE RECOMPENSA”.

Teca coça o canto da boca .

 

TECA

-  Que esquisito! Se alguém faz uma boa ação pra receber uma recompensa...

GIL

-  Já não é uma boa ação...

 

Seu Timón abre a porta e entram numa sala que mais parece uma loja. Nas paredes várias

prateleiras com objetos ainda dentro das embalagens originais: inúmeros tipos de brinquedos, roupas exóticas, eletrodomésticos, jóias... Os olhos das crianças brilham ao olhá-los.

 

GIL

-  Um vídeo-game!... Olha Serginho, é o nosso, aquele que a gente morre de querer...

TECA

-  Meu patim!... Eu sempre quis ter um desses.

 

Seu Timón observa uma pequena bolsa ou capanga, com uma plaquinha onde está escrito: “Bolsa mágica. Contém  sete moedas de ouro. Sempre que seu dono tirar uma, surge outra igual em seu lugar”.

 

TIMÓN (OFF)

-  Arre!!!... Quer dizer que o dono desta bolsa pode ser a pessoa mais rica do mundo. É só ir tirando moedas de ouro...

 

Até Migão apanha um brinquedo, um boneco com cara engraçada. Nisso, abre-se uma porta nos fundos da sala. Os cinco olham desconfiados.

 

GIL

-  Se a porta está aberta, acho que é pra a gente passar.

 

Gilberto na frente, em seguida Migão e depois os outros passam pela porta e encontram-se em outra sala cheia de estátuas. São assustadoras. Parecem pessoas petrificadas: homens, mulheres e crianças. Teca se aproxima para olhá-las mais de perto, dá um grito e corre a abraçar-se com Gilberto.

 

TECA

-  Essas estátuas parecem gente!

 

Ao fundo da sala um grande trono de ouro, todo cravejado de pedras preciosas e sentado nele, um homem vestido como um rei, mas com ar muito triste. Seus pulsos estão algemados ao trono. Ao ver os visitantes por seus olhos passa um brilho de esperança.

 

 

REI

-  Sejam benvindos... Eu sou o Rei destas montanhas.

 

As crianças olham-se, assustadas. Seu Timón apresenta um ar enigmático.

 

REI

- Aproximem-se por favor... Não tenham medo... Não estão vendo que estou algemado?

 

As crianças e seu Timón aproximam-se e Migão vai até o trono examinar tudo com sua natural curiosidade. O Rei continua:

 

REI

-  Antigamente, todos os dias eu cavalgava ao amanhecer, despertando a natureza...

Tudo tinha vida e beleza. As encostas eram cheias de mata, pequenos riachos e magníficas cascatas. Havia muitos animais silvestres, muitos pássaros... tudo era alegria...

 

As crianças estão impressionadas.

 

TECA

-  O que aconteceu?

REI

-  O gênio do mal conseguiu me prender aqui... Não posso mais acordar a natureza ao alvorecer... Vocês devem ter visto que lá fora está tudo morto...

 

A expressão de tristeza do Rei comove os presentes.

 

GIL

-  E não se pode fazer nada? Ninguém pode soltar o senhor?

REI

-  Pode sim... Se vocês querem, podem me libertar... e podem pedir o que quiserem como recompensa...

SERGINHO

-  Podemos pedir o vídeo-game?

REI

-  Podem sim... Qualquer coisa... até mesmo aquela bolsa mágica.

TECA

-  Bolsa mágica?

REI

-  É uma bolsa com sete moedas de ouro. Quando seu dono tira uma aparece outra no lugar...

 

As crianças estão maravilhadas... Seu Timón, apenas observa com ar enigmático. O rei espera, com expressão terrivelmente ansiosa.

 

 

REI   (OFF)

-  Será que eles vão cair na armadilha?

 

 

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Seqüência  21          NAVE DO RUK            INT / DIA

(Intercalada na seq. 20)

 

Na sala de comando da nave, Fávia e Pollus observam num monitor de TV cada detalhe da cena.

 

FÁVIA

Eu acho que eles vão cair... a tentação é muito grande.

 

Fávia faz uma expressão maldosa.

 

FÁVIA

-  ...E ficamos livres deles... pra sempre.

 

Ruk dá um murro em algo. Fala com ódio.

 

RUK

-  Três fedelhos ganhando batalhas contra Ruk Pollus!!!...

Ah, mas eles me pagam... Vou transforma-los em brita... e eles vão servir de alicerce pra minha estátua, quando eu for o dono do mundo...

 

 

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Continua  Seqüência  21

 

As crianças estão na sala dos brinquedos, escolhendo as recompensas. Não estão mais tão entusiasmadas quanto antes.

 

GIL

-  Vocês acham certo a gente pedir recompensa por uma boa ação?

 

Olham umas para as outras em silêncio por instantes. Não dizem palavra, mas devolvem os brinquedos às prateleiras. Gilberto tira o boneco das mãos de Migão.

 

GIL

-  Migão... dessa vez não vai dar...

 

Seu Timón sorri embaixo do bigode grisalho. As crianças voltam à sala das estátuas e Gilberto, como porta-voz do grupo, dirige-se ao Rei.

 

GIL

-  Desculpe, seu Rei, mas nós não queremos recompensa. Basta o senhor dizer o que é preciso fazer...

 

Mal acaba de falar as algemas abrem-se misteriosamente. O Rei levanta as mãos e olha para o alto como que agradecendo. As crianças estão espantadas. Seu Timón sorri abertamente.

 

REI

-  Até que enfim!!!... Até que enfim, meu Deus, eu estou livre... livre!

 

As crianças olham-se, com espanto.

 

TECA

-  Mas nós não fizemos nada...

 

O Rei desce do trono movimentando os braços, como a fazer retornar a circulação. Aproxima-se das crianças. Tem lágrimas nos olhos.

 

REI

-  Para eu ficar livre era preciso aparecer alguém, grande o bastante para não aceitar recompensa pela boa ação.

 

Mostra as estátuas.

 

REI

-  Estão vendo estas estátuas? São pessoas transformadas em pedra. Todas elas entraram nesta caverna e... todas aceitaram recompensa para me libertar.

 

Um frêmito de horror perpassa pelo grupo. Os quatro afastam-se das estátuas, com horror. Ficam algum tempo olhando para elas, com ar de quem escapou de ficar igual. Finalmente, Gilberto, recuperando-se um pouco do susto, pergunta:

 

GIL

-  Quer dizer... que se a gente tivesse aceito recompensa... para libertar o senhor... agora...

REI

-  Agora vocês estariam aí, transformados em pedra.

 

Expressões de espanto e terror das crianças. A caverna ilumina-se com uma suave luz dourada e aparece Ashtarih, a verdadeira. Olha em torno e sorri.

 

ASHTARIH

-  Estou muito feliz de ver que na Terra existem pessoas boas, pacíficas e honestas... Por isso podemos dizer que há esperança.

Vocês cumpriram sua missão até agora, com louvor.

 

Takes das expressões de contentamento das crianças.

 

ASHTARIH

-  Vocês agora vão voltar para casa, para o mundo real.

 

Gilberto olha para Migão, querendo saber qual será o seu destino. Ashtarih segura na mão do chimpanzé, carinhosamente.

 

ASHTARIH

- Não se preocupe, Gilberto. Ele vai ficar comigo...  Assim que estiver completamente restabelecido vou devolvê-lo à sua família.

 

Gilberto abraça o amigo macaco, despedindo-se dele. Teca está num pé e noutro para fazer uma pergunta. Ashtarih sorri.

 

ASHTARIH

- Você está querendo saber como está indo nossa luta contra Ruk Pollus...

Está indo muito bem... até agora.

 

Ashtarih fica séria. Uma nuvem de preocupação passa por sua expressão.

 

ASHTARIH

-  Mas agora ele está furioso... E ele é mau, é perverso... e não tem escrúpulos...

Ele agora vai atacar com tudo!...

 

As crianças estão com expressão preocupada.

 

ASHTARIH

-  Eu acho até que o Ruk vai se voltar especialmente contra vocês três.

 

As crianças olham umas para as outras com expressão de medo.

 

TECA

-  Por que nós?

ASHTARIH

-  Porque vocês causaram grandes prejuízos a ele e... vocês o desafiaram.

 

Serginho pergunta, com ar inocente.

 

SERGINHO

-  Desafiamos?

 

 

ASHTARIH

-  E dentro de seus próprios domínios.

 

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Flash Back seq. 17

 

Cena da nave de Pollus, quando as crianças se concentram e Fávia começa a sentir-se envolvida em vibrações de amor.

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Teca está preocupada.

 

TECA

- E o que vai ser agora?

ASHTARIH

-  Primeiro, não ter medo... Segundo, confiar no Comando Solar...

 

Ashtarih faz pequena pausa.

 

TECA

- E terceiro...

ASHTARIH

-  Usar a inteligência... o amor... e a alegria.

 

Gil percebe que a menina tem algo importante a dizer.

 

GIL

Tem mais alguma coisa?

 

Ashtarih suspira.

 

ASHTARIH

-  Vocês já sabem que o Ruk está fazendo tudo para aumentar suas reservas de Energia Psi Negativa...

GIL

-  ... Pra dominar as mentes das pessoas que mexem com computador...

 

 

TIMÓN

Isso, se ele conseguir dobar suas reservas de Energia...

 

Ashtarih olha para as crianças com ar muito sério.

 

ASHTARIH

-  Imaginem as milhões e milhões de pessoas que lidam com computador... Todas elas com as mentes dominadas, escravizadas por Ruk Pollus...... obedecendo cegamente suas ordens.

TIMÓN

Seriam milhões de Ruks espalhados no mundo todo...

ASHTARIH

- Nas empresas, escolas, repartições... Dentro dos lares... onde tiver um computador.

 

As crianças estão horrorizadas.

 

TECA

-  Que horror!

GIL

Isso seria terrível demais!

 

Ashtarih fala pausadamente.

 

ASHTARIH

Se ele conseguir dobrar suas reservas ...

TIMÓN

E é isso que ele vai tentar... de todas as formas possíveis e por todos os meios.

SERGINHO

-  E as outras crianças estão sabendo?

ASHTARIH

- Todas estão sendo convocadas para a grande batalha...

Uma batalha onde as armas não são bombas, fuzís ou metralhadoras... mas a mente... e a emoção...

 

Ashtarih olha as crianças, uma por uma.

 

ASHTARIH

-  Nós estamos contando com vocês.

 

Ashtarih estala o dedo. Um rodamoinho, como os anteriores, e as crianças são sugadas por ele.

 

Seqüência  22      CASA DOS PRAXEDINHOS – SALA DO MICRO       INT / DIA

 

As crianças surgem em casa, diante do computador. Olham em torno, reconhecendo que estão em casa. Olham umas para as outras.

 

SERGINHO

-  É... eu acho que a briga vai ser feia...

TECA

Vai ser feia...  mas nós temos que vencer.

GIL

-  É isso aí, mana... Só que não vamos ficar parados esperando o Ruk nos atacar...

TECA

Que ce quê dizer?

 

Gilberto sorri matreiramente. Faz uma rodinha com os três e cochicha em seus ouvidos. Ao término, Serginho dá uns pulinhos de entusiasmo. Teca está mais céptica.

 

TECA

Acho que você está doido, Gil... Isso é impossível!

GIL

-  É difícil... Mas já pensou se a gente conseguir?

Vai ser uma tacada e tanto!

 

 

TECA

Talvez a gente consiga... Com uma boa estratégia...

SERGINHO

O que é estratégia?

GIL

-  É um plano de ação...

SERGINHO

- Pois então vamos fazer esse plano...

 

A partir daqui o som diminui até fechar.

 

GIL

-  Eu acho que podemos usar os nossos poderes...

A gente pode procurar...

 

 

 

Vai ser uma tacada e tanto!

 

 

TECA

É... talvez a gente consiga... Com uma boa estratégia...

SERGINHO

O que é estratégia?

GIL

-  É um plano de ação, Serginho...

 

A partir daqui o som diminui até fechar.

 

SERGINHO

- Pois então vamos fazer esse plano...

 

 

GIL

-  Eu acho que podemos usar os nossos poderes... A gente pode procurar...

 

 

 

 

 

Seqüência    19     PORTARIA DE UMA EMISSORA DE RÁDIO        INT / DIA

 

Os Praxedinhos estão na portaria de uma emissora de rádio. O porteiro fala com ar aborrecido, de má vontade.

 

PORTEIRO

-  Já disse que não dá. Seu Duarte não tem tempo pra conversa fiada.

GIL

-  Não é conversa fiada.

SERGINHO

-   É pra dar muita audiência.

TECA

-  Ele precisa ouvir a gente.

 

Seu Duarte entra casualmente.

 

SEU DUARTE

-  Que confusão e essa?

PORTEIRO

-  São essas crianças, seu Duarte. Querem falar com o senhor.

 

Seu Duarte está de cara aborrecida, mal humorada. Gil puxa conversa com seu Duarte para distrai-lo. Enquanto isso Teca e Serginho trabalham com seus instrumentos, ou seja, a pedrinha e a canetinha.

 

 

GIL

-  É que nós queremos fazer um programa de rádio.

SEU DUARTE

Ora, me poupem...

GIL

É um programa infantil... e o senhor sabe que não tem

ninguém melhor que criança pra falar com outras crianças...

 

A má cara do homem vai se modificando, ficando mais amigável. Olha longamente para os três e decide-se.

 

SEU DUARTE

-  Está bem... vamos conversar...

Venham!

 

As crianças o acompanham pelo corredor até uma porta onde está escrito: DIRETOR. O homem abre-a e os quatro entram, fechando a porta atras de si.

 

 

 

Seqüência  20    ESTÚDIO DA RÁDIO          INT / DIA

 

Dia seguinte. Os Praxedinhos estão no estúdio da rádio. Estão um pouco assustados. Serginho, apesar da constante alegria, está sério e Gilberto silencioso, como que repassando na mente o que vai dizer. Teca, de repente lembra-se de algo.

 

TECA

-  Nós somos uns bobos. Vamos usar nossos poderes... vamos procurar calma e inspiração.

GIL

É isso mesmo...

 

Os três se concentram e suas expressões vão ficando mais leves, relaxadas. Termina a música que estava tocando.

 

LOCUTOR

-  E agora, conforme foi noticiado, em nosso programa ALÔ BRASIL em rede nacional, vamos ter a presença de três crianças com idéias de adulto. Com vocês: Os Mensageiros de Ashtarih.

 

 

 

Seqüência  21    CENTRAL DE COMANDO DE RUK       INT / DIA

( intercalada na seq.  20  )

 

Ruk tem diante de si 5 homens mal encarados. Fávia também está presente, mexendo num rádio, procurando alguma estação.

 

RUK

-  Entenderam bem?

Eu os quero mortos... todos os três.

 

Olha com expressão maligna para os homens.

 

RUK

-  Ai de vocês se falharem!... Já sabem o que vai lhes acontecer... não sabem?

 

Os homens fazem expressão de medo e gesto de que estão cientes...

Fávia chama Ruk, alvoroçada.

 

FÁVIA

-  Ruk, ouça isto!

 

Fávia aumenta mais o volume. Enquanto rola a locução no rádio, Takes das expressões de Ruk e Fávia, primeiro surpresos, depois com raiva e finalmente furiosos.

 

GIL  (OFF)

-  Os Mensageiros de Ashtarih estão no ar, caro ouvinte. Somos apenas três crianças, mas representamos milhões de outras em todas as partes do nosso planeta. Eu sou Gilberto e aqui estão meus irmãos Teca e Serginho.

TECA   (OFF)

Eu sou Teca. Neste programa nós vamos falar sobre a violência, a injustiça e a corrupção... Por que? Porque nós não queremos herdar de vocês um mundo tão violento, tão injusto e corrupto quanto este.

 

Ruk dá um murro num móvel a sua frente.

 

SERGINHO    (OFF)

-  E eu sou o Serginho...  Eu também quero dar o meu recado. Quero dizer que se as crianças da Terra querem ter um mundo melhor, precisam fazer os os adultos mudar de comportamento.

 

Ruk  tem um acesso de raiva, quebrando algo. Takes das expressões dos homens com medo, assustados, saindo de fininho, com medo do Ruk.

 

GIL    (OFF)

-  Não é preciso falar sobre a violência. Você vê isso na rua, em casa, na TV... em toda parte.

TECA    (OFF)

- E sabe porque as coisas na Terra estão desse jeito?  É porque milhões de pessoas curtem a violência. Outros tantos milhões são desonestos e gananciosos... E seus pensamentos e emoções estão criando em torno do planeta uma faixa de energia muito perigosa, chamada Energia Psi Negativa.

SERGINHO   (OFF)

-  Se isto não mudar, a vida na Terra vai ficar insuportável... e nós não queremos isso.

 

Ruk está quase apoplético. Observa que os homens não estão mais no recinto.

 

RUK

-  Cadê os homens?

FÁVIA

Não sei... Acho que saíram...

RUK

Não deixa esses idiotas saírem.

FÁVIA

Por que?

RUK

Não vê que se essas crianças morrem agora, vão virar heróis?

Vai! Depressa!... Chama eles aqui.

 

Fávia sai e Ruk resmunga, com expressão de ódio.

 

RUK

-  Esses miseráveis não sabem com quem se meteram... Ah, desgraçados... deixa eu botar a mão em vocês!!!

 

 

 

Continua seqüência   20

 

Durante a fala das crianças, inserts das expressões do locutor/operador, de seu Duarte, do telefone tocando e seu Duarte atendendo, dando para perceber que o telefonema é elogiando o programa.

 

GIL

Por isso estamos aqui, convidando a você que nos escuta, para ingressar no grupo das pessoas que querem ajudar a humanidade...

TECA

-  Como?...  começando a mudar o rumo do pensamento e da adrenalina...

SERGINHO

-  E ai vão umas sugestões:

GIL

-  Quando assistir a um noticiário sobre violência, não entre nessa emoção. Pense na paz... na fraternidade... e envolva todos os implicados nessa vibração de paz, de fraternidade.

TECA

- E olha que isso não é nenhum conselho religioso...

O seu Timón, que é um sábio, diz que pensar no amor e na paz faz bem à saúde, evita doenças pissi... como é mesmo o nome Gilberto?

GIL

-  Psicossomáticas.

TECA

Pois é... evita doenças pissicossomáticas.

 

 

SERGINHO

-  É isso aí, colega. Quando tiver muita gente pensando no amor, na paz e no bem-estar para todos, o ambiente da Terra vai mudar...

TECA

-  Vai ficar menos agressivo... e aí vai ser mais fácil implantar a paz.

GIL

-  E agora, pra você se acalmar e curtir um pouco de harmonia, nós vamos encerrar o programa com uma música suave, que asserena o sistema nervoso. Ouça o canto dos pássaros e imagine que está no meio da natureza, longe de tudo que possa perturbar a sua paz.

 

Na outra sala, o operador coloca a música. Com alguns segundos faz BG e sinal para Teca falar. Seu Duarte está junto dele, acabando de atender mais um telefonema. Fica olhando as crianças, encantado com o sucesso.

 

TECA      (OFF)

-  Amanhã estaremos de volta neste mesmo horário...

SERGINHO     (OFF)

-  Se o seu Duarte não nos despedir...

 

Detalhe da expressão de seu Duarte, com o dito de Serginho.

 

GIL    (OFF)

-  Até amanhã...

 

As crianças levantam-se e vão saindo do estúdio, encontrando seu Duarte que chega com larguíssimo sorriso.

 

SEU DUARTE

-  Mas que sucesso!... O telefone não para de tocar... Tem ligações de toda parte do Brasil...

 

As crianças estão surpresas. Não esperavam todo esse sucesso. Seu Duarte quer garantir o filão.

 

SEU DUARTE

-  Eu vou preparar o contrato. Quero vocês aqui, todos os dias... Vamos ali, pra minha sala.

 

Seu Duarte vai na frente, conduzindo gentilmente os Praxedinhos para sua sala. Detalhes das expressões dos Praxedinhos, comemorando o sucesso e de seu Duarte, curtindo aquele filão.

 

Seqüência  22                  RUA     EXT / DIA

 

As crianças estão andando pela calçada. Um carro encosta junto a eles. Descem dois homens, seguram Serginho e o colocam dentro do carro, que arranca e sai em disparada. Teca e Gilberto estão pasmos.

 

GIL

-  Seqüestraram o Serginho! O que vamos fazer?

TECA

-  Vamos pra casa, avisar papai e mamãe.

TECA

-  Vamos!

 

Os dois saem correndo.

 

Seqüência  23        RESIDÊNCIA  DOS  PRAXEDES           INT / DIA

 

A família Praxedes, com exceção de Serginho está reunida em torno do telefone na expectativa de um contato dos seqüestradores.

 

SELMA

-  Eu sabia que isso ia terminal mal!...

Eu não devia ter deixado...

 

O telefone toca, cortando-lhe a palavra e deixando todos sobressaltados. Seu Reynaldo pega  o fone.

 

REYNALDO

-  Alô, alô...

RUK    (OFF)

-  Não é com você que eu quero falar, é com o Gilberto.

REYNALDO

-  Com Gilberto?... Está bem, está bem... mas por favor, não machuquem meu filho... por favor...

 

Seu Reynaldo passa o telefone para Gil.

 

GIL

Diga.

 

Gil escuta durante uns instantes, prestando atenção.

 

GIL

-  Eu vou conversar com minha irmã......

 

Ouve durante mais alguns instantes e desliga. A família está toda alvoroçada.

 

SELMA

-  Onde está o Serginho? Ele está bem?

REYNALDO

-  O que foi que ele disse?

GIL

-  O Ruk Pollus disse que ele está bem...

 

Todos estão atônitos.

 

REYNALDO

- Ruk Pollus?  Mas essa é uma criatura virtual...

TECA

Parece que não é tão virtual assim...

SELMA 

Que é que ele quer?

GIL

-  Ele quer que a gente passe pro lado dele. Quer que a gente faça uma retra...

REYNALDO

-  Retratação?

GIL

-  É isso. Ele quer que a gente diga no programa que aquilo tudo que dissemos hoje foi só brincadeira; que as crianças precisam aprender artes marciais; que ninguém pode bancar o palhaço, ser frouxo... tem que bater mesmo. Ele disse que a gente tem que estimular a violência e fazer propaganda dos filmes de terror e de jogos violentos...

 

Gilberto pára um pouco, suspira, olha de esguelha para os pais.

 

GIL

-  Só assim eles vão soltar o Serginho.

SELMA

-  Meu Deus! Em que vocês foram se meter!... É claro que vão atender o pedido dele... não é?

 

Gil e Teca se olham. Entre eles forma-se, em Flash Back, a imagem de Ashtarih.

 

 

FLASH BACK     Seq.  16

 

ASHTARIH

-  Imaginem as milhões e milhões de pessoas que lidam com computador... Todas elas com as mentes dominadas, escravizadas por Ruk Pollus...... obedecendo cegamente suas ordens.

 

Fim do Flash Back

 

Gil e Teca olham para os pais, com dó, mas com firmeza.

 

GIL

-  Nós não podemos fazer o que eles querem.

 

Seu Reynaldo fica pensativo. Dona Selma, revolta-se.

 

SELMA

-  Como não podem?... Não vêem que é a vida do seu irmão que está correndo perigo?

 

Gil e Teca estão numa difícil encruzilhada. Qualquer que seja a sua decisão... será terrível. Teca fala com lágrimas nos olhos e a voz estrangulando-se na garganta.

 

TECA

-  Nós não podemos ajudar Ruk a dominar a Terra. Se ele conseguir... vai ser pior que o inferno pra bilhões de pessoas.

 

Os olhos de dona Selma se enchem de lágrimas.

 

SELMA

-  O que eles vão fazer com meu filho?

 

Ninguém responde. O silêncio cai sobre o ambiente com seu peso gelado. Dona Selma abaixa a cabeça para esconder a própria dor.

Depois de instantes Gil levanta, bate com o pé no chão ou dá um murro na mesa, como a confirmar sua decisão, e exclama:

 

GIL

-  Nós vamos vencer essa! Eu sei que vamos!... e vocês, papai e mamãe, vão nos ajudar...

REYNALDO

-  No que está pensando, Gil?

GIL

-  Estou pensando em a gente fazer o programa na rádio e dizer tudo o que está acontecendo...

SELMA

-  Será que isso não vai gerar muito medo nas pessoas?

TECA

-  É verdade... Pode criar pânico.

GIL

-  É... Acho que vocês tem razão...

TECA

-  Eu tenho uma idéia. Vamos nos concentrar... todos nós. E pelo pensamento ajudar o Serginho.

GIL

-  É isso mesmo... vamos fazer isso.

 

A imagem da família em concentração faz fusão com Serginho, na cena seguinte.

 

Seqüência   24     APARTAMENTO NUM DIFÍCIO DE LUXO (3ºand.)           EXT / DIA

 

Serginho está sendo vigiado por dois grandalhões, cheios de músculos e pouco cérebro. Está amordaçado e amarrado a uma cadeira. A janela aberta deixa entrar ruídos de fóra.

Serginho fecha os olhos por instantes, como a buscar inspiração. Dá um gemido... mais outro, contorcendo-se. Os vigias olham um para o outro. Um deles levanta e se aproxima.

 

GRANDALHÃO 1

-  Que é moleque? Tá com dor de barriga, é?

 

Serginho tenta falar mas a mordaça não deixa. O homem retira a mordaça enquanto vai dizendo:

 

GRANDALHÃO 1

-  Olha, aqui, ô... Zezinho! Se ocê gritar, vai levar uma chapuletada, que vai te deixar com o nariz torto.

SERGINHO

-  Eu não vou gritar, não... Eu tô com dor de barriga.

GRANDALHÃO 1

-  Tá bom... Te levo no banheiro, mas a porta fica aberta. Nada de gracinhas, entendeu?

 

Grandalhão 1 desamarra Serginho e o acompanha ao banheiro. Ao voltar, Serginho fala tranqüilamente, como quem não quer nada.

 

SERGINHO

-  Não precisa vocês me amarrarem. Eu sou criança... que é eu posso fazer de mal a vocês?

 

Os dois se olham.

 

GRANDALHÃO 2

-  A ordem do chefe é deixar o pivete amarrado e amordaçado.

 

Serginho fala com ar inocente.

 

SERGINHO

Até parece que vocês tão com medo de mim.

 

Os grandalhões ficam incomodados com essa idéia. Serginho continua olhando para eles com o ar mais inocente do mundo.

 

GRANDALHÃO 1

-  É... Até parece que a gente tá com medo dele...

 

O grandalhão 2 pensa um pouco e se decide.

 

GRANDALHÃO 2

-  Tá bom, moleque... Mas nada de gracinhas!

 

Serginho concentra-se discretamente e a canetinha aparece em sua mão. Segura-a com firmeza e continua concentrado. Sua cara vai ficando engraçada... muito engraçada. Olha para os dois homens e eles começam a rir. Faz algumas expressões mais engraçadas ainda. Os homens riem cada vez mais, até se contorcerem e perderem o fôlego de tanto riso. Serginho pula da cadeira e sai correndo para a porta. A chave está na fechadura e ele a abre saindo para o hall. A porta que dá para a escada está trancada.

 

 SERGINHO  (OFF)

-  E agora?

 

 

_______________________________________________________________________________

 

Seqüência  25                         NA PRAÇA, EM FRENTE AO AP.      EXT / DIA

Intercalada na seq. 24

 

 

Um homem igualzinho a seu Timon está num orelhão. Quando atendem ele pergunta:

 

 TIMÓN

-  É do Corpo de bombeiros?...

 

 

 

Continua seqüência 24

 

Serginho está escondido ao lado da porta. Os homens, ainda tentando parar o riso saem no seu  encalço. Serginho coloca-se às costas de um deles, bem pertinho. O outro diz:

 

 GRANDALHÃO

-  Você procura no apartamento. Ele pode ter se escondido lá. Eu vou chamar o elevador.

 

Serginho volta para o apartamento sempre às costas do homem. Quando ele entra num dos quartos Serginho corre para outro e sobe no batente da janela. Olha para baixo e um arrepio percorre-lhe a espinha. O ap. é num terceiro andar... Voz do Grandalhão falando, aproximando-se.

 

 GRANDALHÃO  (OFF)

-  Cadê esse moleque?

 

Serginho procura não olhar para baixo. Vai descendo o corpo para fora até seu pé chegar numa mini marquise, da largura de uns 30 centímetros que circunda o prédio. Com muito cuidado vai se afastando da janela. Aos poucos chega no canto do prédio e consegue circundá-lo chegando até outra janela. Está fechada.

 

 SERGINHO  (OFF)

-  E agora?...

... E quando eu cansar e não conseguir mais me segurar?

 

De repente lembra-se...

 

 SERGINHO  (OFF)

A canetinha...

 

Serginho concentra-se e ela aparece em sua mão.

 

 SERGINHO  (OFF)

Energia... estou precisando de energia.. muita energia...

 

Por sua expressão dá para ver que o cansaço está passando.

Lá dentro, os homens estão enfurecidos.

 

GRANDALHÃO 1  (OFF)

-  Será que ele não escapou pela janela?

GRANDALHÃO 2   (OFF)

-  Pirou, foi?

GRANDALHÃO 1  (OFF)

-  De qualquer forma eu vou olhar.

 

Expressão aflita de Serginho. O grandalhão abre a janela e o vê . Dá uma risada irônica.

 

 GRANDALHÃO 1

-  Olha só o passarinho...

 

O outro também chega na janela.

 

 GRANDALHÃO 1

- Que gracinha!...

 

Estendem as mãos para agarra-lo.

 

 GRANDALHÃO 1

-  Venha cá, seu moleque... Venha cá... ou quer sair voando?

 

Estão quase alcançando... Serginho olha para baixo. Vê que os bombeiros estão trazendo uma rede. Olha para as caras dos homens com ar de deboche.

 

 SERGINHO

-  Sair voando? Até que é uma boa idéia.

 

Serginho fica olhando os homens com ar irônico. Quando vê que a rede está bem embaixo, pula. Take da expressão de espanto dos grandalhões.

Serginho cai na rede sem maiores problemas. Quem estende a mão para levanta-lo é o mesmo homem da praça, igualzinho a seu Timón.

 

 

 SERGINHO

-  Seu Timón?

 

O homem ri um riso irônico. Fala como se nunca tivesse ouvido esse nome.

 

 TIMÓN

-  Timón?... é um nome interessante.

SERGINHO

-  O senhor não é virtual? Como é que pode estar aqui?

 

Aproxima-se o comandante dos bombeiros.

 

COMANDANTE

-  Que foi que aconteceu?

TIMÓN

-  Ele foi sequestrado.

 

Ambos olham para cima. Os grandalhões ainda estão na janela, pasmos. Ao perceberem que foram vistos entram rapidamente, dispostos a fugir. O comandante parte para tomar providências e se esquece de Serginho e Timón.

 

TIMÓN

-  Vamos... eu vou te deixar em casa. Tua família deve estar muito preocupada.

 

Serginho olha para seu Timón, como quem diz: o senhor não me engana.

 

 

Seqüência  26          NAVE DO RUK         INT / DIA

 

Ruk está furioso. Dá muros no ar, chuta objetos, quebra outros. Aos poucos se acalma. Faz ar de quem está tramando e de repente encontra a solução. Toca uma sineta, chamando seus asseclas.

 

Seqüência   27         ESTÚDIO DA RÁDIO            INT / DIA

 

O programa está chegando ao fim. O operador coloca uma música suave, muito bonita, tocada no violão com som das ondas quebrando nos rochedos e os gritos das gaivotas. Teca fecha os olhos, concentrada. Na mão aparece a pedrinha cor-de-rosa.. Sua expressão suaviza-se.

 

TECA

-  Vamos encerrar o programa buscando a energia do amor.

Desligue seu pensamento de todas as coisas... Fique só ouvindo a música...

 

Faz pequena pausa. Em seguida a fala é tranqüila, serena, pausada, em tom de ternura, sem pieguice. Take do operador de olhos fechados, concentrado e de seu Duarte, a seu lado, olhando todo emocionado para Teca.

 

 

TECA

-  Vamos concentrar o pensamento no amor... não só pensar mas sentir amor... Amor pelos nossos familiares... pelos vizinhos... pelos conhecidos e os desconhecidos... pelas plantas... os animais...

Vamos amar o nosso planeta... a mãe natureza... Ela é mãe de toda a vida... por toda vida...

 

 

 

 

Seqüência  28       RESIDÊNCIA DOS PRAXEDES        INT / DIA

 

As crianças estão chegando da escola.

 

TECA

-  Mamãe!

 

A porta está aberta. Entram e vão procurando a mãe pela casa.

 

GIL

-  Mamãe! Cadê a senhora?

SERGINHO

-  Mainhê!...

TECA

-  Onde será que ela está?

GIL

Vai ver saiu pra comprar alguma coisa...

TECA

E deixou a porta aberta...?

SERGINHO

-  Será que ela deixou algum recado no computador?

 

As crianças vão ao computador. Está ligado. Na tela, a imagem de Ruk Pollus, com um sorriso sarcástico, apontando o dedo para a página seguinte. Gil passa a página. Na outra tela, imagem de seu Ronaldo e dona Selma congelados, dentro de gavetões ou esquifes. Os três gritam apavorados. Gil tenta passar para outra página, mas o computador desliga-se sozinho. Os tres estão apavorados e seus olhos enchem-se de lágrimas.

 

SERGINHO

-  O que vamos fazer?

 

Gil pensa um pouco.

 

GIL

-  Vamos telefonar pro papai.

 

Gil pega o telefone e disca.

 

GIL

-  Por favor, liga com seu Reynaldo.

 

Gil escuta um pouco, agradece  e desliga. Sua expressão é de desalento.

 

 

GIL

-  Ele não foi trabalhar.

TECA

Não foi trabalhar?... Ah, meu Deus!

 

Gil toma uma decisão. Fala meio engasgado.

 

GIL

-  Vamos ao IML

SERGINHO

-  Fazer o que?

 

 

GIL

-  Ver se eles... não estão lá.

TECA

-  Você está louco, Gil?

GIL

Eles estavam num gavetão... congelados... A gente tem que ir...

 

Teca está apavorada. Fala num fio de voz.

 

TECA

-  Eu não vou... Não tenho coragem...

 

Gilberto fala carinhoso mas firme.

 

GIL

- Teca... Tem que ser os três....

 

Gil procura falar descontraído.

 

GIL

-  É claro que eles não estão lá... Mas a gente tem que checar...

 

 

 

Seqüência  29              IML      INT / DIA

 

Os Praxedinhos chegam à porta da sala-geladeira, conduzidos por um funcionário. Este abre a porta e fala a outro que se encontra no interior, acabando de fechar uma gaveta.

 

 

FUNCIONÁRIO  01

-  Estas crianças estão procurando os pais. Mostra os dois corpos que chegaram há pouco.

 

O funcionário 02 age e fala com frieza e má vontade. Faz um gesto para as crianças o seguirem e vai até uma gaveta, abrindo-a .

 

FUNCIONÁRIO  02

-  Essa é a mulher...

 

As crianças estão apavoradas, aterrorizadas. Teca quer voltar atrás. Gil pega-a pelo braço com carinho mas com firmeza. Serginho está quase chorando.

 

GIL

Venha mana. A gente tem que ser forte... Vem Serginho...

 

Os três se aproximam da gaveta aberta. Não têm coragem de olhar.

 

FUNCIONÁRIO 02

-  Como é?... Não tenho o dia todo pra ficar esperando...

Tem outros presuntos aí pra eu cuidar...

SERGINHO

Presuntos?

FUNCIONÁRIO 02

Defunto, cadáver, presunto... é tudo a mesma coisa.

 

Gil abre a boca com a clara intenção de lhe dar uma lição de moral, mas desiste. Engole a revolta e a dor, cria coragem e vai olhando devagar. Arregala os olhos. Fala rindo e chorando ao mesmo tempo.

 

GIL

Não é a mamãe... Não é a mamãe...

 

As crianças  riem chorando, sempre sem olhar para o cadáver. É um riso misturado com respeito pela morta.

Teca de repente fica tensa. A voz reflete emoção, misto de medo e esperança.

 

TECA

Gil, você tem certeza que não é a mamãe?

GIL

Claro que não é ela. Olha!

 

Teca vai levantando a cabeça devagar, mas desiste de olhar.

 

TECA

-  Precisa não, Gil... Vamos embora daqui.

GIL

-  Falta ver o homem...

 

Uma nuvem de medo passa por suas expressões mas desta vez eles vão com mais coragem. O funcionário abre outra gaveta. Ainda é Gil quem olha... Fala com alívio na voz.

 

 

GIL

-  Não é ele.

TECA

-  Ah, graças a Deus!!!... Não são eles.

GIL

E agora?... Onde é que vamos procurar?

SERGINHO

Será que eles já não estão em casa?

 

As crianças olham-se com expressão de esperança e partem correndo.

 

 

Seqüência  30                      CASA DOS PRAXEDES           INT / DIA

 

Os Praxedinhos estão entrando em casa. Suas  expressões mostram aflição e esperança ao mesmo tempo.

 

GIL

-  Mamãe!  Papai!

TECA

Mainhê... Cadê você.

SERGINHO

-  Mãezinhaaa...

 

Percorrem a casa e suas expressões vão ficando desalentadas a medida em que perdem a esperança de encontrar os pais. Como se fosse de comum acordo dirigem-se para a sala do computador. Este está ligado. Na tela está de novo a imagem de seus pais congelados. Teca dá um grito e fecha os olhos. Depois os reabre, pensativa.

 

TECA

Gil... Serginho... Olhem isso.

Isso ai não é um gavetão do IML... É diferente.

GIL

-  É mesmo... Parece mais uma daquelas urnas de congelar...

SERGINHO

-  Como aquelas experiências científicas?...

GIL

-  É isso mesmo...

SERGINHO

-  Então o Ruk congelou nossos pais....

 

Os três olham-se desarvorados.

 

 

TECA

Que vamos fazer?

 

Aparece na tela a imagem de Ruk. Este ri desagradavelmente.

 

RUK

-  Vocês acertaram. Seus pais estão em meu poder... geladinhos, geladinhos...

Agora... quanto a salva-los... é  até bem fácil.

TECA

O que precisamos fazer?

 

Ruk mostra num painel, entre outros instrumentos, dois tubos verticais paralelos, tipo termômetros, com marcadores luminosos. O marcador dos esquifes é uma luz azul e o da Energia Psi é uma luz vermelha. A luz azul está na ponta superior do tubo e a vermelha, abaixo da metade

 

RUK

-  Olhem para isto. Isto aqui é o controle dos esquifes de seus pais...e este outro mede o potencial de Energia Psi Negativa...

 

Ruk aponta para o tubo da luz vermelha.

 

RUK

-  Seus pais só serão soltos quando a vermelha chegar na mesma altura da azul. Entenderam?  Isto vai acontecer de forma inteiramente automática.

Por isso não contem com nenhum truque... Nem mesmo a própria Fávia poderá ajudar vocês se de repente tiver um surto de fraqueza sentimental...

 

Ruk dá uma risada desagradável.

 

RUK

-  Vocês sabem o que devem fazer... Não sabem?

Usem o seu programa de rádio. Digam que estavam enganados. Que o mundo é realmente mau e quem quiser sobreviver tem que entrar nessa onda... tem que ser mais forte e  mais sem escrúpulos do que os outros... senão vai ser engolido. Levem as crianças a odiarem a família, o governo, a sociedade, as religiões... Façam propaganda de jogos violentos...

 

Ruk faz pequena pausa e fala com teatralidade, mostrando o tubo da luz vermelha.

 

RUK

... Quando essa energia crescer e chegar aqui em cima... seus pais vão ficar livres...

 

Ruk observa as reações das crianças.

 

 

RUK

-  E então?... Vocês vão salvar seus pais?... ou vão deixar que eles morram aí... congelados... como se fossem dois picolés?

 

Teca está com os olhos cheios de lágrimas. Faz menção de que vai falar, mas Gilberto coloca a mão sobre sua boca e fala com dificuldade.

 

GIL

-  Nós vamos pensar...

RUK

-  Está bem. Vou dar um prazo a vocês... Duas horas. Nenhum minuto a mais... Daqui a duas horas eu quero a resposta de vocês.

 

Ruk fala lentamente, como a fixar bem a idéia.

 

RUK

-  Pensem bem... A vida de seus pais... está em suas mãos.

 

A tela fica preta e o computador desliga-se sozinho. As crianças estão desarvoradas. Teca chorando. Gil tem uma idéia. Mentaliza o minimicro e este surge em seu pulso. Ele tecla SOS. Serginho não entende.

 

SERGINHHO

-  O que significa SOS?

GIL

-  É um pedido de socorro... Ashtarih vai ter que nos ajudar desta vez.

 

No minimicro aparecem os dizeres: Chamem dentro de 30 minutos.

 

SERGINHHO

Por que será que ela mandou chamar só depois de 30  minutos?

GIL

-  Não faço a menor idéia.

 

 

Câmera mostra um relógio e faz fusões de 10 em 10 minutos, intercalando as expressões preocupadas das crianças, até chegar aos 30.

Gil concentra-se de novo no minimicro e este surge em seu pulso. Ele tecla: contato e dá enter.

Na minitela forma-se um rodamoinho que extrapola o aparelho. Fica mais potente, ocupando a sala toda. As crianças são sugadas por ele e quando reabrem os olhos estão novamente no grande salão de seu primeiro encontro com Ashtarih. Os camarotes estão também ocupados pelas crianças como da primeira vez. Alto-falantes reproduzem canto de pássaros sobre o som de cachoeira. Aos poucos, os Praxedinhos se acalmam. A música pára e no meio do tablado, todo enfeitado de flores, surge Ashtarih. A menina corre os olhos por toda a assembléia e fala com entonação séria.

 

 

ASHTARIH

 -  Estamos chegando no ponto mais crítico desta missão... Ruk Pollus está jogando com tudo... é uma luta de vida ou morte.

 

Um frêmito percorre a assembléia.

 

TECA

-  Ele sequestrou nossos pais...

SERGINHO

-  Eles estão congelados...

 

 

 

 

ASHTARIH

-  Nós estamos sabendo de tudo. Foi também por isso que convocamos esta assembléia.

 

Ashtarih faz pequena pausa.

 

ASHTARIH

-  Nós precisamos salvar os pais de vocês... Mas também precisamos salvar a Terra.

 

Novo frêmito percorre as equipes. Serginho levanta a mão. Ashtarih faz sinal para que fale.

 

SERGINHO

Eu acho que meus pais não gostariam de voltar à vida pra encontrar a Terra dominada pelo Ruk.

 

Teca levanta a mão e fala com lágrimas na voz.

 

TECA

-  Eu também acho... Eles iam preferir continuar como mortos.

 

Gilberto concorda com a cabeça.

 

 ASHTARIH

Concordo com vocês...

E acho que todos vocês estão conscientes da seriedade deste momento... e de que não há outra saída. Ou vencemos o Ruk, ou ele vai escravizar toda a humanidade, implantando o terror no mundo.

 

A assembléia está silenciosa mas percebe-se que  as crianç[LP3] as, apesar de assustadas, mostram em suas feições a determinação de lutar com todas as forças para salvar a Terra. Ashtarih corre novamente os olhos pela platéia, observando-as. Fala pausadamente.

 

ASHTARIH

-  Estou vendo que posso contar com vocês.

 

As crianças respondem em coro, levantando as mãos.

 

 

CRIANÇAS

-  Pode contar com a gente.

 

 

 

ASHTARIH

-  Ótimo!... Eu vou explicar a vocês.

 

Faz pequena pausa, como procurando as palavras certas.

 

ASHTARIH

-  Todos vocês já sabem que o Ruk pretende dominar a Terra, através das mentes das pessoas que operam computadores.

Se ele conseguir... este planeta vai se transformar num horrível e pavoroso cativeiro...

Mas, para isso ele precisa aumentar suas reservas de Energia Psi Negativa.

Os Praxedinhos estão fazendo um programa de paz e fraternidade numa rádio em rede nacional e estão tendo grande audiência. Isto está prejudicando muito as pretensões do Ruk. Foi por isso que ele aprisionou seus pais. Ele acha que as crianças vão atender seu ultimato e usar esse recurso do rádio para reverter a situação.

 

Faz pequena pausa.

 

ASHTARIH

-  Pois bem. Esta batalha não é só dos Praxedinhos. É de todos nós... Vocês não acham?

 

As crianças gritam em coro.

 

CRIANÇAS

-  Podem contar com a gente.

 

 

ASHTARIH

-  Muito bem. Vamos então traçar os planos para a batalha.

Mas, antes, uma observação. O Ruk não pode desconfiar de nada...

Por isso ninguém deve falar sobre o assunto, fora daqui.

 

 

 

Seqüência  32        CASA DOS PRAXEDES       INT / DIA

 

As crianças estão em frente ao computador. Suas expressões são de expectativa e apreensão. Teca no meio, Serginho à sua direita e Gil à esquerda. De repente, surge na tela a imagem de Ruk, com ar vitorioso. Ele conta como certa a sujeição das crianças. Teca segura nas mãos, no colo, embaixo da mesa do micro, a pedrinha cor-de-rosa. Gil coloca sua mão em cima e Serginho também. Ruk não percebe.

 

RUK

-  Muito bem, crianças... Já tiveram tempo de sentir saudade de seus pais?

 

Gil quer ganhar tempo para os irmãos e ele mesmo usarem seus recursos. As fisionomias de Teca e Serginho, apesar das circunstâncias e da presença de Ruk, expressam serenidade e amor.

 

GIL

Como é que eles estão?

 

Enquanto Gil conversa com Ruk várias crianças vão entrando em quadro atras do computador de forma que Ruk não pode vê-las. Todas trazem nas mãos pedras idênticas à de Teca. Estão também concentradas e suas fisionomias também expressam serenidade e amor. Elas vão cercando o computador, formando meia lua por trás dele e colocando suas pedrinhas sobre a mesa do micro, em torno dele. Seguram as mãos umas das outras formando semicírculo e nas pontas seguram na mão de Gil por um lado e pelo outro na de Serginho. Ruk não percebe a armadilha e continua falando com Gil, mas começa a dar demonstrações de mal-estar.

 

RUK

-  Não mandaram lembranças porque estão lindamente congelados... Mas... se vocês me obedecerem ... vão tê-los de volta...  intei... inteirinhos... e descon... descon...gelados.

 

 

GIL

Tem uma coisa que nós gostaríamos muito que você explicasse, Ruk.

RUK

-  O ...  O que... o que é?

GIL

-  Você sente prazer em ser mau?

RUK

-  Eu?... pra... prazer?

GIL

-  É, Ruk. Você sente prazer em ver pessoas sofrendo?

 

Ruk percebe que caiu numa armadilha. Seus olhos ficam esbugalhados, cheios de ódio e de pavor. Faz um esforço sobreumano para fugir mas não consegue. Está como que preso ao lugar. Fala, a muito custo.

 

RUK

-  Eu... não... que... quero... mo...mo...morrer...

 GIL

Pois é, Ruk. Se você tivesse aproveitado essa sua inteligência para ajudar a humanidade, hein?... Imagine como seria diferente... Você não estaria morrendo agora. E mesmo que tivesse chegado a sua hora Ruk, você estaria morrendo cercado de pessoas amigas... E estaria contente por ter sido uma boa presença aqui na Terra... Iria partir, deixando saudades.

 

Ruk tenta falar mas só sai um ronco surdo de sua garganta. Sua expressão é de profundo desespero.

 

GIL

Deu pra ver que não vale a pena ser mau?

 

Percebe-se que Ruk está entrando num processo ultra-rápido de congelamento. Câmera aproxima-se da tela do micro, em travelling, passando para o mundo virtual. Ao mesmo tempo vai abrindo zoom até entrarem em quadro as outras crianças, no mundo virtual, que estão atras de Ruk, cercando-o, conduzidas pela própria Ashtarih. Câmera continua no travelling, circulando Ruk. Com isso entram em quadro e saem dele a câmera que está captando as imagens de Ruk para o computador dos Praxedinhos, assim como o monitor que mostra as imagens dos Praxedinhos para Ruk. As crianças, a um gesto de Ashtarih, colocam suas pedrinhas no chão em torno de Ruk. Ashtarih circula Ruk, até chegar à sua frente, observando-o detalhadamente. PV de Ashtarih observando a expressão de Ruk cheia de ódio e de terror, em confronto com as das crianças, cheias de serenidade e amor. Aos poucos Ruk começa a se desintegrar. Ashtarih fala, olhando para as crianças em torno dela

 

ASHTARIH

Vamos continuar nossa mentalização...

 

Ashtarih vira-se para a câmera que capta imagens para o computador dos Praxedinhos.

Corte para o mundo real, mostrando os Praxedinhos diante do computador, no monitor a imagem de Ashtarih e as crianças reais atrás do computador.

 

ASHTARIH

- ...até que ele se desintegre inteiramente.

 

As crianças no mundo real passam para a frente do micro e presenciam através do monitor o final da desintegração de Ruk. Olham uns para os outros, atônitos. Vêem Ashtarih aproximar-se até ficar em close. Ela fala com eles.

 

ASHTARIH

-  Não percam a concentração. Fiquem calmos, haja o que houver... Nós precisamos dessa base de apoio, porque agora vamos enfrentar a Fávia.

TECA

E nossos pais?

ASHTARIH

-  Vamos chegar a eles através dela.

Atenção... Serenidade, confiança e, principalmente amor...

 

Câmera em travalling aproxima-se do monitor, passando novamente para o mundo virtual.

No mundo virtual as crianças escondem-se. Fávia entra e estremece ao ver Ashtarih. Sua expressão de susto transforma-se rapidamente em ódio. Traz uma capa longa em tons de vermelho e preto ricamente bordada e na cabeça uma tiara, também em tons fortes.

 

FÁVIA

-  Ah... até que enfim te vejo cara a cara, sua covarde...

 

Ashtarih permanece impassível. Em seu rosto uma leve expressão de piedade. Fala com firme serenidade.

 

ASHTARIH

-  A tua carreira de maldades, Fávia, chegou ao fim.

 

Fávia faz uma expressão irônica. Câmera mostra as crianças saindo de seus esconderijos atras dela, em semicírculo, segurando pedrinhas cor-de-rosa em suas mãos. Estão concentradas na emoção do amor. Fávia não as percebe.

 

FÁVIA

-  É mesmo?... Que gracinha...

Pensa que eu tenho medo desses seus truques?... era só o que faltava.

ASHTARIH

Ruk era mais inteligente que você... Ele tinha medo, mas... mesmo assim...

 

Fávia olha em volta, desconfiada.

 

FÁVIA

-  Cadê o Ruk?

ASHTARIH

Não existe mais... Desintegrou-se... e a energia de que era feito foi absorvida pelos reinos da natureza.

 

Fávia fica horrivelmente assustada, mas recupera-se.

 

FÁVIA

-  Você esquece que eu tenho um trunfo?... O casal Praxedes está em meu poder..

 

Ashtarih fala com carinho.

 

ASHTARIH

Não queremos um confronto com você, Fávia.

 

Fávia faz expressão de espanto.

 

FÁVIA

-  O que?

 

Ashtarih continua falando com carinho, mas com segurança.

 

ASHTARIH

É isso mesmo... Nós só queremos que você recupere seu verdadeiro modo de ser... como você era antes do Ruk aparecer...

 

Fávia estremece. Percebe-se que ela está sob o efeito das vibrações de Ashtarih e das crianças. Ashtarih está emocionada. Aproxima-se mais de Fávia, até quase toca-la. Fala com ternura.

 

ASHTARIH

- Lembra, maninha?

 

Fávia estremece mais fortemente. É como se algo quebrasse dentro dela. Sua expressão mostra o grande conflito que lhe vai na alma. Aos poucos vai baixando a cabeça e começa a chorar. Ashtarih abre os braços e Fávia se atira a eles, abraçando a irmã e chorando copiosamente.

 

ASHTARIH

Chora, maninha. Vai lhe fazer bem... As lágrimas vão liberar um pouco dessa energia negativa que você acumulou...

FÁVIA

-  Que loucura!... Mia vida é uma porcaria... Eu não valho nada, Ashtarih!

ASHTARIH

-  Claro que vale, maninha. Você apenas se deixou seduzir pelo poder...

FÁVIA

-  É verdade...

Se eu pudesse começar tudo outra vez...

ASHTARIH

-  É só querer...

 

Fávia olha para a irmã num misto de esperança e desespero.

 

ASHTARIH

-  Eu vou te ajudar, maninha.

 

Ashtarih corre os olhos pelas crianças.

 

ASHTARIH

-  E elas também... tenho certeza.

 

As crianças aproximam-se ainda espantadas com o ocorrido. Uma delas segura na mão de Fávia.

 

CRIANÇA

Se eu puder ajudar... pode contar comigo

 

As outras crianças também se manifestam.

 

CRIANÇAS

-  Comigo também...

-  Pode contar com a gente.

 

Fávia está profundamente emocionada. As crianças afastam-se um pouco e Ashtarih, de forma intencional, retira da cabeça da irmã a tiara e deixa-a cair no chão. Em seguida retira-lhe com ambas as mãos a capa, como se fora num ritual, e também deixa-a cair no chão. Todos entendem o significado desse gesto. As crianças estão emocionadas. Detalhes das suas expressões com lágrimas nos olhos. Ashtarih também tem os olhos marejados. Olha para as crianças e sorri, um sorriso de gratidão. Passa a mão sobre os ombros da irmã, dá meia volta e a conduz para fora. Detalhe dos pés de Fávia ao passar, pisando, não intencionalmente, a capa caída no chão. Detalhes dos pés das crianças ao saírem atrás das duas pisando a capa e a tiara, de forma não intencional.

 

Câmera faz novo travelling, para trás, passando para o mundo real, entrando em quadro o monitor do micro e em seguida os Praxedinhos acompanhando a ocorrência, cercados pelas outras crianças. Estão profundamente emocionados, com os olhos marejados de lágrimas.

 

GIL

-  Eu nunca vi uma coisa tão bonita...

SERGINHO

-  Nem eu...

TECA

- Eu não sabia que o amor tinha tanta força...

UMA DAS CRIANÇAS PRESENTES

Por que será que os adultos preferem curtir o ódio e a violência em vez do amor... da amizade?

OUTRA DAS CRIANÇAS PRESENTES.

Mas não são todos...

MAIS OUTRA DAS CRIANÇAS PRESENTES.

-  Ainda bem!

 

A tela do monitor fica escura. Gil tenta teclar, mexe no mouse e, nada.

 

GIL

-  Será que ela se esqueceu dos nossos pais?

TECA

-  Não pode ser...

SERGINHO

E agora? Que vamos fazer?

 

Gil olha o relógio e dá um pulo.

 

GIL

-  Faltam 10 minutos para o programa...

TECA

-  E nós vamos...?

GIL

-  Claro que vamos... Ashtarih vai cuidar deles... Podem ter certeza.

 

Os Praxedinhos saem da sala do computador, acompanhados pelas crianças.

 

Seqüência  33                ESTÚDIO DA RÁDIO    INT / DIA

 

O programa está para começar. Os Praxedinhos estão no estúdio em frente ao microfone. Estão preocupados por causa dos pais. Gil consulta o minimicro. Está às escuras. Toca na tela. Esta se ilumina e dela parte um feixe de luz que se reflete na parede em frente, bem ao lado da janela de vidro que separa o estúdio da sala de controle, formando uma estranha tela que, obviamente, não é vista da sala de controle. Nessa tela surge a imagem de seu Ronaldo e dona Selma enrolados em cobertores e seu Timón dando-lhes algo quente para beberem. Ao lado, os esquifes onde estiveram congelados. Só se vê as imagens, sem audio. As crianças comemoram, felizes, direcionando suas atenções e gestos para a tela, na parede em frente. Na sala de controle o operador olha as crianças, espantado. Ele sabe que no estúdio estão apenas os três Praxedinhos.

 

TECA

Mamãe!... papai!...

Ai que bom... Eles estão livres...

 

Os três levantam-se das cadeiras e pulam de mãos dadas, festejando. Na sala de controle o operador, com ar espantado, pega o telefone e digita.

 

OPERADOR

-  Seu Duarte... Acho que as crianças endoidaram... Acho bom o senhor vir aqui.

 

As crianças param de pular. Gil dá um suspiro de alívio.

 

GIL

- Pôxa! Que sufôco, hein!

 TECA

Graças a Deus... acabou o pesadelo!...

 

Seu Duarte entra na sala de controle e vê as atitudes das crianças com relação ao telão refletido na parede, que ele, obviamente, não vê.

Serginho acena em direção às imagens na parede.

 

SERGINHO

Oi, seu Timón... traz eles logo... A gente tá morrendo de saudade do senhor também...

 

Operador para seu Duarte.

 

OPERADOR

- Viu?... Estão doidos!

Quê que eu faço?

 

Seu Duarte bate com os nós dos dedos no vidro. As crianças olham para ele e fazem sinal de OK, voltando para seus lugares. Seu Duarte faz uma expressão de quem diz: “seja o que Deus quiser”.

 

SEU DUARTE

-  Bota no ar...

Vamos ver no que vai dar...

 

A música que está no ar está chegando ao fim. O operador prepara o cartucho com a música de abertura do programa. Ele e seu Duarte estão com ar muito preocupado. Seu Duarte  arranca um fio do próprio cabelo, gesto que faz quando está tenso.

Gil fala para as imagens na parede.

 

GIL
- Nós vamos fazer um programa bem legal... É em homenagem a vocês...

 

A tensão aumenta na sala de controle. A música terminou e o operador bota no ar a música de abertura do programa dos Praxedinhos. Seu Duarte começa um gesto para sustar o programa, mas desiste ao ver as crianças voltando suas atenções para o trabalho. No estúdio a tela da parede apaga-se. O operador baixa o volume e faz sinal para Gil falar.

 

GIL

-  Boa tarde ouvintes de todo o Brasil. Os Mensageiros de Ashtarih estão no ar.

 

 

TECA

  Hoje é um dia muito especial para nós... e também para você que nos escuta.

SERGINHO

-  É isso mesmo. Ashtarih e seus mensageiros conseguiram uma grande vitória contra Ruk Pollus.

 

Seu Duarte arranca um punhado de fios do cabelo. O operador rói as unhas de uma das mãos. A outra está pronta para tirar os Praxedinhos do ar. Olha para seu Duarte, como a esperar essa ordem. Teca e Gil olham para Serginho desaprovando o que ele disse e Serginho faz um ar gaiato de quem fez uma besteira. Gil conserta.

 

GIL

Realmente... Hoje nós tivemos a notícia de que milhares de crianças em todo o mundo estão trabalhando por um mundo melhor.

 

Durante as falas das crianças, inserts, mostrando as reações do operador e de seu Duarte, primeiro a apreensão, com seu Duarte arrancando mais um fio do cabelo, depois, um leve sorriso de alívio e, finalmente, a tranqüilidade e a euforia.

 

TECA

-  São crianças que entenderam que é preciso acabar com essa cultura da violência que tomou conta da Terra.

SERGINHO

-  Será que não dá pra a gente se divertir de forma pacífica? Será que essas pessoas que fazem filmes, que fazem jogos eletrônicos precisam botar violência neles?

Pois eu acho que tem muita coisa boa, muita diversão gostosa sem essa de machucar, bater, quebrar, explodir... e matar...

GIL

-  Os Mensageiros de Ashtarih, de todo o planeta, querem que os adultos reaprendam a viver... a viver em paz e a respeitar os direitos dos outros... Que façam um mundo bom para todos.

 

Gil faz sinal e o operador coloca um cd onde se ouve apenas gorjeios de pássaros e o som de uma cachoeira. Teca fecha os olhos e se concentra. Em sua mão aparece a pedrinha cor-de-rosa.. Sua expressão suaviza-se. Fala com voz serena e meiga, sem pieguice, com pequenas pausas entre um parágrafo e outro.

 

 

TECA

-  Imagine que você está no meio da mata, junto de uma cachoeira. Ouça o canto dos passarinhos e o som da água.

Vamos concentrar nosso pensamento na paz, porque o mundo está precisando dela... Mas não só pensar... é  também sentir a paz...

Vamos sentir também  amizade, bem-querer...   ... desejar paz e fraternidade para nossos familiares... nossos vizinhos... nossos conhecidos... e também para os desconhecidos...

Vamos amar o nosso planeta... o nosso mundo azul... que é tão lindo... Amar as pessoas, a natureza... tudo...

Os Mensageiros de Ashtarih desejam ao mundo paz... justiça, respeito... e fraternidade.

 

Enquanto Teca fala uma luz  cor de  rosa surge sobre seu peito, à altura do coração e circula em torno dela. Gil e Serginho observam o fenômeno. Estão pasmos. Olham para o operador, mas ele está impassível. Não viu a luz. Esta penetra no microfone e irradia-se através das antenas da emissora, formando belos efeitos à luz do sol poente. A imagem afasta-se, distanciando-se, até mostrar a Terra com seu tom azul no espaço sideral. Permanece o audio durante a fala de Teca e até o fim da música. Sobre estas imagens passam os letreiros de encerramento.

 

 

FIM

 

 

 

 

Saara Nousiainen

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