ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO

O OLHAR DE JULIANA

 

UM ORIGINAL DE

SAARA NOUSIAINEN

 

Seqüência 01  - QUARTO DE HOTEL     INT / DIA

 

Juliana está vestida com a farda de aeromoça, passando maquiagem no rosto. Ajeita o cabelo, dá mais uma olhada no visual, olha se não está esquecendo nada. Vê um livro na cabeceira da cama e o apanha (é um tratado de genética). Coloca-o na valise, fecha, apanha-a e a bolsa e sai, fechando a porta e dirigindo-se ao elevador.

Durante estas cenas passam caracteres inicias.

 

Seqüência 02  -  HALL DO HOTEL    INT / DIA

Flash back - seq. 03

 

André e sua equipe estão no saguão do hotel, prontos para gravar um comercial. Geni, sua auxiliar, trabalha com uma câmera fotográfica na mão. Mais ao fundo, a tripulação de Juliana entrega as chaves na recepção e segue, atravessando o saguão, em direção à porta. Juliana, uma das aeromoças, vem um pouco atrás. Luzes acesas, câmera ok.

 

ANDRÉ

Ok, gravando...

Mal inicia a gravação os tripulantes, a caminho da porta, entram em quadro. André, meio irritado.

 

ANDRÉ

Corta. Assim não dá!

Câmera acompanha os tripulantes, e mostra Anabel que vem entrando, cruzando com eles. Cumprimentam-se, como velhos colegas de trabalho.

Juliana entrega a chave na recepção e seguie em direção à porta.

André e equipe preparam-se para recomeçar a gravação. André vai dar o ok, mas pára, fazendo ar de desagrado. Juliana e Anabel encontram-se bem no meio do set. Anabel está feliz com o encontro. Há uma intimidade maior entre ela e Juliana, do que com os demais tripulantes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANABEL

-  Juliana!!!

JULIANA

-  Oi Anabel!

Tá de férias?

ANABEL

Nada. Só uns dias de folga.

JULIANA

-  Tava doida pra te ver... Consegui transferencia pra a base de apoio aqui em Fortaleza.

ANABEL

-  É mesmo?... Tá voltando pra a terrinha...

JULIANA

-  É... vou alugar um apartamento. Bem que a gente podia dividir... Você vive mais aqui do que lá...

 

ANABEL

É uma boa...

JULIANA

-  Estou voltando na sexta-feira. Me procura, tá? Vou ficar na mamãe. Ainda lembra onde é?

ANABEL

- Imagine se ia esquecer... Dra. Telma é gente fina... Ela ainda continua pintando?

JULIANA

-  Pintura, cerâmica... Tudo o que dá nas horas vagas...

André está irritado com a interrupção

 

ANDRÉ

Geni, tira essa gente do quadro.

Geni faz um muxoxo, dá de ombros e fica no mesmo lugar. André, encaminha-se para as jovens.

 

ANDRÉ

-  Por gentileza, senhoritas. Poderiam conversar em outro lugar? Nós estamos...

André interrompe o que ia dizendo, quando seu olhar cruza com o de Juliana.

(PLANO DETALHE DOS OLHOS DE JULIANA)

Fica alguns instantes boquiaberto, como que surpreso. Algo no olhar da jovem mexeu fortemente com ele. Juliana também sente-se presa ao olhar de André...  mas, percebe que estão atrapalhando a gravação.

 

JULIANA

-  Oh, desculpe...

Anabel, fotografando a cena,  bate uma foto no momento em que Juliana olha para André, aparecendo seu rosto, em close.

 

JULIANA

-  Eu tenho que ir, Anabel... Me procura no sábado, lá na mamãe. Não esqueça, tá?

ANABEL

-  Procuro, sim, Juliana. Tchau...

Anabel vai até a recepção e Juliana segue rapidamente em direção ao carro. Ao chegar na porta, volta-se para olhar para André e vê que ele está olhando para ela. Disfarça e segue adiante. André diz à Geni:

 

ANDRÉ

Você viu, Geni? Essa mulher é o tipo ideal pra aquele comercial sobre Turismo... Corre atrás dela e pega o telefone, o endereço...  

GENI

Eu não. Vá você, se quiser...

André olha para Geni com raiva e corre atrás dela, mas é tarde, o carro já está indo embora. André fica parado na porta do hotel.

Enquanto isso, Geni, com ar maldoso, vai até a recepção dirigindo-se ao recepcionista. Anabel, esperando pela chave, percebe Geni.

 

 

 GENI

-  Como é o nome dessa aeromoça que acabou de sair?

RECEPCIONISTA

-  Acho que é  Mariana... Juliana...

ANABEL

Quê que você quer com a Juliana?

Geni olha para Anabel, como quem tenta reconhe-la.

 

GENI

É que ela fotografa muito bem... (mostra a foto que acabou de tirar)

O André, dono da Produtora (aponta para o set), está querendo fazer um comercial com ela...

ANABEL

Não sei se ela topa, mas eu vou te dar o endereço da mãe dela, a Dra. Telma.

Anabel procura com os olhos onde escrever. Geni oferece as costas da foto e Anabel escreve o endereço.

 

 

 ANABEL

É da residência.

Geni pega o retrato com o endereço e olha...

 

 

 GENI

-  Dra. Telma Munhoz... É uma psiquiatra, não é?

Anabel está de frente para um aparelho de tv. No ar, um noticiário comentando a fuga espetacular de

presos. Algumas fotos se sucedem na tela. Anabel olha para Geni

 

 ANABEL

  -  Eu te conheço de algum lugar?

Geni reconheceu Anabel, mas faz de conta que não. Fala friamente.

 

 

 

 

 GENI

 Não. Tenho certeza que, não.

ANABEL

Desculpe, é que eu vi na tv e ...

Geni trata de cortar o assunto que não deseja venha à baila.

 

GENI

Obrigada pelo endereço. Eu tenho de continuar a gravação.

Geni  afasta-se e Anabel volta sua atenção para a tv.  Geni caminha na direção de André e este vem se  aproximando. Geni esconde a foto embaixo de outros papéis, na prancheta, e se apressa a ir ao seu encontro, procurando leva-lo a ficar de costas para Anabel.

 

 

 

 

ANDRÉ

-  O que há com você?

GENI

Nada... nada. Eu fui atrás de conseguir o telefone dela...

ANDRÉ

 Conseguiu?

GENI

-  Ainda não... mas pode deixar que eu consigo.

Geni se apressa a distrair a atenção de André.

 

GENI

-  Vamos aproveitar agora que está calmo, pra gravar.

ANDRÉ

Está bem... Depois... quero ter uma conversa séria com você... Não estou gostando nada de certas coisas.

GENI

Tá bom, “Seu André”!

Anabel continua observando o noticiário. Na tela da tv uma foto mostra vários adolescentes na frente de uma casa velha. As imagens se animam, fazendo fusão com a Seqüência 03.

 

Seqüência 03    -     EXT  /  DIA   (também pode ser noite)

Flash Back

Vários adolescentes, numa rua de bairro muito pobre, brincam de “pera, uva ou maçã”. Rico, um deles, escolhe Anabel.

 

RICO

Pera, uva ou maçã?

GAROTADA

Salada mista! Tem que ser na boca... de língua

 Geni, outra adolescente, se aborrece. Sente ciúmes de Anabel.

 

GENI

Não vale!  Isso não vale!

A garotada continua a torcida.

 

GAROTADA

Na boca, tem que ser de língua.

Rico troca olhares com Anabel, que está encabulada.

 

GAROTADA

Na boca, Rico... De língua.

Rico puxa Anabel e a beija na boca, demoradamente. Da porta da casa, seu pai, meio embriagado, chama-a aos berros.

 

PAI

Anabel, já pra casa, sua vagabunda!

Anabel sai sem jeito. Não sabe o que fazer. Olha para Riquinho. Ele está meio de lado, uma das mãos na cintura, numa pose de galã de favela.

Fim do Flash Back

 

Continua seqüência  02 

Na tela da tv, retrato de Riquinho, já mais velho, em pose idêntica.

 

Insert da expressão de Anabel olhando a tv.

LOCUTOR

Antes de completar 17 anos, fugiu da Febem. Viveu de pequenos furtos, até envolver-se com assaltos e tráfico de drogas.

(OBS. Elipse para a seqüência 04)

 

Seqüência: 04   PRODUTORA DO ANDRÉ          INT / DIA

 

Na Produtora André prepara um filme sobre Turismo e debate com Geni sobre quem deverá ser o narrador e personagem principal..

Na tela do monitor a foto de Riquinho, a mesma da cena anterior.

 

GENI  ( OFF )

- Esse é o que te falei. Rico Chaves

André está fixado na imagem de Juliana. Acha que é a sua oportunidade de conhecer a jovem. Faz um gesto de negação.

 

ANDRÉ

-  Não, não...

Prefiro uma bela mulher...  surgindo por trás das dunas... um porte de Cleópatra... Atrás, ao longe, o reflexo do sol nascente brilhando nas águas tranqüilas do mar... o Céu muito azul... e ao lado um coqueiro tremelicando as folhas ao toque suave dos ventos matinais...

Hein, Geni?... não está colossal?

Geni tenta persuadi-lo a colocar um homem nesse papel.  Está pensando no Riquinho, seu amante secreto. Seria uma excelente oportunidade para aproximar Riquinho da Produtora, na qual arquitetam dar um golpe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GENI

-  Ah, muito piegas... Eu prefiro um homem... Um homem rude como a natureza agressiva... a pele tostada pelo sol...  O vento forte soprando a areia das dunas e ele, assim no alto, a silhueta recortada num céu azul...  e o barulho das ondas quebrando nas pedras... Imagine, André, a força dessa imagem... Vai ficar uma coisa diferente, grandiosa... forte como o sol do Ceará...

André vacila, tocado pela argumentação de Geni. Mas vê nesse comercial a oportunidade de aproximar-se de Juliana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANDRÉ

-  Não, Geni... Essas imagens de um deus mitológico não combinam com nossas paisagens...

GENI

-  Pois eu acho justo o contrário... Esse deus das dunas vai atrair muito público feminino. .. E olha que na hora de decidir as férias... sempre quem escolhe é a mulher...

ANDRÉ

 -  Vamos ver isso depois...

André volta à ilha de edição, para continuar um trabalho. No monitor, um debate entre uma feminista e a Dra. Telma Munhoz, médica psiquiatra e artista plástica, nas horas vagas.

 

FEMINISTA

Não é fácil pra mulher nenhuma  optar pelo aborto. Muitas vezes é o próprio destino dela que está em jogo, seu futuro, sua profissão, seus sonhos...

André dá pausa.

 

ANDRÉ

-  Geni, você me prometeu arranjar o endereço daquela aeromoça...

GENI

-  Eu já tentei, mas eles não informam endereço de tripulantes. É norma...

Para desviar de um assunto que não lhe convém Geni faz-se insinuante.

 

GENI

-  Fique tranqüilo, gato, eu acabo conseguindo...

Não sabe que eu sempre consigo tudo que quero?

Geni aproxima-se dengosa, sensual. André sentado, gira, dando-lhe as costas. Não está a fim... Seu pensamento está em Juliana.

 

ANDRÉ

- Não amola, Geni... Estou trabalhando...

André dá play e o debate continua no monitor. Geni insinua-se mais. Quer ganhar André de qualquer jeito e o sexo é a sua melhor arma. Massageia-o nos ombros, por trás. André vira, disposto a rechaça-la, mas dá de cara com o busto da jovem, os seios oferecendo-se... e acaba cedendo à sensualidade de Geni. Num misto de raiva e desejo, começa a tirar-lhe a roupa, encostando-a num móvel. Alguns objetos caem no chão. Os dois riem e rolam para o chão. Câmera faz pan pelo estúdio até o monitor onde continua o debate que André estava editando.

 

 

 

Inserts dos dois fazendo sexo.

FEMINISTA

De outras vezes, é a situação miserável... Trazer ao mundo mais uma criança pra passar necessidade?

TELMA

Matar a criança pra ela não sofrer... (?)

Não é por aí.

Seria melhor não fazer a criança, não acha? Ou então, já que fez... deixá-la viver... mesmo que depois de nascida dê em adoção...

FEMINISTA

-  Ah, mas a mulher tem o direito de decidir sobre o próprio corpo.

TELMA

-  Só que o feto é um outro corpo... É uma outra pessoa, com características próprias, personalidade própria... Ele tem até impressões digitais...

Se uma mulher resolve cortar fora um dedo, arrancar o nariz... o problema é dela, são partes do corpo dela. Mas o feto não. Ele é um outro corpo, uma outra pessoa... Até o sangue dele não é o mesmo da mãe...

Geni, indo para o banheiro, passa entre a câmera e o monitor onde rola o debate. A cena volta para André  estendido no chão.  Levanta o corpo e sente algo preso às suas costas. Apanha. Vê as costas do retrato de Juliana com o endereço da mãe dela. Lê..

 

ANDRÉ

-  Telma Munhoz...

Levanta a cabeça... Está intrigado.

 

ANDRÉ

-  É aquela médica da entrevista...

Vira a foto e vê o rosto de Juliana. Estremece de emoção. Continua olhando a foto com expressão de ternura.

 

ANDRÉ    (OFF)

-  Há quanto tempo venho procurando esse olhar...

... Juliana...

Preciso te encontrar...

Olha os papéis espalhados no chão, coisas do trabalho da Geni. Olha na direção do banheiro, com ar de quem está entendendo a coisa e guarda a foto. Geni volta do banheiro e pega as coisas que estão no chão. Sente falta da foto. André olha discreto para ela. Geni procura a foto, revirando as coisas.

 

ANDRÉ

-  Perdeu alguma coisa?

GENI

-  Não... umas anotações!...

André mostra a foto

 

ANDRÉ

-  É isto aqui que está procurando?

Geni quase perturba-se, mas reage e fala em tom de acusação, tentando reverter a situação.

 

GENI

-  Onde achou?

Anda mexendo nas minhas coisas, é?

André fala com dureza.

 

ANDRÉ

-  Como conseguiu isso?

Geni tenta tirar a foto da mão de André. Acredita que ele ainda não viu o endereço.

 

GENI

-  Me dá... Fui eu que tirei... pra ver se conseguia o endereço dela.

André não dá a foto.

 

ANDRÉ

-  O que tem a Dra. Telma a ver com ela?

Anabel percebe que não vai poder enganar André. É melhor dizer a verdade.

 

GENI

-  É a mãe dela...

André está surpreso. Olha Geni e sua expressão fica furiosa.

 

ANDRÉ

-  Por que me enganou, sua vadia? !

Geni apruma o peito e tenta passar da defensiva ao ataque.

 

GENI

-  É claro que eu tinha que enganar. Ce ficou todo derretido feito um idiota pro lado dessa perua... Só tô defendendo o que é meu... Não vou te dar pra ninguém, não, seu André...

ANDRÉ

- Tá louca, Geni? Você não é minha dona, fique sabendo...

André olha de novo o endereço, desliga os aparelhos e se prepara para sair... Geni percebe que está perdendo terreno. Aproxima-se, com expressão humilde.

 

 

 

 

GENI

-  Me perdoa, Gato...  perdoa!

Eu fiquei desesperada, gatinho;  ce tava todo embeiçado pro lado dela...

André respira fundo. Fala em tom frio e autoritário.

 

ANDRÉ

-  Depois nós conversamos, Geni...

André sai e Geni permanece pensativa, como procurando uma solução... Batidas suaves na porta. Geni abre. É Riquinho. Fica assustada, com medo de André voltar e vê-los.

 

 

GENI

-  Riquinho. Você aqui? ... É perigoso...

Riquinho vai entrando enquanto fala.

 

RIQUINHO

- Deixa eu entrar... a polícia tá atrás de mim...

Geni assusta-se

 

GENI

- A polícia?  ...  

Que é que ce andou aprontando?

RIQUINHO

Num pergunta tanto e me ajuda, tá?

GENI

Aqui num dá pra te escondê, Rico...  É perigoso... Alguém pode te ver...

RIQUINHO

-  O patrãozinho saiu, eu vi... E depois,  só tou precisando de uns dias...  Até me esquecerem...

GENI

-  Mas aqui não dá...

Geni pensa um pouco

 

GENI

-  Eu sei de um lugar seguro... Ninguém vai te encontrar...

Mas, primeiro... quero matar a saudade

Agarram-se e beijam-se com a fúria de um desejo longamente reprimido.

 

Seqüência 05 -  Texto do debate que André está editando  - Gravação em estúdio

 

 

 

FEMINISTA

Não é fácil pra mulher nenhuma  optar pelo aborto. Muitas vezes é o próprio destino dela que está em jogo, seu futuro, sua profissão, seus sonhos...

 

 

 

 

 

 

De outras vezes, é a situação miserável... Trazer ao mundo mais uma criança pra passar necessidade?

TELMA

Matar a criança pra ela não sofrer... (?)

Não é por aí.

Seria melhor não fazer a criança, não acha? Ou então, já que fez... deixá-la viver... mesmo que depois de nascida dê em adoção...

FEMINISTA

-  Ah, mas a mulher tem o direito de decidir sobre o próprio corpo.

TELMA

-  Só que o feto é um outro corpo... É uma outra pessoa, com características próprias, personalidade própria... Ele tem até impressões digitais...

Se uma mulher resolve cortar fora um dedo, arrancar o nariz... o problema é dela, são partes do corpo dela. Mas o feto não. Ele é um outro corpo, uma outra pessoa... Até o sangue dele não é o mesmo da mãe...

 

 

Seqüência:  06   -  NA BR-116 INTERIOR DO CEARÁ  EXT / DIA

 

Algumas tomadas do automóvel com Juliana e Anabel na estrada. A paisagem árida deixa o dia ainda mais quente. O asfalto parece ferver diante do veículo, cansando os olhos de Juliana.

 

ANABEL

- Quer que eu leve?

JULIANA

- Dá pra eu levar até lá. Você dirigiu a noite quase toda. Está mais cansada que eu.

Anabel observa melhor Juliana e sorri de leve

 

ANABEL

- Eu nunca te vi tão feliz assim, comentou.

JULIANA

- Não adivinha por quê?

 

ANABEL

- É o teu príncipe encantado, não é? Bastou um jantarzinho...

Juliana interrompe, falando com ar sonhador.

 

JULIANA

- Não foi só um jantarzinho...

 Foi um jantar à luz da lua e, por música, a sinfonia das ondas quebrando na praia, casando com o ruído das folhas dos coqueiros tocadas pela brisa... foi divino

Juliana fica silenciosa instantes degustando aquelas lembranças. Faz um ar sério ao falar.

 

JULIANA

- Naquela noite houve um momento em que eu senti uma coisa muito estranha... De repente, nós estávamos num outro lugar, com tudo diferente... Uma outra época...

ANABEL

- Acho que você está variando, amiga – interrompeu Anabel. - Também com esse sol, essa caatinga interminável... Isto deve ter mexido com a sua cabeça. Aliás, ainda não entendi porque você quis vir de carro.

Juliana responde no tom de quem praticou um ato heróico.

 

JULIANA

- São Paulo a Fortaleza de carro.... é um estirão! Eu nunca tinha feito uma viagem assim por terra e queria sentir isso, entende?

Juliana faz um gesto largo com a mão e fala com muito entusiasmo.

 

JULIANA

- Isto é fantástico, amiga! Você vê o mundo por dentro e não por fora como a gente vê lá de cima. Você entra nas cidadezinhas, almoça num restaurante de beira de estrada, vê gente de todo tipo, se integra nesse mundo... tão diferente do que nós conhecemos.

... Na estrada é o gado pastando, o rio, a ponte, o camponês de enxada ou foice na mão caminhando quilômetros, e a mulher arrastando a filharada atrás de si. É a vida, Anabel. Uma vida mais pura, mais verdadeira, sem hipocrisias.

Quer saber? Estou adorando isto.

ANABEL

- Você devia é comprar um caminhão e ser caminhoneira.

JULIANA

- Se não fosse o medo dos assaltos, até que seria uma boa opção.

Algumas tomadas da paisagem que começa a dar toques de verde. Cajueiros com seus longos galhos retorcidos, crescendo na horizontal. Mais adiante, mangueiras centenárias, gigantescas, carregadas de frutos verdes, outros começando a pintar de vermelho ou amarelo, parecendo pingentes enfeitando seus galhos.

 

Seqüência:  07   -  EM FRENTE AO AP. DE JULIANA  EXT / DIA

Seqüência 08   -  (Flash Back)

Seqüência 09   -  (Flash Back)

 

Anabel e Juliana estão chegando da viagem. Estacionam o veículo e desembarcam. Ao lado o caminhão com a mudança. Três empregados da transportadora estão sentados na calçada, aguardando a chegada delas. Juliana dirige-se a eles enquanto Anabel circula os arredores com olhar. De repente, estremece, fixando-se na direção de um caminho que desemboca ali perto. Vai até Juliana e fala com expressão estranha.

 

ANABEL

- Preciso ver uma coisa...

 JULIANA

- Aonde você vai, Anabel?

ANABEL

- Não se preocupe... eu volto já.

Anabel segue na direção da rua que a havia intrigado. Reconhece o lugar. Vê ao longe uma casa abandonada. O coração aperta pela presença do passado. Segue na direção do casebre, mas pára, cheia de recordações. Parece-lhe ver um vulto no interior.  Continua. Entra devagar, com cuidado. Está tudo em ruínas. Alguns móveis velhos, desmantelados, aqui e ali. A um canto, restos de um velho álbum. Abre e vai virando as folhas. Encontra um retrato dela e de Riquinho, quando adolescentes. Emociona-se. Senta no chão. Aperta o retrato contra o peito. Abaixa a cabeça...

Fusão da imagem de Anabel de cabeça baixa com imagem dela adolescente, sentada na mesma posição, junto a Riquinho e Geni.

 

Seqüência 08   ( Flash back )

O cenário é o velho casebre, há vários anos, quando ainda habitado. Geni, Riquinho e Anabel sentados no chão. Anabel, com a cabeça baixa,  fala chorando.

 

ANABEL

-  ... e estou grávida... dele...

RIQUINHO

-  Do teu pai...

GENI

-  Aquele desgraçado!... Deviam capá...

ANABEL

-  Qê que eu faço?.

GENI

- Faz um aborto...

Riquinho fala exaltado, quase aos gritos

 

RIQUINHO

- Não! Isso não!

GENI

-  Qual é, Riquim?... Só se ela fosse doida...

 

Fim do Flash Back

 

Continua seqüência 07

Anabel levanta,  coloca o retrato em pé encostado em algo. Na sombra, Riquinho, escondido, observa, de faca em punho. Ainda não viu Anabel, só o vulto dela.

Anabel caminha mais um pouco e tropeça em algo. Uma esteira desmanchando-se de tão velha. Levanta-a do chão, reconhece-a . Atira-a fora, horrorizada. Fica estática olhando a esteira.

 

Seqüência 09     (Flash Back)   

Fusão da esteira com cena do pai de Anabel, morto, atravessado sobre a mesma, um fio de sangue correndo da beira da boca. Anabel à beira de um ataque nervoso. Riquinho com um pedaço de pau na mão, olhando horrorizado para o cadáver. Geni entrando pela porta, assusta-se. Olha a cena, vê o pau na mão de Riquinho e compreende tudo. Riquinho se defende.

 

RIQUINHO

-  Ele tava forçando ela de novo...

Geni  olha com ódio para Anabel

 

GENI

-  E tu tinha que te metê, Riquim?

O que vai ser agora?

ANABEL

-  Ce tem que fugi, Riquim

Geni sabe que Riquinho tem uma queda por Anabel. Vive enciumada. Olha para ele e diz com firmeza

 

GENI

-  Eu vou com ocê...

 

 

RIQUINHO

-  Tá doida, é? Quero lá um rabo de saia pra me atrapalhá?

Fim do Flash Back

 

Continua seqüência  07

Anabel balança a cabeça como a querer afastar aquelas imagens. Riquinho, pronto para atacar, reconhece-a. Leva um susto e fica olhando para ela, como quem olha o Paraiso perdido. Anabel sai. Riquinho vai até o retrato que ela olhara, apanha-o e guarda consigo. Levanta a vista e fica olhando Anabel a se afastar. Seu rosto expressa ternura. Aos poucos recupera-se, faz um gesto de quem quer livrar-se de pensamentos incômodos e reassume sua habitual postura de bandido.

 

Seqüência  10   -   PRODUTORA DO ANDRÉ    INT / DIA

 

André, sozinho na Produtora, anda pra lá e pra cá. Para em frente ao retrato de Juliana, que está sobre um móvel. Fica olhando com expressão saudosa.

 

ANDRÉ

-  Ah, Juliana... Que saudade!

André olha o calendário na parede. Vai até lá e faz um x sobre mais uma data no final de uma seqüência de oito. Enquanto fala, volta para junto do retrato.

 

ANDRÉ  -  ( OFF )

Nove dias sem te ver... uma eternidade.

... você prometeu ir a Jeri comigo, mia Rainha...

André sorri

 

ANDRÉ   ( OFF )

-  Vai ser o paraiso... Três dias juntos...

André balança a cabeça como quem precisa voltar ao agora. Apanha uma fita de vídeo, a matriz do debate com Dra. Telma. Fala em voz alta enquanto coloca a fita no aparelho.

 

ANDRÉ

- Essa fita vai acabar mofando...

O telefone toca. André atende. Na outra ponta da linha, Anabel.

 

 

 

ANDRÉ

Alo!...

Sim...  Anabel?...

 

 

 

Seqüência  11        -          APARTAMENTO DE JULIANA   -    INT / DIA

 

(Continuando a seq. anterior. mas em outra locação )

Enquanto Anabel fala ao telefone com André, insert mostrando Geni, disfarçada de arrumadeira ( peruca, ou cabelo arrumado de forma diferente, óculos, roupa pobre), colocando  no quarto de Juliana um aparelho de escuta dentro de uma jarra com flores artificiais.

 

 

 

 

 

 

ANABEL

-  A Juliana me pediu pra te avisar que ela chega hoje... daqui a mais ou menos uma hora...

ANDRÉ  ( OFF )

-  Ah, que ótimo!

Ela falou alguma coisa sobre Jericoacoara?...

Geni entra na sala. Está satisfeita porque conseguiu colocar a escuta. Faz expressão de ódio ao escutar a conversa de Anabel com André e um gesto de quem pensa: “espere só pra ver”

 

ANABEL

-  Bom, o recado dela é pra você apanhá-la no aeroporto daqui a uma hora... e ir preparado pra a viagem...........

A voz de André denota extrema satisfação.

 

ANDRÉ  ( OFF )

-  Ah, maravilha...!

Você é um anjo, Anabel.

ANABEL

Huuum... Pelo jeito, você está mesmo fisgado.

ANDRÉ  ( OFF )

-   E posso dizer que sou um peixe muito feliz...

Até logo, Anabel... e, obrigado, tá?

ANABEL

-  De nada, André...       Até logo.

Geni aproxima-se.

 

GENI

-  Já terminei a faxina.

Anabel paga a diária e Geni sai.

 

Seqüência 12    -         EM FRENTE AO APARTAMENTO DE JULIANA     EXT / DIA

 

Câmera mostra janela do ap de Juliana, e vai descendo em panorâmica até a porta do prédio. Conforme desce, Geni, parada no outro lado da rua, vai entrando em foco. Está de costas para a câmera e de frente para o ap. Câmera, em travelling vai circulando Geni, enquanto ela vai tirando óculos e peruca, guardando-os na bolsa, até mostra-la de frente com os olhos fixos no ap. de juliana.  Plano detalhe dos olhos da Geni com expressão de ódio. Geni consulta o relógio. Na ponta da rua aparece o carro de André, que está se aproximando. Com ele vem Juliana. Plano Detalho dos olhos de Geni, cheios de ódio, ao ver Juliana. Plano de André e Juliana desembarcando e Geni aproximando-se com movimentos voluptuosos, fazendo-se dengosa.

 

GENI

-  Oi, André...

André não gosta do encontro. Está um pouco apreensivo sobre o que Geni possa dizer a Juliana.

 

ANDRÉ

- Oi...  Juliana, esta é a Geni... ela trabalhou um tempo comigo na Produtora...

Geni olha Juliana de cima abaixo. Fala em tom levemente irônico

 

GENI

-  Huummm...   Tá bom...

Espero que sejam muito... felizes...

Câmera mostra expressão apreensiva de Juliana. Ela sente perigo no ar. Geni dá as costas e sai andando lentamente, caprichando na ondulação do corpo.

 

JULIANA

-  Estranha, essa garota...

ANDRÉ

-  Eu saí com ela algumas vezes... antes de te conhecer...

Não é flor que se cheire...  Tive que mandar embora.

Juliana sente-se envolvida numa atmosfera pesada. Está apreensiva.

 

JULIANA

-  Ela tem alguma coisa estranha... perigosa... Quando olhou pra mim, senti um calafrio... me arrepiei toda.

Juliana mostra  o braço arrepiado e olha André com ar preocupado.

 

JULIANA

- Essa mulher é perigosa, André... Tome cuidado...

ANDRÉ

-  Que é que ela pode fazer?... Nada!

Juliana fica olhando com ar apreensivo na direção em que Geni saiu. Sacode-se de leve como a querer jogar longe as más impressões. André e Juliana entram no prédio.

 

Seqüência 13         APARTAMENTO DE JULIANA    -   INT / DIA 

 

Anabel está no apartamento e vai receber André e Juliana

 

ANABEL

Oi, Juliana!

JULIANA

-  Oi, Anabel!

ANABEL

Você é o André... Claro!

ANDRÉ

E você é o nosso anjo guardião.

ANABEL

-  As asas já começaram a crescer, mas ainda não dá pra voar...

Os três riem da brincadeira de Anabel. Juliana fala para André.

 

JULIANA

-  Me dá só o tempo de tomar um banho.

ANDRÉ

- Não tenha pressa. Eu aguardo.

ANABEL

-  Fica a vontade, André. Quer tomar alguma coisa?

ANDRÉ

Não, não... estou bem.

Juliana vai para o quarto e Anabel acompanha. As duas conversam enquanto Juliana toma banho e se veste para sair.

 

ANABEL

-  É um gato esse André... simpático...

Juliana sorri e fala com ar sonhador

 

JULIANA

-  Eu nunca tinha conhecido alguém como ele... É especial...

Só saímos uma vez e...

ANABEL

Um jantar à luz da lua... já sei...

JULIANA

-  E a sinfonia das ondas quebrando na praia...

É... acho que estou ficando apaixonada.

Anabel ri.

 

ANABEL

Ficando?

Tá aí, arriada dos quatro pneus, e não sabe...? E o pior é que não é só você. O André tá num pé e outro... Telefona todo dia por notícias tuas...

Juliana fica feliz com a informação da amiga. Sorri e fecha os olhos, como antevendo felicidade.

 

ANABEL

-  E quais são as novidades por lá?

JULIANA

-  Nada de novo... Só a Fernanda... fez um aborto e quase morreu... Faltou pouco. Aquela não aprende!

ANABEL

-  Pois ela é que está certa.

JULIANA

-  Acha certo matar o próprio filho? Credo, Anabel!

ANABEL

-  Que filho, Juliana? Um feto é só um pedaço de qualquer coisa que botaram dentro da gente.

JULIANA

-  Não fala assim, Anabel. O feto é um ser vivo, é uma pessoa em formação... é um filho...

Juliana tocou num ponto sensível de Anabel. Esta responde agressivamente

 

ANABEL

-  Que a gente não pediu!... não quis...!

Juliana entende que tocou em alguma ferida.

 

JULIANA

-  Desculpe, amiga. Não quis te machucar...

Anabel respira fundo, procurando relaxar.

 

ANABEL

-  Que é isso? Eu é que preciso me desculpar...

Juliana aproxima-se da amiga e fala com carinho

 

JULIANA

-  Conversa boba essa... Quando eu voltar, a gente conversa mais. Aí você me conta... tá bom?

ANABEL

-  Tem nada de importante pra contar... Eu já te falei sobre o meu pai...

Se não tivesse feito aborto... teria tido um filho dele... Só isso...

Juliana olha a amiga com ar expressivo. Vai até o telefone e digita. Enquanto espera comenta em voz baixa, balançando a cabeça.

 

JULIANA

-  Só isso!

Ouve-se alguns chamados do telefone e a cena passa para a casa da Telma (seq. 14)

 

Seqüência 14        CASA DE TELMA     INT / DIA

 

Telma está em casa, entretida, pintando ou qualquer outra coisa. O telefone toca. Vai atender. A voz de Juliana é em OFF.

 

TELMA

-  Juliana?... oh, saudade, filha...................................

Em Fortaleza? Ah, que bom... ......

JULIANA  ( OFF )

Tô aqui, sim mãe... mas não vá ficando assanhada, porque eu vou passar o fim de semana em Jeri, ou numa outra praia...

TELMA

-  Huum...  com o André?... 

JULIANA  ( OFF )

-  Adivinha...

TELMA

-  Tá bom, filha. Te cuida, tá?

Telma desliga o telefone, com expressão de carinho. Sorri, olhando ao longe.

 

 

Seqüência  15         QUARTO DA GENI       INT / DIA

 

Riquinho está no quarto da Geni, estatelado na cama, ouvindo rádio. O ambiente é pobre. Geni, chega, vindo do apartamento de Juliana. A conversa rola entre os dois enquanto Geni vai trocando de roupa.

 

RIQUINHO

- Pega uma cerveja pra mim, Geni.

GENI  -  Que cerveja? Vou tirar cerveja de onde? Tô sem um puto...

RIQUINHO

-  E tá trabalhando pra quê?

GENI

-  Paguei a budega... sobrou nada.

RIQUINHO

-  Tá vendo? É só ocê decidir e a gente bota a mão na grana.

GENI

-  É perigoso, Riquim. Eu num tô afim de passar o resto da vida na gaiola... 

Riquinho precisa da participação de Geni para trazer uma partida de drogas da Bolívia. Esta, reluta. Riquinho tenta convencê-la. Aproxima-se, com pinta de galã.

 

RIQUINHO

-  Ora mia lôra... perigo tem em toda parte... A diferença é que esse dá lucro... um dinheirão.

GENI

-  E por que é que tu num vai só?

RIQUINHO

-  Um casal em lua de mel num desperta suspeita.

GENI

-  Sei, não...

Geni está cheia de ódio de Juliana e de André. Acha que a Juliana é a culpada por André tê-la despedido

A vingança, para ela, está acima de tudo. Procura conseguir a ajuda de Riquinho, interessando-o em roubar a produtora do André. Fala em tom confidencial.

 

GENI

Eu tô pensando é num outro servicinho, sem perigo nenhum... É numa produtora acolá...

RIQUINHO

-  Corta essa Geni.

GENI

-   De quê que tu tá com medo?

RIQUINHO

-  Que medo! Eu lá sou macho pra ter medo? Eu num sou é trouxa... Ce tá é querendo me usar pra se vingar do chute que levou na bunda...

Geni estremece com a observação de Rico. O ódio cresce.

 

 

 

 

 

Rico dá de ombros

 

 

 

GENI

-  Aquela desgraçada me paga... Eu tô no olho da rua é por causa dela...  Não fosse ela, hoje eu tava lá, me dando bem... me armando pra ser a dona...

E é claro que tu ia ganhar com isso, né Riquim?

 

Mas inda dá pra tirá uma lasca... Lá é cheio de aparelho...

 RIQUINHO

-  Aquilo é aparelho pra dá cana em quem for vender... É coisa de profissional... difícil pra passar.

E num me enche mais com essa conversa.

Tá ai com dor de cotovelo e quer que eu dê uma de trouxa...

Geni aproxima-se, beija Riquinho com certa violência voluptuosa...

 

GENI

-  A gente ainda chega num acordo... Me aguarde...

Riquinho mergulha na sensualidade de Geni e agarra-a, querendo sexo.

 

 

 

Seqüência 16    JERICOACOARA     EXT / DIA

 

André e Juliana, felizes, caminham pela praia, andam de bugre por cima das dunas, tomam banho de mar. Param em algum lugar para tomar água de côco.

 

ANDRÉ

-  Sabe, Juliana. Pode parecer um lugar comum, mas pra mim é como se nos conhecêssemos desde sempre. Você e eu...  nesta praia... ou em qualquer lugar...

JULIANA

-  Pode ser lugar comum para os outros... não pra mim...  Sabe, eu sentia saudade de você... antes de te conhecer...

Não é uma loucura?

 

ANDRÉ

Pode ser... Talvez a psicologia explique isso...

JULIANA

-  Pois eu acho que o coração tem razões, que a própria psicologia desconhece...

Ambos riem do trocadilho. Estão extremamente felizes. Anabel sai correndo para o mar, rindo alegremente e André sai no seu encalço. Câmera mostra o casal por instantes e corrige fechando no vai-e-vem das ondas, lavando a areia, em interminável movimento.

 

Seqüência 17     QUARTO DA GENI    INT / DIA

 

Riquinho está estirado no chão, ouvindo rádio. Geni olha pela janela. De repente dá um giro com o corpo,  fecha o punho e bate com o pé, no chão, com força. A batida do pé no chão repete-se em plano detalhe, seguida de plano detalhe do olhar malévolo e odiento de Geni.

 

RIQUINHO

-  Que num vai logo matá galinha preta... baté pé no Terreiro?

Num  gosto nada dessa palhaçada.

GENI

-   Qualquer dia te mostro a palhaçada.

RIQUINHO

-  E num é?

GENI

-  Pois pode ter certeza que eles tão recebendo o recado... é só um aviso... O nó mesmo, meu Rico, quem vai dar é você.

RIQUINHO

-  Ficou doida, é?

Geni se aproxima de Rico, toda dengosa        

 

GENI

- Ainda tá interessado naquela viagem?... lá pela fronteira?

Rico entende a proposta. Claro que está interessado. É uma questão de sobrevivência.

 

RIQUINHO

Desembucha, vá.

Geni fala no ouvido de Rico. Ele reage, com raiva.

 

RIQUINHO

Eu sou bandido, mas não pra esse tipo de negócio

Geni percebe que não deve insistir, no momento. Faz uma careta e vai até a cama.

 

GENI

-  Tou com sono, vou dormir um pouco... quando acordar a gente conversa...

Geni deita-se na cama, e se ajeita para dormir. Rico fica observando.

 

 

 

Seqüência 18      JERICOACOARA        EXT / DIA   -  AO ENTARDECER

 

Está  entardecendo. André e Juliana escalam uma duna. Silenciosos, contemplam o mar refletindo as luzes do entardecer. Suas silhuetas recortam-se sobre o céu e a risca do mar. André segura as mãos de Juliana.

 

ANDRÉ

-  Acho que não é preciso dizer que te amo... Sabe disso, não sabe?

JULIANA

-  Sei, André.

Juliana puxa suavemente as mãos de André para o próprio peito.

 

JULIANA

-  E o meu coração?  O que ele diz?

André encosta o ouvido no peito de Juliana, e levanta a cabeça em seguida.

 

ANDRÉ

-  Ele diz que Deus, quando nos criou, nos ligou um ao outro por um fio mágico chamado amor. Mas como a lei diz que nada pode ser fácil, mandou um para o norte e o outro para o sul. Aí, Ele informou que teríamos de romper muito chão e muito gelo, a fim de podermos finalmente nos reencontrar... e nos amar...

André abraça a jovem com carinho. Toca-lhe os cabelos com as pontas dos dedos, o rosto, os lábios... As bocas vão se aproximando. Beijam-se. Voltam a caminhar, com as silhuetas recortadas sobre o mar, no horizonte distante. Câmera acompanha em travelling.

 

ANDRÉ

-  Já tive muitas namoradas... muitas mulheres... Já fiz algumas sofrerem... já sofri por outras... Mas agora é diferente... É amor de verdade... um sentimento tranqüilo, mas  poderoso...

André pára e segura Juliana pelos ombros, como a firmar o que diz.

 

ANDRÉ

- É perene ... assim, como as águas do mar...

Juliana fica silenciosa, desfrutando a ventura daquele momento.

Flash rápido do pé da Geni batendo no chão fazendo fusão com seu olhar de ódio. Câmera mostra reação de André, ao sentir um calafrio, estremecendo de leve.

 

JULIANA

-  Que foi?... Que aconteceu?

André tem a sensação de que algo terrível está ameaçando seu amor. É algo indefinível, mas poderoso. Não quer assustar Juliana, mas acha que deve deixa-la de sobreaviso.

 

ANDRÉ

Me passou uma impressão ruim, um calafrio...

Uma sensação estranha...

Juliana está preocupada. Vinha sentido perigos no ar, e tem a impressão de que se relacionam com seu romance com André .

 

JULIANA

Que tipo de sensação?

André segura as mãos de Juliana

 

ANDRÉ

... É assim... como se tivéssemos ainda algum abismo escuro pra cruzar, antes de podermos nos encontrar de vez. Não sei se você me entende...

Juliana estremece. Aproxima-se mais de André, enquanto fala, abraçando-o .

 

JULIANA

-  Oh, amor... O pior é que eu tenho a mesma impressão. Quando penso em você... e me sinto assim... toda envolvida no teu carinho... De repente... é como se baixasse uma nuvem escura, pegajosa, malévola...  e eu sinto essa maldade nos envolvendo... nos sufocando...

Eu achava que era imaginação...

Juliana aconchega-se mais.

 

JULIANA

-  Me abraça... me protege... protege o nosso amor.

André abraça Juliana com força. Corre os olhos em volta e fala com emoção.

 

ANDRÉ

-  Vamos pedir proteção às forças da natureza... ao mar, ao vento, às estrelas... Que protejam nosso amor...

Juliana fecha os olhos e respira fundo, como a confirmar aquele pedido.

 

Seqüência 19    QUARTO  DA GENI     INT / DIA

 

Geni está deitada na cama. Rico ouvindo rádio, com ar aborrecido. Geni levanta e vai até ele.

 

GENI

-  E aí?  Pensou na minha proposta?

RIQUINHO

 Eu já disse que sou bandido, mas não pra esse tipo de negócio.

GENI

-  Pois é pegar ou largar...

Eu acho que vale a pena... Você faz o servicinho pra mim e vou com você pra Bolívia.

Rico fica pensativo. Levanta, anda, chuta alguns móveis... Olha Geni de esguelha. Percebe que ela não vai mudar de atitude. Toma uma decisão... vai intencionalmente até a penteadeira de Geni, pega um frasco de perfume. Cheira. Perfuma-se todo e fica parado, com o frasco na mão, olhando para Geni. Esta entende e sorri diabolicamente .

 

Seqüência  20      APARTAMENTO DE JULIANA     INT / NOITE

 

Riquinho está com um frasco de perfume na mão, na mesma posição e enquadramento da cena anterior (ultima da sequ. 19). Está no quarto de Juliana. Perfuma-se todo. André e Juliana entram no apartamento. Juliana está fardada, chegando de vôo. André foi apanhá-la no aeroporto. Riquinho corre para o banheiro. Juliana  para, estranhando algo.

 

ANDRÉ

-  Que foi?

JULIANA

-  Um cheiro de perfume...

ANDRÉ

-  Será que entrou alguém?

JULIANA

-  ...Não... é o meu perfume...  Devo ter deixado o frasco aberto...

Juliana vai até o quarto e André acompanha. Vê o frasco de perfume aberto. Fecha-o, faz uma expressão de quem está estranhando... André aproxima-se da jarra com flores, que está com o aparelho de escuta. Olha para o vaso e faz cara de quem não gosta.

 

 

 

ANDRÉ

-  Eu vou te dar um arranjo de flores mais bonito.

JULIANA

-  Mas esse é bonito, André...

André olha para o vaso fazendo meia careta.

 

 

INSERT - Riquinho, escondido no banheiro, faz expressão meio surpresa, quando André fala do vaso de flores.

 

Juliana vai até o guarda-roupa apanhar um vestido.

 

 

ANDRÉ

-  Pode mudar de roupa... eu fico de costas.

Juliana procura um belo vestido e o coloca enquanto conversam. André bate o olho num livro sobre a cômoda. Apanha e comenta, com ar de surpresa.

 

 

ANDRÉ

-Genética...

Juliana sorri de leve.

 

 

 

JULIANA

-  Era minha matéria preferida na faculdade.

ANDRÉ

Por que não terminou?

JULIANA

 Não deu. Papai morreu e... achei melhor deixar a faculdade pra mais tarde.

ANDRÉ

Pois você está convidada pra ver um documentário que estou editando. É sobre fertilização e desenvolvimento do embrião... É simplesmente fantástico!

Juliana olha para André, alegremente surpreendida.

 

 

 

JULIANA

Que legal, André. Claro que eu quero ver... Esse assunto pra mim é fascinante... Os primeiros momentos da vida... como ela começa...

O que mais encanta é que a ciência, por mais que se adiante, não consegue chegar ao fundo da questão... o que há por trás... qual é essa força soberana, esse mecanismo que faz tudo isto acontecer...

Juliana acaba de se vestir e vão para a sala. André liga o som (é uma música especial que vai marcar os momentos de amor do casal). Juliana faz meia penumbra na sala. Dançam juntos, de rosto colado, desfrutando as mútuas presenç[LP1] as. Termina a música. Os dois pemanecem abraçados.

 

ANDRÉ

-  Eu queria fazer de uma forma especial, diferente do resto dos mortais...

JULIANA

Fazer, o que?

ANDRÉ

-  Perguntar se quer casar comigo.

Juliana está emocionada. O casamento tinha entrado em seus planos desde que conheceu André. Mesmo assim, está um pouco surpreendida.

 

JULIANA

-  Pela tradição moderna eu deveria dizer que preciso de um tempo pra pensar.  Mas penso nisso desde que te conheci...  Quero sim... casar com você...

André tira do bolso um par de alianças. Coloca uma no dedo de Juliana e esta coloca a outra em seu dedo. Estão em frente um do outro, segurando-se as mãos. André olha Juliana nos olhos.

 

ANDRÉ

- Sem nenhuma apelação, eu quero estar com você  na alegria, mas também na tristeza... Nas horas leves, e também nas pesadas... nos erros, nos acertos, em tudo que vier...

Juliana sente que é um compromisso solene, embora dito com simplicidade.

 

JULIANA

Eu digo a mesma coisa, amor. Quero estar com você... em tudo que vier...

Abraçam-se, beijam-se. A felicidade que sentem transforma rapidamente o clima solene em alegre

 

ANDRÉ

-  Precisamos  comemorar, nem que seja com um brinde com água.

JULIANA

Ah, eu acho que tenho uma garrafa de champanha na despensa.  Vou ver.

Juliana sai e André aproxima-se da janela. Olha as estrelas. Flashes rápidos do pé da Geni batendo no chão, fazendo fusão com expressão maldosa de Riquinho, escondido no banheiro. André sente como se uma nuvem ameaçadora tivesse envolvido o local, como se fosse um mau pressentimento.

 

JULIANA

-  Achei, amor. Botei no gelo.

André está preocupado. Sente que algo ameaça seu amor. Fala em tom sério.

 

ANDRÉ

Eu quero pedir uma coisa a você, Juliana.

Juliana observa o tom sério de André. Fica preocupada.

 

JULIANA

- O que é?

André segura as mãos de Juliana.

 

ANDRÉ

-  Nós estamos assumindo compromisso um com o outro... Vamos ter uma vida em comum... juntos...

Seria bom fazermos um... um voto de confiança um no outro... confiar, ter paciência, relevar...

JULIANA

-   Você está certo...

Um amor pra toda a vida é coisa muito rara, mas a gente tem que lutar por isso...

ANDRÉ

Priorizar o afeto... o companheirismo...  a compreensão...

Se esses valores não forem muito fortes, com o tempo, a união se acaba... ou azeda.

 

JULIANA

-  A nossa não vai azedar nunca, amor. Prometo.

Os dois beijam-se. O desejo sexual vibra forte entre eles. André beija-a na boca, no pescoço... Avança a mão buscando zonas eróticas. Juliana afasta-o suavemente.

 

JULIANA

-  Só depois do casamento... Eu quero ter uma lua de mel de verdade...

 

ANDRÉ

Não é uma coisa ingenua demais pra nossa época?

JULIANA

Pois acho que é justo esse ingrediente da ingenuidade que está faltando hoje em dia... aquela coisa romântica... aquela expectativa de sexo... menos fácil... Entende?

André fica um pouco pensativo. Olha Juliana com carinho.

 

ANDRÉ

- É isso mesmo que você quer?

Juliana faz sim com a cabeça. André pensa um pouco.

 

 ANDRÉ

-  Está bem... Se quer assim...

Os dois vão se dirigindo à cozinha, em busca da champanha, abrem e se preparam para beber enquanto falam.

 

JULIANA

-  Acho importante chegar ao sexo depois de uma parada mais longa na estação do coração.

Minha mãe diz que uma das grandes tragédias da humanidade está no sexo sem amor e sem cabeça.

ANDRÉ

Sem cabeça?...

JULIANA

-  Ela diz que as forças sexuais são energias criadoras, radicadas na alma, no psiquismo...  que se enraizam no sentimento. Por isso devem atuar juntos, sexo com sentimento...

 Só que acima deles está colocada a cabeça, que deve orientar os dois...

Juliana sorri brincalhona e completa.

 

JULIANA

É uma questão de hierarquia...

André sorri da colocação de Juliana. Apanha a taça.

 

ANDRÉ

-  Vamos brindar ao nosso amor...

JULIANA

- Que ele seja forte e perene como o mar e encantador como as noites de lua cheia.

ANDRÉ

 Que a nossa união seja perene... cheia de encanto e alegria.

Após o brinde um beijo com gosto de champanhe. André senta e Juliana pega algo para tira-gosto. Riquinho aproxima-se da cozinha, escutando a conversa.

 

 ANDRÉ

-  Você não me disse como foi o vôo...

JULIANA

-  Tivemos uma ameaça de bomba a bordo. Foi um sufoco...

ANDRÉ

-  Como é que foi isso?

JULIANA

-  A torre do Rio avisou nosso comandante... Um telefonema anônimo dizia que tinha uma bomba no avião. Aí pousamos de emergência em Vitória. Revistaram tudo de ponta a ponta... Não tinha nada...

ANDRÉ

-  Oh, amor... Você nem me contou...

JULIANA

-  Não queria te preocupar...

Riquinho fala, em pensamento, segurando os órgãos sexuais.

 

RIQUINHO

- Ela nem sabe a bomba que tá aqui esperando por ela...

André e Juliana continuam conversando, enquanto se dirigem à porta . Riquinho corre para esconder-se.

 

ANDRÉ

-  Você viaja amanhã  à tarde, não é?

JULIANA

-  É... E volto depois de amanhã... lá pelas sete da noite... Vai me  apanhar?

ANDRÉ

-  Só não vou se aparecer algum trabalho urgente, de última hora... Se eu não for você me liga assim que chegar, tá bom?

JULIANA

-  Ligo sim, pode deixar...

Chegam à porta. Beijam-se.

 

ANDRÉ

-  Vai ficar bem, aqui, sozinha?

JULIANA

-  Claro que vou... Que pergunta... Fica tranquilo, tá?

André sai e Juliana volta ao quarto, tira a roupa e veste uma camisola.  Riquinho aproxima-se dela pelas costas e tapa-lhe a boca. Com a outra mão encosta uma faca em sua garganta.

 

RIQUINHO

Se ficá bem quietinha vai viver pra contar... Se não...

Riquinho coloca a faca bem diante dos olhos de Juliana. Empurra a jovem para cima da cama e deita-se sobre ela. Juliana tenta reagir mas sente-se inerme nas mãos do marginal.

 

RIQUINHO

A lua de mel com o patricinho vai esperar... Primeiro a minha...

Juliana tenta reagir, mas Rico põe mais pressão na faca em sua garganta, estica o braço e liga o rádio na cabeceira da cama. A música que está tocando é super-brega. Riquinho sorri satisfeito e aumenta o volume.

OBS.  As cenas seguintes,  vão surgir na lembrança de Juliana  em outra seqüência, em flash back, sempre acompanhadas da música:

A  -  Faca na garganta de Juliana.

B -   Olhar malévolo e lascivo de Riquinho

C  -  A mão de Riquinho levantando a camisola de Juliana, percorrendo seu corpo, buscando as partes mais íntimas.

D  -  Desespero na expressão de Juliana, enquanto Riquinho  fala: - Huuum... que bundinha redonda... Aaai, gostosa...

E  -  Close de Riquinho sobre Juliana, observando-se os movimentos do ato sexual, ora maldosamente lentos, como quem degusta, ora violentos, agressivos...  e depois, caindo sobre ela, como um porco, no orgasmo.

 

 

Seqüência 21      QUARTO DE JULIANA       INT / NOITE

 

A cama está em desordem, a camisola, os travesseiros e lençóis jogados pelo ambiente. Juliana sentada na cama, enrolada num lençol. Expressão de quem está em estado de choque, apenas lágrimas descem dos olhos, silenciosamente. Uma lágrima (filmada em macro) rola pela face e cai...

 

 

Seqüência  22    APARTAMENTO DE JULIANA    INT / DIA

 

FUSÃO da cena anterior com uma gota (filmada em macro) caindo no copo com água. É Juliana preparando um remédio, que toma. Anabel observa, com ar preocupado. Juliana está se arrumando para um vôo.

 

 ANABEL

 -  Já te passou pela cabeça que esse mal estar pode ser gravidez? 

Juliana  para, rígida. Vira o rosto de vagar para Anabel, com ar assustado

 

JULIANA

-  Não diga isso, Anabel!!! ...Nem brincando!

Anabel está penalizada. A amiga não merece o que está acontecendo.

 

ANABEL

 

-  Quando foi tua  última menstruação?

JULIANA

-  Está atrasada... só uns dias... Mas ela sempre atrasa... Esse mal estar é só de fundo nervoso...

Também...depois do que aconteceu...   

Anabel fala com dó.

 

ANABEL

-  Oh, amiga, desculpa dizer, mas isso pode ser gravidez... Acho bom começar a encarar essa possibilidade

Juliana revolta-se.

 

JULIANA

-  Bota essa boca pra lá, Anabel... Por favor!

Juliana sentiu seu mundo estremecer quando sofreu a violência sexual. Aquela foi uma experiência altamente traumatizante. E agora lhe acena a possibilidade de estar grávida. Grávida de um estupro. Está a ponto de cair em desespero, mas procura controlar-se.

 

JULIANA

-  Aquilo foi horrível demais, Anabel. A gente vê noticiários a toda hora: fulana foi estuprada, violentada...

mas isso não nos toca, não é na nossa pele. Não é o nosso corpo tocado pelas mãos imundas de um canalha qualquer...  Não é a nossa intimidade que é rasgada pelo pênis nojento de um porco qualquer...

Juliana fica em silêncio.

 

ANABEL

-  Não quer me falar mais sobre isso?  Talvez alivie um pouco.

Juliana respira fundo. Movimenta-se. Fica algum tempo em silencio.

 

JULIANA

Eu me sinto invadida por alguma  coisa suja, asquerosa... É um esgoto correndo dentro de mim, desde os órgãos sexuais, passando pelo coração, até o cérebro...... 

 

 

Colocar inserts das imagens relacionadas com o texto.(seq. 20)

JULIANA     ( OFF )

-   E no fluxo desse esgoto o olhar malévolo do canalha... a faca na minha garganta, a mão correndo meu corpo, buscando as partes mais íntimas... aquela voz odiosa fazendo referências obscenas sobre meu corpo e, depois...

Depois aquela nojeira, aquela invasão interminável, abominável...

Os movimentos lentos, maldosamente lentos...  depois violentos, agressivos, jogando aquela imundície dentro do meu corpo, da minha alma...

Juliana pára um pouco. Anabel não sabe o que dizer. Juliana continua, com revolta e súplica no tom da voz. Lágrimas descem pelo rosto enqanto fala.

 

 

 

 

 

JULIANA

Não vê, Anabel, que eu preciso esquecer tudo isso?

Eu preciso varrer esse lixo da minha memória...

... lavar minha cabeça por dentro, meu coração, meu corpo... minha alma... Tudo...

Juliana segura nos ombros de Anabel, encarando-a .

 

JULIANA

-  ...Como é que eu posso esquecer isso, Anabel?...

  Me diga.

Anabel abraça a  amiga

 

ANABEL

-  Oh, amiga, não sei o que dizer.

Por que você não conta ao André?  Não confia nele?

JULIANA

-  Confio... claro que confio...

Juliana caminha um pouco, pensativa.

 

JULIANA

-  Não tenho coragem... Eu não quero poluir um amor tão bonito como o nosso...

Juliana fala num rompante, em ímpetos de revolta.

 

JULIANA

-  Será que o céu ou o inferno decretaram que neste mundo cão amores grandes e puros não podem mais existir?

Lágrimas descem pelo rosto de Juliana.

 

Insert  da seqüência 23

Geni, em sua casa, está na escuta, ouvindo a conversa. Sorrí de forma diabólica, com o sofrimento de Juliana.

 

 

 

 

JULIANA

-  Pra mim, só mesmo o tempo e o amor do André... seu carinho, sua pureza de alma vão poder limpar essa imundice do meu interior... 

Anabel fala suavemente

 

 

 

ANABEL

-  Mas você precisa encarar a possibilidade de gravidez...

   .... Pode ser filho do André, não pode?

 

 

 

Insert da seqüência 23 

Expressão de Geni desagradavelmente surpreendida, ao tomar conhecimento da possivel gravidez de Juliana

 

Juliana suspira, desalentada.

 

JULIANA

-  O pior é que não pode. Nós resolvemos não fazer sexo antes do casamento.

Anabel surpreende-se. Aproveita a deixa para  fazer o ambiente mais leve. Fala, meio risonha...

 

ANABEL

-  Não acredito!  Isso parece coisa do século passado...

Juliana relaxa um pouco. Pensar em André é para ela uma terapia.

 

JULIANA

-  Pode rir, se quiser...

Anabel está impressionada

 

ANABEL

Quer dizer que teu casamento não vai ter sexo...?

Juliana ri, mesmo a contragosto.

 

JULIANA

-  Que é isso, Anabel? Claro que vai ter... imagina!

Isso é só agora...

Queremos fortalecer o afeto... o companheirismo, entende?

Anabel pensa um pouco

 

ANABEL

-  É...   É uma idéia estranha, mas bem interessante...

Juliana fica pensativa

 

ANABEL

-  Mas eu ainda acho que você devia contar a ele.

 

JULIANA

Não, Anabel. Eu não quero que ele sofra... Basta o que eu estou sofrendo...

Juliana sente que precisa reagir. Levanta a cabeça, como a desafiar o mundo.

 

JULIANA

-  Aliás, eu vou parar de sofrer... vou esquecer tudo isso...  Foi só um pesadelo, entendeu?...

Juliana apanha um pacote de absorventes e coloca na maleta, com gesto intencional.

 

JULIANA

-  Eu vou menstruar de hoje pra amanhã... e tudo isso vai se apagar da minha memória... Você vai ver, Anabel...

Você vai ver!!!

Anabel fica feliz com a reação positiva da amiga.

 

ANABEL

-  É assim que se fala, Juliana.

 

Vai pra onde?                                                                                                                 

JULIANA

-  É um vôo fretado. Buenos Aires e Bariloche.

ANABEL

-  Quantos dias?

JULIANA

-  Uns 5  ou  6.

ANABEL

-  Boa viagem...

Estou torcendo por você.

JULIANA

-  Obrigada, Anabel... Eu vou voltar livre desse problema... você vai ver

Juliana faz expressão de torcida firme e confiante.

 

Seqüência  23         QUARTO DA GENI         INT / DIA  

 

Geni está sozinha em casa. Está ouvindo a gravação da escuta

 

Voz da Anabel, na gravação.

ANABEL - ( OFF )

-  Mas você precisa encarar a possibilidade de gravidez...

   .... Pode ser filho do André, não pode?

 Geni está furiosa. Arranca a fita do gravador e atira no chão, pisa em cima, chuta, está descontrolada.

 

GENI

-  Ah, desgraçada... Teve que engravidar, essa vaca!

Apanha de novo a fita, bate com ela na parede ou num móvel.  Aos poucos acalma-se.

 

GENI   ( OFF )

-  Deve ser só atrazo mesmo... ia ser azar demais. De qualquer forma Riquinho não pode saber.

Coloca a fita na lixeira, escondendo-a embaixo de outras coisas. Faz um gesto de quem limpa as mãos com nojo e vai buscar outra fita que coloca no DEC.

 

Seqüência 24   -    APARTAMENTO DE  JULIANA      INT / DIA

 

Anabel está na cozinha preparando algo. Ouve Juliana entrando e indo para o quarto. Está preocupada com a amiga. Terá menstruado? Vai até lá. Juliana está desfazendo a mala. Apanha o absorvente com ar expressivo e guarda na gaveta. Anabel entende. Fala com dó.

 

ANABEL

-  Oh, Juliana... E agora?

Juliana dá de ombros, com ar desanimado.

 

JULIANA

-  Eu não sei...

As duas conversam enquanto Juliana troca de roupa.

 

ANABEL

-  Por que não toma um desses remédios... ?

JULIANA

-  Já tomei, mas... nada...

ANABEL

-  Sabe que  num caso como o seu, uma gravidez  que resultou de estupro, a lei permite aborto.

JULIANA

-  É...  acho que sim...  Preciso ver isso... Eu vou falar com... com quem?... um advogado?

ANABEL

-  Eu conheço um...

JULIANA

-  Ce vai comigo?

ANABEL

- Claro...

Quer ir agora?

JULIANA

-  ... É...  acho melhor ir logo...

ANABEL

-  A gente aproveita pra comprar um daqueles exames de gravidez...

JULIANA

-  Não é preciso... Eu sei que estou grávida.

ANABEL

-  De qualquer forma, vou comprar. Você faz se quiser...

 

 

 

Seqüência   25     QUARTO DA GENI        INT / DIA

 

Riquinho e Geni entram em casa. Geni não quer que Rico ouça a gravação da escuta telefônica. Nela pode haver referências à gravidez de Juliana, mas Riquinho vai direto para o gravador. Geni liga o som, tentando distrai-lo. Fala, dengosa.

 

GENI

Riquim, meu gato... venha cá, vem...

Riquinho não lhe dá atenção e continua mexendo no gravador.

Gavação audio

ANABEL

-  Por que não toma um desses remédios... ?

JULIANA

-  Já tomei, mas... nada...

ANABEL

-  Sabe que  num caso como o seu, uma gravidez  que resultou de um estupro, a lei permite fazer aborto.

Riquinho vira-se para Geni com ar de espanto.

 

RIQUINHO

-  Gravidez?... Ai, vai?

Viu essa, Geni?  Tua amiguinha tá grávida.

Geni não queria que Rico soubesse. Mas, já que não conseguiu evitar, dá uma de interessada e vai ouvir o resto da gravação, que continua rolando.

Gravação audio

-  É...  acho que sim...  Preciso ver isso... Eu vou falar com... com quem?... um advogado?

ANABEL

-  Eu conheço um...

JULIANA

-  Vai comigo?

ANABEL

- Claro...

Vamos agora?

JULIANA

-  ... É...  acho melhor ir logo...

 

ANABEL

-  A gente aproveita pra comprar um daqueles exames de gravidez...

JULIANA

-  Não é preciso... Eu sei que estou grávida.

ANABEL

-  De qualquer forma, vou comprar. Você faz se quiser...

Riquinho desliga o dec com ares de grande conquistador.

 

RIQUINHO

-  Quer dizer que ela engravidou...

O papai aqui é mesmo competente.

Geni está enciumada. Tem medo de que o tiro saia pela culatra.

 

GENI

-  É...Foi muito azar...

Geni não quer deixar Rico perceber sua aflição. Dá de ombros.

 

GENI

... Ela vai tirar mesmo...

Riquinho tem horror à idéia de aborto. Quando criança assitiu escondido a um aborto clandestino feito pela

mãe (aborteira).

 

RIQUINHO

-  Tirar? ...Ah, não! ... não vou deixar... Isso, não!

Geni está furiosa, mas controla-se. Conhece outros meior para deter Rico.

 

 

 

GENI

-  Ah, é bem fácil de impedir...  Ce vai na polícia, diz que estuprou a moça e que ela está querendo fazer aborto...

Riquinho olha com raiva para Geni, mas percebe que ela está com razão. Sai pelo quarto chutando o que encontra pela frente. Geni sorri com ar vencedor.

 

Seqüência  26         APARTAMENTO DE JULIANA      INT /  DIA

Juliana e Anabel acabaram de voltar da ida ao advogado. Estão no quarto de Juliana. Anabel entrega a ela o kit para exame de gravidez

 

ANABEL

-  Não quer aproveitar e fazer logo esse exame?

Juliana olha o kit com desgosto e o atira numa gaveta da cômoda.

 

JULIANA

-  Não...  Quero, não...

Anabel dá de ombros. Juliana troca a roupa por outra caseira, enquanto conversam.

 

ANABEL

 -  Quem podia imaginar uma coisa dessas, hein? Não deu queixa na Polícia... não fez exame no IML...Por isso a lei não vai permitir o aborto...

JULIANA

-  Mas, isso está certo, Anabel... Se não fosse assim, bastava qualquer mulher afirmar que foi estuprada e  conseguir autorização...

Anabel pensa um pouco.

 

ANABEL

- Você pode fazer um aborto clandestino... Tem nada de mais.

JULIANA

Já pensei nisso... mas tudo isso é horrível...

Juliana desespera-se.

 

...Ah, meu Deus!... Eu preciso resolver esse problema... Tenho que dar um jeito!

Isso parece castigo, Anabel... Mas, castigo de quê?... Que foi que eu fiz?

Eu sempre tentei ser uma pessoa íntegra... Sempre que posso, ajudo a quem precisa. Por que Deus tem que me castigar dessa forma?...

É a minha vida que está em jogo, Anabel... meu casamento... minha profissão...  tudo...  Isso não é justo!

Anabel fica penalizada. Procura uma fita ou cd de música suave e o coloca no aparelho, enquanto fala.

 

ANABEL

- Vê se relaxa um pouco... Deita e faz umas respirações profundas.

Esqueça tudo isso, por hoje, tá ? Fique só ouvindo a música... não pense em nada... procure relaxar...

Pode deixar que eu faço a janta...

JULIANA

-  Obrigada, amiga. Você tem sido mais que irmã pra mim...

ANABEL

-  Bobagem...

Anabel sai e Juliana deita-se de barriga para cima, estira os braços e as pernas, procurando relaxar. Começa em seguida um exercício respiratório, respirando profunda e pausadamente.

Câmera mostra um relógio de parede  cujo tic-tac acompanha o balanço do pêndulo. No audio, a música suave, a respiração de Juliana e o tic-tac do relógio. A expressão de Juliana fica mais serena, mostrando que ela está relaxada. A música vai dando lugar a outra mais lamentosa e dramática, enquanto a cena vai se fundindo com outra em que Juliana, cabelo e roupa à moda dos anos 60, está deitada numa mesa, dentro de um quartinho muito rústico, perdendo sangue, após um aborto clandestino. Tudo é silêncio, menos o som lamentoso da música em BG e o tic-tac do relógio, que vai-se fundindo com o ruído do gotejar do sangue caindo numa bacia em baixo da improvisada mesa de operações. O som do gotejar vai aumentando de volume, como se tomasse conta de todo o corpo da jovem. Ela abre os olhos mas as imagens desfocam. O mundo exterior vai desaparecendo, ficando só a consciência lúcida, ouvindo o gotejar do sangue que se mistura às intermitentes pulsações do coração. A jovem fala, em pensamento.

 

 

JULIANA II  (EM OFF)

-  Que frio, meu Deus...

-  Acho que estou morrendo...

O coração já está falhando...

Quanto tempo será que eu ainda tenho de vida?

O coração dá umas batidas fortes e pára. Juliana II começa a contar lentamente, um a cada segundo.

 

JULIANA II  (EM OFF)

-  Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze..... quinze..... dezesseis... dezes... sete.....  dez...oito....  deze...nove  Vin..... te...

Enquanto ela conta câmera mostra que o sangue parou de pingar. A contagem está cada vez mais lenta, emperrada, e, aos poucos tudo vai ficando em silêncio. (Na edição, colocar uma espécie de redemoinho escuro, ou, se possível, Juliana II caindo num poço escuro, sem fundo).

Juliana consegue sair desse estado de transe e dá um grito de horror. Senta na beira da cama, com os olhos arregalados. Está apavorada. Anabel chega correndo, assustada.

 

ANABEL

Que foi, Juliana?... que aconteceu?

Aos poucos Juliana vai-se recuperando.

 

JULIANA

-  Que coisa horrível, meu Deus!

ANABEL

-  Que foi que houve?

Juliana fica olhando Anabel alguns instantes.

 

JULIANA

-  Acho que eu morri.

Anabel faz expressão espantada. Tenta dizer alguma coisa e não encontra o que dizer. Por fim, fala.

 

ANABEL

-  Fique calma, amiga... Você está estressada.

JULIANA

-  Não! Não é nada de stress. Era eu mesma... Eu estava diferente... eu era uma outra pessoa... mas era eu...

E eu morri.

Anabel está achando que a amiga perdeu o juizo. Fala, em tom conciliatório.

 

ANABEL

-  Fique calma, tá? Eu vou arrumar um calmante...

Juliana dá de ombros, acha melhor não insistir. Ela também não sabe explicar o que aconteceu.

Seqüência     27   -     QUARTO DA GENI       INT / DIA ( também pode ser noite)

Geni e Riquinho estão no quarto desta.

 

GENI

-  E ai? ... Já decidiu sobre a viagem? É bom resolver logo, porque senão eu vou cuidar de arrumar um emprego...

RIQUINHO

-  O que tá pegando é a grana... tou sem um puto.

Geni continua com fortes desejos de vingança. Acha que chegou a oportunidade. Faz-se insinuante.

 

GENI

- O André tem um cofre lá na Produtora... e eu...

Geni apanha um chaveiro na bolsa

 

GENI

- ... tenho uma cópia da chave...

Que tal?... hann?

RIQUINHO

-  Tu é mesmo um cão de mulher...

 

 

Seqüência  26    -     APARTAMENTO DE JULIANA    INT / DIA

 

Anabel está em casa, varrendo o apartamento. Juliana chega de mais um vôo.

 

JULIANA

  -  Até que enfim...  estou de férias...

ANABEL

Conseguiu?... que bom!

Juliana vai até o quarto, seguida de Anabel. Joga valise e bolsa sobre algum móvel. Respira fundo, espreguiça...

 

JULIANA

- Estou mesmo precisando descansar um pouco.

Anabel olha fixamente para a amiga.

 

ANABEL

E a gavidez?... já resolveu?

Juliana olha para Anabel, faz uma expressão indefinível e não responde.

 

ANABEL

Desculpa, amiga. Eu não quero te pressionar, mas o tempo está passando e você precisa resolver esse problema...

Juliana fica pensativa. Depois de instantes Anabel volta à carga.

 

ANABEL

- Não esqueça que está grávida de um estupro... Pense bem nisso. O pai disso ai, é um marginal...

Acabar com essa gravidez é até uma obrigação... Já pensou no código genético dessa criança? Pode ser um futuro bandido... um estuprador, como o pai... Se fosse você resolvia isso amanhã mesmo.

Juliana anda um pouco pelo quarto. Vai até a janela.

 

JULIANA

  -   Talvez você tenha razão... Pôr no mundo uma criatura de sangue ruim... e o que é pior, feita de uma forma horrível como aquela...

 (SUSPIRA)

É...  acho que vou mesmo fazer ... isso.

ANABEL

-  Ótimo. Só assim você se livra desse problema... vai poder recomeçar a vida, porque, olha, depois do acontecido, você estacionou...

 

JULIANA

 -   Estacionei, sim, Anabel... no Inferno.

Mas eu quero sair disso...

Eu tenho que sair disso...

Você conhece algum médico de confiança?

ANABEL -  Não... Mas a Nairzinha conhece... Eu peguei o endereço com ela.

Anabel tira o papel com o endereço da bolsa e estende para Juliana. Esta fica olhando, sem coragem de pegar. Finalmente estende a mão, apanha o papel e devolve...

 

JULIANA

Me faz outro favor?

Marca pra mim, tá?

Anabel sorri dos escrúpulos da amiga.

 

ANABEL

-  Tá bom, Juliana. Eu vou marcar  pra amanhã.

JULIANA

Obrigada, amiga...

Eu vou ver André.

Juliana vai ao guarda-roupa pegar uma roupa para trocar.

 

JULIANA

  -   Talvez você tenha razão... Pôr no mundo uma criatura de sangue ruim... e o que é pior, feita de uma forma horrível como aquela...

 (SUSPIRA)

É...  acho que vou mesmo fazer ... isso.

ANABEL

-  Ótimo. Só assim você se livra desse problema... vai poder recomeçar a vida, porque, olha, depois do acontecido, você estacionou...

 

JULIANA

 -   Estacionei, sim, Anabel... no Inferno.

Mas eu quero sair disso...

Eu tenho que sair disso...

Você conhece algum médico de confiança?

ANABEL -  Não... Mas a Nairzinha conhece... Eu peguei o endereço com ela.

Anabel tira o papel com o endereço da bolsa e estende para Juliana. Esta fica olhando, sem coragem de pegar. Finalmente estende a mão, apanha o papel e devolve...

 

JULIANA

Me faz outro favor?

Marca pra mim, tá?

Anabel sorri dos escrúpulos da amiga.

 

ANABEL

-  Tá bom, Juliana. Eu vou marcar  pra amanhã.

JULIANA

Obrigada, amiga...

Eu vou ver André.

Juliana vai ao guarda-roupa pegar uma roupa para trocar.

 

Seqüência  29   -      PRODUTORA DO ANDRÉ   -   INT / DIA

 

André está trabalhando na ilha de edição. A porta se abre e entra Juliana. André, feliz com a surpresa, levanta e vai ao seu encontro. Juliana aninha-se em seus braços.

 

ANDRÉ

-Oh, amor!... que surpresa boa.

JULIANA

- Ai, que saudade... Tava doida pra me esconder assim... no teu abraço.

Beijam-se... acarinham-se.

 

ANDRÉ

-  Oh, gatinha... não sabe como a minha vida anda vazia

Juliana, meio gaiata.

 

JULIANA

-  Pois agora vai ficar cheinha. Estou de férias

ANDRÉ

-  É mesmo?... ah, que ótimo...

...Tá vendo? São as ondas, os ventos e as estrelas que estão nos protegendo.

Juliana se aconchega nos braços de André

 

JULIANA

-  Estava com tanta saudade...

ANDRÉ

 -   Pois eu tenho um remédio tiro e queda pra essa doenç[LP2] a.

JULIANA

- Qual é?

ANDRÉ

 -  Marcar o casamento... pra logo...

Que acha?

JULIANA

-  Pra logo?... Daqui a uns... dois meses...?

ANDRÉ

Dois meses... Tá bom... Aliás, eu fiquei de ver um apartamento hoje...  fase final de construção. Podemos ir juntos.

JULIANA

-  Ótimo...

Juliana olha em torno.

 

 

JULIANA

- E o trabalho?

ANDRÉ

-  Vai bem. Tirei o dia pra terminar aquele documentário sobre fecundação, de que te falei...

Quer ver?

Juliana leva um susto, mas não quer deixar André perceber. André mexe no controlador e no monitor aparecem imagens da fertilização. André não percebe as reações de Juliana.

 

ANDRÉ

-  Olha só...

André tira a imagem com ar brincalhão...  no fim da fala faz um gesto que indica estar impotente.

 

ANDRÉ

-  Mas não vou te mostrar, senão você vai querer engravidar logo hoje... e hoje, ôo... 

Juliana sente um baque. Está grávida de outro, embora vítima. Disfarça seus sentimentos e olha em volta, procurando rir da brincadeira de André.

 

JULIANA

-  André...pode entrar alguém... o que vão pensar de nós? 

ANDRÉ

-  Só a verdade... que estamos apaixonados...

Beijam-se, carinhosamente no rosto, nas mãos. Juliana começa a questionar se não está errada ao esconder o fato de André. André abre de novo a imagem. Na tela aparece uma fotografia superampliada do ôvo e dos espermatozóides correndo em sua direção.

 

ANDRÉ

-  São mais de 200 milhões de espermatozóides disputando corrida... Quem chega primeiro penetra no ôvo e, então, esses dois elementos juntos começam a formar uma pessoa.

Juliana decide. Vai contar. Olha de esguelha o próprio ventre. Suspira.

 

JULIANA

- André...

André não percebe. Vira-se para Juliana e coloca as mãos em sua barriga, num gesto carinhoso.

 

 

ANDRÉ

-  Uma célula minha e outra tua... E ele vai crescendo... vai se desenvolvendo... e nasce com um rostinho lindo como o teu...

Juliana  perde a coragem de falar. André, empolgado, não percebe as reações dela. Na tela continua a sucessão de imagens sobre o crescimento do embrião. André enlaça Juliana pela cintura e continua falando.

 

ANDRÉ

-  Mas não é só o corpinho que vai crescendo. Sabia que ele percebe, tem sensações, tem emoções...?

Sabia que ele fica inquieto quando a mãe está nervosa e dorme quando a mãe descansa?

Quando se aborrece chupa o dedinho ou então fica dando voltas...

Para disfarçar, Juliana fala o que lhe vem à mente

 

JULIANA

E dizer que a maioria das mulheres não sabe destas coisas... Não controlam as emoções durante a gravidez...

André, sem suspeitar do que se passa no íntimo de Juliana, continua falando.

 

ANDRÉ

- Pois o nosso, quando estiver aqui... (TOCA-LHE A BARIGA) vamos bater um baita papo com ele... um papo de bons amigos...

André começa a desligar os aparelhos.

 

ANDRÉ

- Tem médico que aconselha os pais a conversarem com o feto, dizerem pra ele que o amam, e coisa parecida... Dizem que isso dá estabilidade emocional ao bebê... e que tem reflexos para toda a sua vida.

André continua arrumando a produtora para fecha-la enquanto conversam. Juliana olha de esguelha para ele. Não sabe o que dizer. André continua conversador...

 

ANDRÉ

- Falando nisso, é bom a gente pensar no assunto... Talvez fosse bom esperar um pouco pra ter o primeiro filho.

JULIANA

-  E como é que a gente vai fazer?  Pílula?

ANDRÉ

-  Pílula, camisinha... métodos naturais...tudo que tiver direito...

Menos aborto, é claro...

André faz pequena pausa, pensativo.

 

ANDRÉ

... Isso, nunca... em nenhuma circunstância.

 

 

Seqüência  30   -   APARTAMENTO DE JULIANA      INT  /  FIM DA TARDE

Flash Back da sequência 29

 

Juliana está saindo do banheiro, com o cabelo molhado, terminando de vestir uma roupa caseira. Anabel abre a porta do quarto, fala e sai em seguida..

 

ANABEL

Eu marquei pra amanhã... 9 horas.

Juliana estremece. Sua expressão é de desespero. Atira-se na cama ou poltrona. Raramente fuma, mas sente vontade de fazê-lo. Procura e encontra uma carteira.  Acende um. Ao expelir a fumaça e descer a cabeça, seus olhos caem sobre a própria barriga. Como quem sabe que o cigarro faz mal ao bebê, instintivamente o apaga. Reage, com raiva de si mesma, por perceber que está desenvolvendo sentimentos maternais com relação àquele filho do estupro. Levanta-se e dá um murro em alguma coisa.

 

 

JULIANA

-  Droga!

Anda um pouco. Para, pensativa, lembrando a conversa com André.

______________________________________________________________________________________

 

Flash Back  da sequência  29

 

 

 

JULIANA

E como é que a gente vai fazer?  Pílula?

ANDRÉ

-  Pílula, camisinha... tudo que tiver direito... menos aborto, é claro...

... Isso, nunca... em nenhuma circunstância

_____________________________________________________________________________________

 

Continua seqüência 30

 

Juliana reage de novo,  revoltada. Esconde a cabeça nas mãos, respira fundo e fica pensativa. Olha de novo a barriga. Põe a mão, anda pra lá e pra cá. De repente, tem uma idéia. Bota outra roupa, pega a bolsa e  sai.

 

 

 

Seqüência  31   -   IGREJA      INT  /  NOITE

 

Juliana entra numa igreja. Vai caminhando lentamente, olhando tudo, com ar respeitoso. Pára diante de uma imagem de nossa senhora. Como que impelida por seus conflitos, ajoelha-se.

 

 

 

 

 

JULIANA

-  Minha mãe do Céu... Mãezinha de todas as ...grávidas... Me ajuda... me orienta, me inspira... Eu não quero ir contra as leis de Deus... Nem sei o que elas dizem nos casos como o meu...

Juliana permanece alguns instantes em silêncio angustiado.

 

JULIANA

-  Conforta meu coração, mãezinha... me orienta, me ajuda a tomar uma decisão... me ajuda.

Juliana permanece ainda alguns instantes em súplica silenciosa. Levanta e vai em direção ao interior da igreja, a procura do padre.

 

 

Seqüência  32     -    APARTAMENTO DE JULIANA       INT /  NOITE

 

Juliana chega em casa. Anabel está se preparando para mais um vôo. A conversa rola enquanto ela se arruma. Anabel percebe que Juliana está para mudar de idéia.

 

ANABEL

-  Que é que tá pegando, hein?

JULIANA

-  Fui a uma igreja rezar... e falei com um padre... ANABEL

-  E aí?...

JULIANA

-  Ele disse que é pecado... que Deus castiga e aquelas coisas todas...

 

 

ANABEL

-  E você engoliu essas bobagens?....

Já pensou o que vai ser de você com um filho nas costas? Acha que o André, a essas alturas, vai acreditar que foi mesmo estupro?

E a profissão? Já viu uma aeromoça barriguda?

E tem mais... essa criança tem sangue ruim... é filho de estuprador... no mínimo, vai ser um tarado... 

Juliana sente-se um pouco irritada com a contínua intromissão da amiga, mas contém-se. Fala, com uma pontinha de raiva na voz.

 

JULIANA

-  Eu conheço famílias excelentes que tem filhos excelentes e, de repente, nasce um que não vale nada... E sei também de filhos de bandidos que são gente boa.

Anabel acha que a amiga está se deixando levar por tolos sentimentalismos, que irão fazê-la sofrer no futuro. Percebe também sua irritação e trata de jogar pesado, aproveitando a fragilidade de Juliana naquele momento. Fala com muita firmeza e até imposição.

 

 

 

 

 

 

ANABEL

  -  Não, Juliana. Eu sou sua amiga e não vou deixar você

fazer essa loucura... estragar sua vida...  Pôxa, nós já conversamos sobre isso...

Se fosse em condições normais, tudo bem... mas isso aí minha cara, é filho de um estupro, de uma violência... Isso ai, que você está com tanta peninha, é filho de um marginal cruel e asqueroso... e que vai ser igualzinho ao pai... pode ter certeza.

Já pensou?... você, pelo resto da vida, olhando seu filho e vendo nele aquele marginal te violentando?

Anabel muda  o tom da voz. Aproxima-se mais de Juliana e fala com uma ponta de carinho e pena, embora com firmeza.

 

 

 

ANABEL

-  Pense como vai ser a sua vida... Mesmo que o André aceite, esse filho vai ser sempre uma sombra negra entre vocês dois...

Juliana fica pensativa.

 

JULIANA

-  É... acho que você tem razão...

Não posso me deixar levar por sentimentalismos... Preciso usar só a cabeça...  só o bom senso...

Anabel aproveita a deixa para amarrar a decisão de Juliana.

 

ANABEL

-  Agora, sim, ce tá usando a cabeça.

Eu marquei pra amanhã, não esqueça... nove horas....

E vê se não tem mais nenhuma recaída, tá?...

Não estrague sua vida, Juliana. Você tem todo o direito e até mesmo o dever de se livrar desse problema.

JULIANA

-  Eu vou sim, Anabel... pode deixar... Amanhã, às nove.

 

 

 

 

 

Seqüência   33  -    APARTAMENTO DE JULIANA     INT / MANHÃ

Sequência  34  -   (Flash back)  Sonho de André

 

É de manhã. Juliana está acordada na cama, pensativa. Logo mais vai fazer o aborto... A campainha toca. Levanta-se, coloca um robe e vai atender. É André. Juliana fica alegremente surpreendida.

 

JULIANA

-  André?  Que bom te ver logo cedo...

ANDRÉ

-  Oi, menina...

André abraça Juliana  com misto de amor e preocupação. Juliana percebe seu estado de espírito.

 

JULIANA

-  Que foi, amor? ... Aconteceu alguma coisa?

ANDRÉ

-  Não, gatinha... Só estava com saudade...

 

Eu quero ficar aqui, hoje, com você.

Juliana sente-se confortada com a presença e o carinho de André. De certa forma sente-se aliviada porque tem uma desculpa para não fazer o aborto naquele dia.

 

 

 

JULIANA

-  E  o seu trabalho?...

ANDRÉ

- Tenho nada de importante, agora pela manhã.

Juliana respira fundo e relaxa. Está quase feliz. Sente como se lhe tivessem tirado um peso. Abraça André

 

JULIANA

-  Oh, amor... Tão bom voce estar aqui... Só nós dois no mundo... ou no céu, longe do mundo.

André abraça Juliana com ansiedade. Leva-a ao sofá. Deita-se e põe a cabeça no colo dela, enlaçando-a .

 

ANDRÉ

-  Eu quero ficar assim, quietinho... sentindo seu corpo, seu coração...

Juliana olha André com atenção e observa sua ansiedade

 

 

 

 

 

JULIANA

 -  Você está me escondendo alguma coisa, André... O que é?...

ANDRÉ

-  Nada não...  bobagem de homem apaixonado...

André corre os olhos pelo rosto de Juliana, com expressão carinhosa e preocupada ao mesmo tempo.

 

 

ANDRÉ

Foi só um pesadelo que eu tive... Aliás, já é a terceira vez..

JULIANA

-  Pesadelo? Que pesadelo?

ANDRÉ

-  É sempre a mesma coisa.

André faz expressão de quem está lembrando.

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(Flash Back)  seq. 34

 

ANDRÉ  ( OFF )

Nós dois estamos num lugar muito bonito... abraçadinhos, olhando o céu... Ai, surge um clarão... e aparece Nossa Senhora... linda... o olhar cheio de ternura... Ela tem uma flor na mão. Aquela flor é pra nós... Aí, ela solta a flor e ela vem caindo, caindo... e nós nos recusamos a apanhá-la.

 

____________________________________________________________________________________

 

Continua sequência  33

 

André fica em silêncio, por instantes. Juliana, um pouco preocupada.

 

JULIANA

-  E depois?

André levanta e caminha um pouco.

 

ANDRÉ

-  Aí vem uma tempestade...  uma nuvem escura envolve a flor... leva ela embora...

Aí eu me viro pra você... e você não está mais ali... Eu me vejo sozinho, numa espécie de pântano, muito escuro...  gritando, chamando por você... é um desespero horrível...

Juliana estremece. Acredita que o sonho de André está relacionado com sua gravidez. André aperta Juliana nos braços como a querer retê-la a qualquer custo.

 

-  Oh, amor... é uma sensação horrível... de perda irreparável... É uma angústia sem fim...

Eu não posso perder voce, Juliana... Eu te amo demais...

André e Juliana ficam longamente abraçados. Cada qual com sua angústia.

 

JULIANA

-  Nós não vamos nunca nos perder um do outro... eu prometo.

Juliana afasta André suavemente. Olha nos seus olhos.

 

JULIANA

-  Não pense mais nisso, tá bom? É só um sonho, um pesadelo...

André afasta-se um pouco

 

ANDRÉ

-  A impressão que eu tenho é que esses sonhos são um aviso... mas aviso de que?  Não consigo entender... não consigo...

Juliana está fortemente impressionada. Sente que precisa pensar melhor sobre a questão do aborto. Acha também que deve distrair André, tirá-lo daquele estado aflitivo.

 

JULIANA

-  Acho que a gente devia se distrair um pouco, levantar esse astral, confiar, ter fé... Um estado de espírito “pra cima” não tem sonho mau que pegue.

 

ANDRÉ

-  Acho que voce tem razão.

JULIANA

- Que tal a gente pegar uma praia?

ANDRÉ

-  Praia?... não... não estou a fim de praia hoje...

JULIANA

-  Então vamos dar uma volta pela praça... ver as árvores... ver gente... Isso é bom...

ANDRÉ

-  Está bom... Podemos ir...

JULIANA

-  É só o tempo de mudar de roupa.

Juliana entra no quarto para mudar de roupa, enquanto André fica na sala, esperando.

 

Sequência  34   -    (Flash Back)    SONHO DE ANDRÉ        EXT / DIA

 

André e Juliana estão num lugar muito bonito, em meio à natureza... Estão abraçados olhando o céu...  Surge um clarão e aparece Nossa Senhora... linda... o olhar cheio de ternura... Ela tem uma flor na mão. André e Juliana percebem que a flor é para eles. Nossa Senhora solta a flor e ela vem caindo, caindo... e André e Juliana recusam-se a apanhá-la. Em seguida vem um vento forte tipo tempestade e uma nuvem escura que envolve a flor e a leva embora. André vira-se para Juliana e ela não está mais ali. André está sozinho e em grande aflição, num lugar tipo pântano, chamando por Juliana.

 

 

 Sequência  35   -    NA PRAÇA    EXT/ MANHÃ

 

Juliana e André caminham pela praça, admirando as plantas, tocando nas folhas... Param junto a uma árvore. Juliana recosta-se a ela. André segura-lhe as mãos.

 

ANDRÉ

-  Sabe, amor. Eu sinto que precisamos confiar muito um no outro. Seja qual for a situação... Seja o que for...

Juliana estremece. Será que André está desconfiado de alguma coisa? Será melhor contar-lhe tudo? Resolve contar, dividir com ele o problema.

 

JULIANA

Amor...

ANDRÉ

Diga.

JULIANA

Eu... preciso te falar uma coisa.

Juliana olha em torno. Vê um banco e puxa André pela mão até lá e sentam-se nele. Juliana vai começar a falar, mas percebe que uma mulher vem se aproximando, empurrando um carrinho de bebê.

Flashes rápidos do pé da Geni batendo no chão e de seus olhos maldosos. Juliana fica como que hipnotizada, mas reage. A mulher aproxima-se e para junto ao banco. Juliana debruça-se para olhar o bebê.

 

JULIANA

 -  Olha André, que coisinha mais linda... tão fofinha...

Juliana olha de esguelha a propria barriga. Olha de novo para o bebe e a imagem dele faz fusão com a imagem de Riquinho estuprando - a  . Juliana grita,  descontrolada

 

JULIANA

-  Não!...     Não! 

André acode e a toma nos braços. Ela repele, horrorizada, olhando para ele com os olhos esbugalhados, como se estivesse vendo o Riquinho. Grita de novo

 

JULIANA

-  Não!... Não!...

 

ANDRÉ

-  Calma, Juliana. Sou eu, André. Voce está me estranhando, amor? Calma, gatinha... sou eu... calma...

Juliana acalma-se aos poucos e começa a chorar.

 

ANDRÉ

-  O que foi amor?   Que aconteceu?...

Aos poucos Juliana fica mais senhora de si.

 

JULIANA

-  Não sei o que aconteceu... Acho que fiquei nervosa por causa do teu sonho... Desculpa, tá?...

ANDRÉ  -  Não tem que se desculpar, amor... Eu é que não devia ter contado... Vamos esquecer esse lance, tá bom?... Não pense mais nisso...Vamos aproveitar o dia... assim, juntinhos...

Mal começam a cminhar, toca o celular de André. Ele atende, escuta um pouco e fala.

 

ANDRÉ

-  Está bem... eu vou... Daqui a uma hora.

André desliga o celular. Olha para Juliana, com expressão de quem diz: : “que jeito?”

 

ANDRÉ

-  É um VT urgente...

Será que voce vai ficar bem, sozinha?

JULIANA

-  Não se preocupe... Eu vou estar bem. Mas vamos aproveitar bem essa horinha que ainda temos juntos.

Os dois continuam a caminhar pela praça.

 

 

Seqüência   36   -    RESIDÊNCIA DA TELMA   INT / DIA

                   

Telma, que além de médica é artista plástica, está trabalhando em alguma peça. Chega Juliana.

 

TELMA

-  Mas que surpresa boa... Como vai, minha filha? 

Juliana não responde, apenas abraça a mãe. São muito amigas. Telma observa logo que a filha não está bem.

 

TELMA

- O que houve?

Juliana anda um pouco, examinando, sem ver, alguns dos trabalhos da mãe.

 

JULIANA

-  Mamãe, está acontecendo uma coisa muito estranha comigo... Estou com medo...

  TELMA

O que é, filha?

JULIANA

-  Eu só vou lhe contar porque voce estudou isso... Voce  lida com essas coisas... Não vai achar que estou ficando louca...

Telma faz uma expressão de quem está esperando que a filha fale. Juliana respira fundo.

 

JULIANA

-  Eu estava tentando relaxar... ouvindo a música e o tic-tac do relógio... Ai... as coisas começaram a se transformar... a se fundir... e eu era uma outra pessoa, numa outra época, em outro lugar...

... Eu estava deitada em cima de uma mesa... Eu sabia que tinha feito um aborto... Estava sangrando muito e ouvia o sangue gotejando, caindo numa vasilha...

Juliana fica alguns instantes calada... no rosto, uma expressão de horror. Telma está atenta mas serena, acostumada com esse tipo de coisas.

 

TELMA

-  E ai?... o que aconteceu?

JULIANA

Ai eu morri...

Juliana movimenta-se um pouco.

 

TELMA

-  Talvez um colega diria que é o teu inconsciente querendo matar o problema...

JULIANA

E voce, o que diz?

TELMA

-  Eu diria que foi uma regressão... um fato traumatizante que veio à tona.

JULIANA

-  Mas por que? Por que agora?

TELMA

-  Talvez porque os mesmos personagens estejam de novo reunidos... ou algumas circunstancias sejam semelhantes...

JULIANA

-  Quer dizer que eu posso ter morrido por causa de um aborto...?...

TELMA

-É bem provável...

Juliana fica pensativa. Olha para a mãe.

 

JULIANA

-  O pior é que estou pensando em fazer... de novo...

Telma fica olhando a filha com leve ar de reprovação.

 

JULIANA

-   Eu tenho esse direito, mãe. Eu sou a vítima... Duas vezes vítima. Primeiro, aquela coisa horrível que eu sofri... E agora, essa gravidez...

TELMA

-  Você sabe exatamente como acontece um aborto?

Juliana faz não com a cabeça.

 

TELMA

-  Existem várias formas...

Há um filme  “O Grito Silencioso”... É  um documentário de um médico americano, o Dr. Nathanson. Ele foi um dos maiores aborteiros dos Estados Unidos. Na clínica que ele dirigia faziam 120 por dia. Um dia ele assistiu a um aborto num monitor de ultra-som... E a partir daí passou a combate-lo por todas as formas e meios... Foi por isso que ele fez esse filme.

A expressão de Juliana é de aflição.

 

JULIANA

-  Eu não quero saber disso, mãe...

Telma está com muita pena da filha, mas acha que precisa falar e fá-lo com carinho, embora com firmeza.

 

 

TELMA

-  Mas precisa, filhinha... Se, depois de tudo, você ainda pensa em interromper essa gravidez, pelo menos saiba o que está fazendo...

JULIANA

-  Pelo amor de Deus, mãe... eu já estou sofrendo demais!

TELMA

-Filha... é melhor sofrer agora do que se arrepender depois.

Juliana suspira,  concordando.

 

JULIANA

-  Está bem...

Telma olha ao longe, como se estivesse vendo o terrível filme. Fala pausadamente.

 

 

 

Inserts da expressão de Juliana, da mão que coloca sobre o ventre num instintivo gesto de proteção...

TELMA

-  Primeiro, o feto aparece tranqüilo,  com movimentos calmos e chupando o dedinho de vez em quando. Mas quando é introduzido no útero o instrumento para furar a bolsa, tudo muda. Nenhum instrumento ainda tocou nele, mas ele já pressente o perigo... O coração passa a bater acelerado e ele faz movimentos nervosos.  Quando o aborteiro fura a bolsa e introduz a ponta do instrumento de aspiração, o feto passa a mudar de lugar, num ritmo enlouquecido, para os lados e para cima, tentando desesperadamente escapar ao perigo. O coração bate cada vez mais acelerado. E quando o bocal de sucção se aproxima dele, ele encolhe tanto quanto pode o corpinho até a parte superior do útero e sua boca se abre desmedidamente, num desesperado grito sem som... Por isso o nome do filme:    “O Grito Silencioso”.

Expressão de horror no rosto de Juliana.

 

 

TELMA

-  Em seguida, o aparelho começa a suga-lo, arrancando pedaços.

 

Primeiro os pezinhos, as pernas, os braços, o corpo... Só não a cabeça, que não cabe no tubo do aspirador. Aí o medico introduz uma tenaz e esmaga a cabeça, para poder aspira-la...

Juliana fala, quase aos gritos.

 

JULIANA

-  Chega, mãe, pelo amor de Deus!  Isto é horrível demais

TELMA

- É tão horrível que se as mulheres soubessem, cuidariam de evitar uma gravidez indesejada...

JULIANA

-  Não no meu caso, não é, mãe?

 

TELMA

-  Mesmo no teu caso, Juliana. O grande problema é a falta de informação. Veja, voce, uma garota culta, mas não sabe sobre a pílula do dia seguinte.

JULIANA

-  A pílula do dia seguinte?

TELMA

Se voce tivesse ido à polícia, logo em seguida à ocorrência, teriam lhe dado a pílula do dia seguinte, que teria evitado essa gravidez.

Expressão facial de Juliana. Expressão da Telma.

 

 

Seqüência  37    -    PRODUTORA DO ANDRÉ    INT / NOITE

 

André está trabalhando numa edição. Camera mostra o relógio de parede, indicando perto de meia-noite. Demonstra estar cansado. Desliga os aparelhos, pega as chaves do carro e olha com desânimo para elas. Joga as chaves no mesmo lugar e ajeita-se para dormir num sofá, num canto da sala. Apaga a luz. Está quase pegando no sono, quando ouve ruídos leves. Levanta e vai escutar. Percebe que se trata de ladrões. Apanha uma arma e fica sentado no sofá, com a arma na mão. Espera calmamente os ladrões abrirem a porta e entrarem. Entram dois vultos com uma lanterna.

 

GENI

-  É por aqui...

André reconhece a voz de Geni. Esta encaminha-se para o interruptor e acende a luz. Percorre a sala com os olhos e depara com André, de arma apontada para ela e Rico, seu companheiro. Assusta-se e tenta disfarçar.

 

GENI

-  André...

Eu... eu tava querendo mostrar o estúdio pra o meu amigo.

ANDRÉ

-  Pois já mostrou. Agora, de cara no chão... os dois!

GENI

-  Mas André... o que é isso?  Sou eu, a Geni...

André perde a paciencia. Está raivoso. Firma a arma na direção dos dois. Grita.

 

ANDRÉ

- De cara no chão, já disse! Se eu matar os dois aqui, nenhum juiz vai me condenar... Anda!

Os dois entendem que André não está brincando e deitam-se de cara no chão. André pega o telefone. Geni resolve apelar.

 

GENI

- Voce devia é tomar conta melhor da sua noiva, em vez de tá se ocupando com a gente...

André estremece, com a referência feita a Juliana.

 

ANDRÉ

-  Que é que ce está querendo dizer?

GENI

-  Pergunta ao Riquinho, aqui...  ele pode contar... Num é Riquim?

André fica furioso.  Aquela miserável está insinuando o quê? ...

 

ANDRÉ

-  Olha, aqui, sua cadela. Não toca no nome dela, senão eu sou capaz ...

Riquinho entende a jogada da Geni.

 

RIQUINHO

-  Ô aqui, ô cara. Se ocê apagar a gente a polícia vai saber que eu dormi com a tua noiva... Vai achar que é vingança...

André está a ponto de perder a cabeça. Rico joga com tudo, falando com segurança e ar canalha.

 

RIQUINHO

Sabe, colega, eu me amarrei naquele sinalzinho que ela tem bem pertinho do bico do seio. Não sabe como aquela maçãzinha me excita... Eu ainda vou fazer sexo com ela a dez mil metros de altura... Ela prometeu, sabia?

André fica petrificado. Geni está exultante. Chegou finalmente o momento de vingar-se dele. Fala com ironia.

 

GENI

-  Ah, André, já ia me esquecendo. Parabéns pelo filho... mesmo que não seja teu.

RIQUINHO

-  Se preocupe, não, André. Se ocê não quizer a criança, eu assumo, tá?

André levanta a arma e engatilha. Sua expressão é de terrível ódio. Seria impossivel aquele marginal saber sobre o sinal no seio de Juliana, a não ser que o tivesse visto, e o miserável falou com toda segurança. Rico e Geni, silenciosos, acompanham as expressões de André. Sua formação não é a de um assassino. Aos poucos abaixa a arma e faz sinal com ela para saírem.

 

ANDRÉ

-  Saiam!

Depressa!... antes que me arrependa.

André está sob extrema tensão. Sua voz parece mais um rugido.

 

ANDRÉ

-  Saiam!

Geni e Rico levantam-se apressadamente e saem correndo. André fica só. Parece-lhe que o mundo desabou, seus sonhos viraram pesadelo cruel.

 

ANDRÉ   (OFF)

-  Não pode ser...

Juliana não faria isso!

Ela pode ter tido um caso com ele no passado... é isso.  Só pode ser isso.

André  caminha pra lá e pra cá. Não é muito chegado a bebida, mas lembra que tem alguma guardada num móvel qualquer. Sente necessidade de se acalmar. Talvez a bebida ajude. Apanha a garrafa e bebe uns goles.

 

ANDRÉ       (OFF)

-  Geni falou em gravidez... Isso é mentira daquela infame.

André dá um murro em algo.

 

ANDRÉ

-  Preciso tirar isso a limpo.

Apanha as chaves do carro e se dirige para a porta. Pára.

 

ANDRÉ

-  Não. Agora, não... preciso me acalmar...

André senta no chão, encostado à parede. Põe o rosto entre as mãos. Seu corpo estremece com os soluços.

 

ANDRÉ

-  Por que, Juliana? Por que?

Acalma-se aos poucos. Levanta a cabeça.

 

ANDRÉ   (OFF)

-  Eu pedi tanto a ela pra confiar em mim... e agora sou eu que estou desconfiando dela...

 ... A Juliana é íntegra. Ela não faria isso...

Claro. Deve ser uma trama muito bem urdida... Isso é coisa da Geni...

Levanta e vai até o sofá. Senta.

 

ANDRÉ   ( OFF )

- Eu não vou dar atenção a esses desgraçados... Não vou dar esse gosto a eles...

Quando amanhecer, vou falar com Juliana... Ela vai esclarecer tudo...

 

 

Seqüência  38        APARTAMENTO DA JULIANA     INT /  DIA

Sequência 39  -  Flash Back

 

Juliana acaba de acordar. Está decidida a não fazer o aborto, disposta a arrostar quaisquer consequências. Olha o retrato de André, sobre a mesinha de cabeceira. Sentada, recostada  na cabeceira da cama, apanha o retrato e aperta contra o peito, com o olhar vago voltado para o teto.

Camera vai descendo para trás e abaixo de Juliana, enquanto corrige para o teto, de tal forma que ao mostra-la pelas costas vai tirando-a de quadro, mostrando só o branco do teto, onde surgem as imagens da próxima sequencia.

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Sequência  39   (FLASH BACK)  -   QUARTO DA CORTESÃ JULIANA      INT/ DIA OU NOITE

 

O ambiente mostra que Juliana é uma prostituta de alta classe. Está na cama, muito doente. Uma aia, com expressão aflita, tenta amenizar sua ansiedade.

 

AIA

-  Tem paciencia, madame. O conde foi chamado. Deve estar a caminho.

Ouve-se ruído de uma caruagem chegando. Juliana preocupa-se com a aparência.

 

JULIANA

-  Como estou?

AIA

Madame está ótima. Parece até mais jovem.

André aparece na porta do quarto. A aia sai discretamente. Juliana tem nos olhos uma expressão de imenso amor e saudade. André, de arrependimento e desespero. Ficam alguns instantes olhando um para o outro em silencio. Juliana estende as mãos. André segura-as e desaba aos pés da cama, chorando desesperadamente. Juliana também chora, mas tenta acalma-lo.

 

JULIANA

-  Meu amor... meu grande amor... Não há mais tempo para lágrimas...

Eu estou morrendo... Só por isso mandei te chamar...

Por favor... Quero levar a lembrança do teu sorriso...

André consegue a muito custo estancar as lágrimas e pede, numa voz embargada de emoção.

 

ANDRÉ

-  Perdoa, meu amor... perdoa... 

Eu fui um covarde... covarde!

JULIANA 

Não fala assim... eu já te perdoei há muito...

ANDRE

Eu destrui a minha vida e a tua...

Juliana olha longamente para André.

 

JULIANA

-  E eu... pra me vingar...  transformei-me numa prostituta...

Juliana apanha um pequeno estojo sobre a mesinha de cabeceira, abre e retira um anel.

 

JULIANA

-  Lembra?

André apanha o anel, fecha-o nas mãos, num gesto de ternura e encosta-o no peito, sobre o coração.

 

ANDRÉ

-  Como poderia esquecer?

JULIANA

Voce o colocou no meu dedo e disse:

Este anel vai representar a nossa união. É um círculo de ouro em torno de nós dois, unindo nossos corações.

André enterra o rosto no colo de Juliana, soluçando. Controla-se aos poucos. Segura-lhe a mão e com a outra alisa seus cabelos, rosto...

 

ANDRE

Eu quero que voce viva, querida... Não se vá...

Juliana fala com dificuldade.

 

JULIANA

-  É tarde, meu amor...

Nós dois erramos muito... muito... Mas um dia... daqui a séculos, talvez... vamos nos encontrar...

Juliana segura-lhe as mãos com força. André pergunta, com angústia

 

ANDRE

Quando?... onde?  

- JULIANA

-  Não sei quando... nem onde... mas eu prometo... vou estar a tua espera...

André fala com desespero.

 

ANDRE

-  E eu vou te procurar, querida... nem que seja no fim do mundo... Eu vou te encontrar... e vamos ficar juntos... juntos...

Juliana está morrendo. Faz um soberano esforço para falar.

 

JULIANA

-  Um dia... um dia...

 

Câmera mostra em plano detalhe as mãos dos dois entrelaçadas. Uma lágrima cai sobre o dorso da mão de Juliana.

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Continua sequência  38

 

Juliana em sua cama, faz esforço para sair daquele estado. Aos poucos vai conseguindo gemer, mover lentamente as mãos, o corpo... Com muito esforço senta na beira da cama.

 

JULIANA    (OFF)

-  Meu Deus!...

Eu preciso contar isso pro André...

Também preciso falar sobre a gravidez... a violência que sofri...

Fecha os olhos e respira fundo algumas vezes, procurando acalmar-se.

 

JULIANA

-  Será que ele vai entender?

Toque da campainha.

 

JULIANA 

Quem será a essa hora?

 Juliana levanta, veste um roupão e vai abrir a porta. Surpreende-se com a presença de André.

 

JULIANA

-  Oi, amor. Que surpresa boa... Estava justamente pensando em voce...

Abraçam-se. André observa Juliana... percebe que ela está um pouco estranha. À sua mente voltam as palavras de Riquinho.

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Flash Back – seq  37

 

RIQUINHO

Sabe, colega, eu me amarrei naquele sinalzinho que ela tem bem pertinho do bico do seio. Não sabe como aquela maçãzinha me excita...

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Continua sequência 38

 

 

 

ANDRÉ

- Eu preciso falar com você, Juliana...

JULIANA

Eu também, Amor, estou precisando falar com você...

Vamos pro meu quarto.

No quarto, Juliana acomoda-se sobre a cama ou numa poltrona. André encosta-se na cômoda, que está com a gaveta entreaberta. A mesma gaveta onde Juliana colocara o teste de gravidez, que não quis fazer. O teste aparece pela abertura da gaveta.

 

ANDRÉ

-  Lembra aquela conversa que tivemos... sobre confiarmos um no outro?

 

JULIANA

 -  Claro que me lembro... e isso tem me incomodado muito...

André leva um susto. Pensa que Juliana está se referindo a algo ocorrido entre ela e Rico. Fala, quase sem voz.

 

ANDRÉ

-  Incomodado?

 

 

JULIANA

-   É, André... Aconteceu uma coisa... que eu não te contei

André sente como se a terra fugisse de baixo de seus pés. Apoia-se na cômoda. Pelo vão da gaveta vê o teste de gravidez.

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Flash back da sequencia 37

 

 

RIQUINHO

-  Se preocupe, não, André. Se ocê não quizer a criança, eu assumo, tá?

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Continua sequencia  38

 

André abre a gaveta, apanha o teste, olha e, transtornado, mostra a Juliana.

 

ANDRÉ

-  Então... é verdade...  você está mesmo grávida...? daquele marginal...

Juliana olha para André, sem entender sua reação. Vê ódio e desespero em seus olhos.

 

JULIANA

-  Eu ia te contar, amor...

ANDRÉ

-  Não  precisa. Já sei de tudo...

O desespero de André é profundo. Ele pensa saber a verdade. Uma verdade que destroi seu amor, seus sonhos, sua vida. Olha para Juliana como quem vê o seu céu transformar-se no inferno. Abre a boca para dizer algo. A voz é só um ronco. Dirige-se para a porta em profundo desespero e sai. Juliana vê seus castelos desabarem todos de uma só vez. Muda de aflição, o corpo vai caindo vagarosamente sobre a cama, como se ela estivesse morrendo. Seu desespero é silenciosamente cruel.

 

 

 

Sequência  40   -      CASA DA TELMA         INT  /  DIA  (pode ser noite)

 

Telma está em casa, preparando uma chícara de chá. Ao lado, uma peça feita em argila, a que ela está dando acabamento. A peça representa uma pessoa. Chega Juliana. Feliz surpresa. Abraçam-se.

 

 

TELMA

Filha!...

Como é que voce está?

Apesar da expressão de tristeza, Juliana mostra na fisionomia a determinação de continuar caminhando, e da melhor forma possivel.

 

 

JULIANA

Estou bem, mamãe.

Telma examina com os olhos o rosto da filha, faz uma leve expressão de aprovação

 

 

 

TELMA

-  Chegou bem na hora do chá. Quer uma xícara?

JULIANA

-  Quero sim.

Telma prepara outra xícara de chá enquanto conversam.

 

 

TELMA

-  Voce está bem ou está obrigando a si mesma a estar bem...?

Juliana sorrí

 

 

JULIANA

É só uma questão de bom senso. E isso foi voce quem me ensinou... “A cabeça deve ouvir o coração...

TELMA

-  ... e o coração usar de bom senso”.

JULIANA

-  É o que estou tentando fazer.

Juliana olha a mãe fixamente. Relanceia os olhos pela propria barriga.

 

 

JULIANA

- Outra coisa... Eu tenho pensado muito... e resolvi levar esta gravidez numa boa...

Sorriso de aprovação de Telma. Juliana pensa um pouco

 

JULIANA

- Sabe, mãe, as pessoas usam muitos chavões... “O milagre da vida” e muitos outros... mas não dimensionam esse milagre...

Juliana apanha a peça de argila... Segura-a nas mãos, levanta o rosto com olhar sonhador.

 

JULIANA

-  Sem que os pais saibam... alí, no silêncio intocado, as duas células de vida se unem e começam a formar uma nova vida.

E naquele embrião, tão pequeno que o olho não vê, está o esquema completo, perfeito, em todos os detalhes, de uma nova pessoa.

Juliana levanta-se, caminha um pouco. Passa os dedos suavemente pela superfície da estatueta. Olha ao longe, como a lembrar...

 

 

 

 

 

 

JULIANA

-  Eu vi uns documentários incríveis sobre fetologia.

... O coração começando a bater com apenas tres semanas de gravidez... As mãozinhas ficando prontas e aquela coisinha, bem pequenininha, levando o dedinho à boca...

chupando o dedinho, como a se consolar...  ou fazer companhia pra si mesmo...

Mãe, esse comecinho de gente não é só um punhado de tecidos. Ele já tem sentimentos, emoções... É uma vida... É um mistério cósmico... que a gente não tem o direito de destruir...

Juliana faz pequena pausa.

 

 

JULIANA

-  ...não importa como ele tenha sido feito...

Telma sorri com ar de aprovação...

 

TELMA

-  Isso, filha! Voce está certa.

Juliana faz ar sonhador.

 

JULIANA

-  Eu vou amar o meu bebê... vou amá-lo muito...

Vou cantar pra ele, pra que se acalme... pra que não sofra por ter sido feito como foi...

Eu vou ensiná-lo a ver também o lado luminoso da vida... pra que essa luz possa apagar qualquer sombra hereditária.

Telma está emocionada. Também tem os olhos marejados. Abraça a filha com carinho.

 

 

TELMA

-  Sabe que pode contar comigo, sempre, filha... sempre.

As duas olham uma para a outra e sorriem. Um sorriso cheio de esperança.

 

 

 

Sequência 41    -    QUARTO DA GENI       INT / DIA

 

Geni e Rico estão se preparando para a viagem a Bolívia. Geni olha em torno como a despedir-se do lugar.

 

GENI

-  Tô doida pra ver isso pelas costas. Não aguento mais esse lixo.

RIQUINHO

-  Deixa está, boneca. Quando a gente voltar da Bolívia, o papai aqui vai te botá num apartamento bem manêro... Num desses apart-hotel de luxo.

GENI

Só quero é ver...

Riquinho sabe que o assunto incomoda Geni, coisa que ele gosta de fazer.

 

RIQUINHO

Até lá meu filho já nasceu...

Outro dia eu vi a mãe... A barriga já está por acolá...

Geni fica furiosa.

 

GENI

Quer dizer que voce anda espionando aquela vadia...

RIQUINHO

-  Ce quer o quê boneca...?  tenho que pastorá o que é meu.

Geni bota as mãos na cintura, com ar de desafio, como quem quer briga.

 

GENI

-  Tá bom.... Tá muito bem, seu Rico.

Pois chame ela pra viajar com você, porque eu tô fora.

Vai com ela... Aproveita a barrigona... aí é que num vai mesmo despertá suspeita.

Eu vou é procurá outro rumo pra mia vida...

Rico percebe que foi longe demais. Trata de reconquistar Geni, pois precisa dela.  Aproxima-se, vendendo sensualidade.

 

RIQUINHO

Qual é, Boneca...?  Tá me estranhando, é?

Eu lá sou homem de andá atrás de rabo de saia...?

GENI

E ela é o quê?...

 

RIQUINHO

Sua boba... num tô interessado nela... é só na criança.

Geni levanta a cabeça em gesto de desfio.

 

GENI

-  Quê que ce quer com a criança?

RIQUINHO

O Rico, aqui, mia lôra, num dá ponto sem nó.

Aquele menino inda vai me rendé uma boa grana. Ce vai ver...

Geni olha desconfiada. Rico agarra-a e a beija com violência. Larga a jovem e vai apanhar a bagagem.

 

 

RIQUINHO

Vamo embora, que o avião num espera.

Rico e Geni apanham as bagagens, saem, fechando a porta por fora.

 

 

 

Sequência   42   -    A BORDO DO AVIÃO     INT / DIA

 

 

Rico e Geni estão a bordo de um avião de passageiros, procedente da Bolívia e com destino a S. Paulo. Com eles viaja outro comparsa, o Diegão. Trazem grande carregamento de coca. Riquinho olha para Geni e para o relógio, dizendo por mímica que está na hora. Levanta e vai para a cabine de comando. Geni espera que ele entre e, então, levanta, vai até a dianteira da cabine de passageiros, de arma na mão. Diegão fica no meio, também de arma na mão.

 

GENI

Todos quietos... Se obedecerem, ninguém vai se machucar.

Quero todos sentados e com as mãos atrás da nuca. Quem fizer um movimento em falso leva bala.

Os passageiros e comissários estão assustados, mas obedecem. Geni, de arma em punho, percorre a cabine com os olhos, atenta para qualquer movimento suspeito. Uma mulher começa a chorar. Geni aponta o revolver em sua direção.

 

MULHER

-  Não, não atire... Eu fico quieta.

Geni fica por instantes apontando para a mulher como quem decide se vai ou não atirar. Finalmente desiste, mas permanece atenta.

Enquanto isso, na cabine de comando, Rico domina a situação.

 

RIQUINHO

Se quizer sair vivo dessa, Comandante, trate de me obedecer... e não tente nenhuma gracinha, senão vai ser o primeiro que eu vou mandar pro inferno...

A tripulação procura manter calma. O comandante estava chamando a torre de Campo Grande, quando Riquinho deu entrada na cabine. Deixou o canal do rádio aberto, permitindo que ouvissem o que estava acontecendo. O bandido não percebe.

 

RIQUINHO

-  Comece a descer, Comandante. Vamos pousar em outro ninho...

COMANDANTE

-  Este avião não pode pousar em qualquer lugar...

RIQUINHO

Pois vai ter que poder.

Riquinho encosta o cano da arma na nuca do Comandante.

 

RIQUINHO

-  Descendo, Comandante, descendo... senão estouro seus miolos.

COMANDANTE

-  Fique calmo que eu vou lhe obedecer... Não quero ver ninguém ferido.

RIQUINHO

É assim que se fala... bom menino...

COMANDANTE

Vamos descer aonde?

RIQUINHO

-  Tres Lagoas...

COMANDANTE

Tres Lagoas? aquela pista não dá nem pra urubu...

RIQUINHO

Pois vai ter que dar...

E já avisei...Não tente nenhuma gracinha, que tem muita gente pra morré aqui...

COMANDANTE

Fique calmo, já disse. Não vou botá a vida dessa gente em perigo...

Mas pousar em Tres Lagoas é uma loucura...

Não dá pra ser em outro lugar?

RIQUINHO

É melhor calá a boca, antes que eu fique nervoso... E olha que já tou ficando... Ai meu dedo fica pesado no gatilho.

COMANDANTE

Está bem, está bem... vamos tentar pousar em Tres Lagoas...

 

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Insert

 

Sequência 43   -   TORRE DE CONTROLE DO AEROP. DE CAMPO GRANDE    INT / DIA

 

Os operadores estão escutando a conversa do Comandante com Riquinho.

 

 

CONTROLADOR - A

Estão sequestrando o avião... Depressa, chame a polícia de Tres Lagoas...

Controlador A continua na escuta, enquanto controlador B procura contato com a polícia de Tres Lagoas.

 

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Continua sequência 42

 

Cenas da cabine de comando, rostos dos tripulantes, suas expressões aflitas ou preocupadas.

Cenas da cabine de passageiros, expressão diabólica da Geni, expressões de medo, angústia e aflição de passageiros, expressão de Diegão atento, pronto para reagir, a qualquer movimento suspeito.

 

 

 

Sequência  44  -   AEROPORTO DE TRES LAGOAS      EXT / DIA

 

O avião pousa com dificuldade na pista curta (de terra?) e pára na cabeceira. Imediatamente a seguir um helicóptero pousa atrás dele. Ao mesmo tempo, viaturas da polícia seguem velozmente na direção do avião, sem sirenes, em silêncio.

Geni continua controlando os passageiros e comissários. Diegão vai para a cabine de comando, controlar os tripulantes, enquanto Riquinho começa a apanhar as bagagens com a coca. Ao descer do avião vê as viaturas da polícia... se aproximando. Do helicóptero começam a atirar nelas. A policia abre fogo pesado contra o helicópetro. Riquinho tenta correr para ele, mas a polícia está muito perto e não dá. O helicóptero decola rapidamente e Riquinho corre, fugindo para o matagal, deixando a pesada mala que levava.

Geni aparece na porta do avião, segurando uma mulher como refém, a arma apontada para sua cabeça. Atrás dela Diegão trazendo o comandante como refém.

 

POLICIAL  A

-  É melhor voces se entregarem... Nós damos garantias...

GENI

-  Vá pro inferno com suas garantias... Eu quero é voces longe... Vão saindo, senão estouro os miolos dela.

POLICIAL  A

-  Voce não vai ganhar nada com isso, moça... é melhor se entregarem...

Enquanto rola essa conversa um policial se aproxima por baixo do avião e se prepara para atirar. Policial A tenta ganhar tempo.

 

POLICIAL  A

-  Está bem... Nós vamos nos afastar... mas fique calma...

GENI

-  Eu quero uma viatura com armas pesadas e tanque cheio.

POLICIAL  A

-  Não acha que é pedir demais?

Geni está nervosa. Saiu tudo errado. Dá um safanão na refém. Esta grita. O policial em baixo do avião atira. Geni é mortalmente ferida, mas ainda consegue atirar. A bala pega de raspão na refém, que se segura no corrimão da escada. Geni cai dentro do avião. Diegão grita a plenos pulmões.

 

 

DIEGÃO

-  Eu me rendo... eu me rendo... Não atirem...

POLICIAL A

-  Saia de mãos pra cima... bem devagar...

DIEGÃO

-  Estou saindo... não atirem...

Diegão vai saindo com as mão para o alto. Camera mostra Geni, morta, Diegão passando por cima do corpo dela para se entregar, e expressão de medo e alívio da refém. Mais atrás, o comandante, com expressão de alívio.

 

 

 

Sequência  45   -    PRODUTORA DE ANDRÉ     INT /   DIA

 

André está na Produtora, trabalhando mais que nunca, para ver se esquece Juliana. Levanta-se da ilha de edição e vai até um móvel, abrindo a gaveta. Olha, como com medo. Tira o retrato de Juliana.

 

ANDRÉ  ( OFF )

-  Por que voce fez isso comigo, Juliana... Por que?

Eu confiava em voce!...

André coloca o retrato de novo na gaveta mas não consegue desviar os olhos dele.

 

ANDRÉ   ( OFF )

 -  Voce destruiu minha vida, Juliana.

Finalmente fecha a gaveta e, sem vontade de trabalhar, apanha o jornal, senta-se no sofá e começa a folheá-lo, sem muito interesse. De repente olha com interesse. Vê o retrato de Riquinho. Lê.

 

ANDRÉ  ( OFF )

POLÍCIA APREENDE CARREGAMENTO DE COCA.

O traficante conhecido como Riquinho conseguiu fugir. Sua  companheira, Geni Matos, foi morta pela polícia, ao tentar escapar. Outro bandido, o Diegão, foi preso pela polícia, que também espera prender Riquinho nas próximas horas.

André levanta os olhos do jornal.

 

ANDRÉ   ( OFF )

-  É esse o pai do teu filho, não é, Juliana?

Ah,  essa notícia eu quero te dar. O teu amante, procurado pela polícia...

ANDRÉ

-  Traficante de coca... hum...

André faz aquela expressão “me aguarde”, apanha o jornal, as chaves do carro e sai.

 

 

 

Sequência 46  -    APARTAMENTO DA JULIANA     INT /  DIA

Flash back  seq. 20

 

Juliana está em seu quarto. A barriga grande indica que a gestação está avançada. Segura nas mãos peças de roupa de bebê. Encosta-as no rosto, num gesto de carinho. Olha o retrato de André. Apanha-o e segura sobre o peito. Olha ao longe como que lembrando.

 

______________________________________________________________________________________

 

Flash back seq. 20

 

Noite do noivado. André e Juliana dançam ao som da música que marcou aqueles momentos.

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Continua sequência 46

 

Lágrimas de saudade e mágoa descem pelo rosto de Juliana...  A campainha toca. Ela vai atender. É André, que olha mudo para ela, com expressão de saudade e acusação.

 

JULIANA

-  André!

Ficam olhando-se por instantes. Juliana, profundamente magoada com o ex-noivo, mas com uma saudade maior ainda que a mágoa, mal consegue murmurar.

 

JULIANA

-  Entra.

André entra. Sua vida foi um inferno de tormentos desde a separação. A saudade pungente, dominadora. Para si mesmo, ele dá a desculpa de que vai jogar na cara de Juliana, a notícia sobre Riquinho. No fundo, o  que deseja é voltar para ela, apesar de tudo. Automaticamente dirigem-se ao cenário do rompimento, o quarto de Juliana. Esta larga o corpo na cama e André fica em pé olhando para ela com expressão de mágoa, saudade e revolta. André atira o jornal sobre a cama, com gesto de despreso.

 

ANDRÉ

-  Taí... Trouxe pra voce ver...

Juliana olha e ve o retrato de Riquinho.

 

JULIANA

- Meu Deus, é o bandido que me violentou...

André repete de forma automática.

 

ANDRÉ

-  Violentou...

JULIANA

-  É ele mesmo. Tenho certeza...

André percebe o engano. Fica desesperado. Não ousa sequer olhar para Juliana. Deixa-se cair no chão.

 

ANDRÉ

-  Meu Deus... o que fiz!?... o que eu fiz?

Juliana não está entendendo a reação de André.

 

JULIANA

Do que voce está falando?

André não tem coragem de olhar para ela. Fica repetindo a mesma frase.

 

ANDRÉ

-  Meu Deus... o que fiz!? Que foi que eu fiz! ...?

Eu nunca vou conseguir me perdoar...

A mágoa de Juliana evapora-se. Levanta e aproxima-se de André. Senta-se numa cadeira, perto dele. Põe a mão sob seu queixo e levanta-lhe a cabeça. Olha-o com amor. Fala suavemente.

 

JULIANA

-  Olha pra mim, André.

Aos poucos André ousa olhar para ela. Vê seus olhos molhados de lágrimas. Olha a barriga crescida... Imagina todo o sofrimento da jovem. Sente como se algo quebrasse dentro de si. Chora.

 

ANDRÉ

-  Perdoa, Juliana... perdoa... perdoa...

Eu não sabia... juro.

Juliana continua não entendendo.

 

 

 

JULIANA

-  Não sabia o quê?

André libera no pranto o sofrimento dos últimos meses e a dor e o remorso de ver o sofrimento de sua amada.

 

JULIANA

-  Que é que voce não sabia, André?

Finalmente André consegue acalmar-se o suficiente para falar.

 

 

ANDRÉ

-  Que voce tinha sido violentada. Aquele miserável me disse que...

Falou  no sinal que voce tem no seio...

Falou da gravidez...

Eu pensei que voce e ele...

Juliana levanta e afasta-se de André. Não entende como ele pudera acreditar em semelhante coisa. Olha para ele com mágoa. Conforme fala vai ficando exaltada.

 

JULIANA

-  Como é que pôde pensar uma coisa dessas a meu respeito? ...

Como pôde?....

Não foi voce mesmo quem me pediu confiança?

E cadê a tua?...

Juliana, exaltada, segura o vaso com flores onde está a escuta e atira-o no chão, com força. O vaso se  espedaça. O gesto violento parece acalma-la um pouco.

André está arrasado. Entende que Juliana está com toda razão. Permanece em silêncio, sem coragem de dizer palavra. Juliana continua falando, desta vez com lágrimas na voz.

 

JULIANA

- Voce tem a mais remota idéia do que eu tenho sofrido?

- Pode imaginar sequer o que é ser violentada por um bandido asqueroso?... e depois, ser abandonada pela pessoa que mais ama e confia?

Não André... Voce não pode imaginar.

André finalmente consegue balbuciar.

 

ANDRÉ

-  Por que não me contou?

Juliana está desabafando sua grande mágoa, tão longamente reprimida.

 

JULIANA

- Por que não contei...?

Porque a idiota, aqui, queria preservar o seu amor de toda aquela sujeira...

André está desesperado.

 

ANDRÉ

- Tem dó de mim, Juliana... por favor.

Me perdoa!

Juliana fica penalizada. Suavisa mais a voz.

 

JULIANA

-  Como voce soube?

André está um pouco mais calmo.

 

ANDRÉ

Foi aquele miserável. Deu a entender que tinha um caso com voce... Falou no sinalzinho que voce tem no seio...

Disse que voce estava grávida e que o filho era dele.

Juliana faz uma expressão de quem não consegue entender tanta maldade.

 

ANDRÉ

- Aí voce me confirmou que estava grávida... de um marginal...

André levanta e aproxima-se de Juliana. Sem querer pisa nos cacos do vaso quebrado. Segura nas mãos dela.

 

ANDRÉ

-  Juliana, eu nunca podia imaginar que foi assim... por violência.

Me perdoa...

Eu sei que devia ter confiado em voce... eu sei... me

perdoa...

Juliana olha para as mãos de André, segurando as suas. Vê no chão algo esquisito. André acompanha seu olhar. Abaixa-se e apanha.

 

JULIANA

-  Que é isso?

André apanha o aparelho e examina.

 

ANDRÉ

-  Parece um aparelho de escuta...

 

É... é isso mesmo.... é um aparelho de escuta...

 

JULIANA

-  Mas... quem teria colocado isto?

André começa a entender a trama.

 

ANDRÉ

Ah...  estou entendendo. Foi aquele miserável... Foi assim que ele soube da tua gravidez...

E eu caí feito um pato.

JULIANA

-  Não estou entendendo...

A apartir deste ponto o som vai dimunuindo até extinguir-se. Camera faz pan para o chão mostrando os cacos do vaso quebrado.

 

ANDRÉ

-  Lembra da Geni? Aquela garota que trabalhou comigo na Produtora?

JULIANA

Claro que me lembro.

ANDRÉ

-  Pois ela é comparsa desse tal de Riquinho. Eu te disse que tive um caso com ela...

 

 

 

Sequência 47   -    APARTAMENTO DE JULIANA         INT / NOITE

 

Em quadro a mesma imagem do final da seq. anterior: os cacos do vaso no chão. Lenta fusão com o chão limpo. Outra música. Pan para a cama onde Juliana está dormindo. Ela acorda, sentindo dores. Levanta, vai até a cozinha e toma um copo de água. Vem outra dor, bastante forte.

 

JULIANA

-  Anabel!...

Instantes depois entra Anabel, asustada.

 

ANABEL

Que foi, Juliana?... Que aconteceu?

JULIANA

- Estou com dores...

Anabel está nervosa.

 

ANABEL

Com dores?...

Muito?

JULIANA

Um bocado...

Anabel conduz Juliana para seu quarto.

 

ANABEL

Fique calma... Espere aqui... Eu vou ligar pro André...

Anabel sai do quarto e Juliana começa a sentir outra dor...  mesmo assim, sorri. Um sorriso cheio de amor e esperança.

 

Sequência 48     -      QUARTO DA GENI         INT / DIA

 

Riquinho está só e sem dinheiro. Anda pra lá e pra cá. Fala em voz alta, para si mesmo.

 

RIQUINHO  ( OFF )

-  Que merda!

Caminha, chutando as coisas .

 

A Geni vacilou... Pensou que mulher não leva bala...

... Coitada! ... Se ela tivesse aqui, ia dar um jeito de arrumá grana.

Riquinho faz ar de quem passa para outra idéia.

 

-  O garoto já deve ter nascido...

Pensa um pouco. Pega o telefone e disca. Som da chamada, tocando várias vezes.

 

 

 

Sequência 49        APARTAMENTO DE JULIANA         INT / DIA

 

O apartamento está vasio. O telefone está tocando. A porta da frente abre-se e entram Anabel, André e Juliana. Anabel traz nos braços o bebe de Juliana. É uma menina. André dirige-se ao telefone para atender, mas ele pára de tocar. Os tres vão até o quarto de Juliana colocar o bebe no berço.

 

 

JULIANA

-  Estou doida por uma banho.

ANABEL

-  Pode ir que eu cuido da Telminha.

Juliana vai para o banheiro e Anabel aproxima-se do berço; André também. André olha com ar  meio desconfiado para o bebe. Procura esforçar-se mas não consegue aceitar aquela criança, pelo que ela significa. Em seu íntimo lutam duas forç[LP3] as: a emoção de olhar para um recém-nascido e saber que é filha de Riquinho. André aproxima a mão e toca na mãozinha do bebê. Este segura seu dedo. André emociona-se.

 

ANDRÉ

-  Ela segurou meu dedo.

Anabel olha para ele. Compreende seu estado de espírito.

 

ANABEL

Sempre me disseram que os bebês tem um poder mágico de emocionar as pessoas. Eu não acreditava...

André fica sem jeito. Anabel ri.

 

 

 

Sequência  50     -      APARTAMENTO DE JULIANA      INT /

Flash back da seq.  20

 

Juliana está chegando no apartamento, com pacotes de compras de supermercado, que começa a arrumar na despensa. Toque da campainha. Juliana vai abrir a porta. É André que traz na mão um pacote embrulhado como presente, com laço cor-de-rosa.

 

JULIANA

-  Oh, amor, que surpresa boa.

ANDRE

-  Temos que comemorar o aniversário da Telminha...

Juliana arregala os ohos, risonha.

 

JULIANA

-  Aniversário?

ANDRÉ

-  Quarenta e cinco dias de vida... é muita coisa!

Os dois sorriem e beijam-se. Juliana recebe o presente das mãos de André. Abre. É um vestidinho.

 

JULIANA

-  Oh,... é lindo. Obrigada, em nome da Telminha.

ANDRÉ

-  Passei na Igreja. Está tudo certo para sexta-feira.

Dentro de... 5 dias, vamos ser marido e mulher.  

Beijam-se, felizes.

Enquanto conversam vão caminhando até o quarto, onde Telminha dorme no berço. André beija-a levemente e afasta-se com Juliana em direção à cama. No audio, entra o tema de amor do casal. André e Juliana se abraçam. Beijam-se. O desejo longamente reprimido vem à tona.

 

ANDRÉ

- Agora já pode, não pode?

Juliana faz sim com a cabeça. André leva-a para a cama. Beijam-se. André leva a mão eté a perna de Juliana e vai subindo pela coxa, até a nádega. A semelhança do gesto faz Juliana lembrar o estupro.

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Flash back  seq.  20

Música  superbrega no rádio e Riquinho em cima de Juliana, subindo a mão pela coxa, até a nádega, violentando-a.

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Continua sequência  50

 

 Juliana levanta-se, angustiada. Olha para a cama, lembrando que foi ali que aconteceu a violência. André olha para a cama e compreende.

 

 

JULIANA

- Oh, amor... Voce tem que me dar um tempo...

André acaricia suavemente o rosto de Juliana.

 

ANDRÉ

Só depois do casamento?

JULIANA

-  Não, não é isso... Eu preciso me reorganizar... por dentro.

ANDRÉ

- Compreendo, amor... Não se preocupe, voce tem todo o tempo que precisar... Eu quero voce inteira...

André movimenta-se e pára.

 

ANDRÉ

-  Lembra do que combinamos sobre priorizar o afeto... o companheirismo?

Juliana sorri, aliviada.

 

JULIANA

-  E não ia lembrar?

André e Juliana abraçam-se e vão saindo do quarto. Juliana na frente e André em seguida. André pára junto ao berço. Olha o bebê num misto de carinho e rejeição.

 

ANDRÉ   ( OFF )

Nós dois também precisamos de um tempo...

André sai do quarto, seguindo Juliana. Despedem-se na sala e André vai embora.

 

 

 

 

Squência 51    -    QUARTO DA GENI       INT / DIA

 

Rico pega a garrafa de cachaça sobre a mesinha de cabeceira. Está vasia. Fala com raiva.

 

RIQUINHO

-  Que merda!

Onde é que vou arrumar grana?

Anda pra lá e pra cá, chutando as coisas. De repente pára. Tem uma idéia... Uma idéia que vai tirá-lo do sufoco.

 

RIQUINHO

Ele já deve estar com ...  o quê?  Dois meses? ... quase isso...

Riquinho estala o dedo num gesto significatico, como quem diz: é por ai.

 

 

 

Sequência  52   -   APART. DA JULIANA    INT / NOITE

 

Juliana, André, Anabel e Telma estão chegando no apartamento de Juliana depois do casamento. Dona Telma carrega Telminha no colo e vai coloca-la no berço, num quarto ao lado do de Juliana. Todos estão felizes. A sala está cheia de flores e sobre a mesa um bolo de casamento, com taças para champanhe e pratinhos para o bolo. Telma volta.

 

ANABEL

-  Vamos brindar os noivos...

TELMA

Eu vou pegar a champangne...

Enquanto Telma vai à cozinha, Anabel ajeita as taças e os pratinhos para o bolo. Telma volta com a garrafa e André abre. Cheias as taças, Anabel levanta a sua.

 

 

ANABEL

-  Vivam os noivos.

TODOS

-  Vivaaaa...

André e Juliana partem o bolo e este é distribuido. Enquanto comem, a conversa rola.

 

ANDRÉ

É pena que voce vai embora, Anabel... Pra mim, voce é uma irmã muito querida.

Anabel sorri carinhosamente.

 

- ANABEL

-  Vai ser ótimo pra mim, André...  linha internacional é outra coisa... Claro que vou ficar com saudades... mas, deixa estar, que eu venho passar as férias com voces.

JULIANA

Venha mesmo, amiga... Eu vou sentir muito a tua falta.

Anabel olha com ar gaiato para Juliana e depois para André.

 

ANABEL

-  Imagina...  um gato desse em casa e... de quebra, uma coisinha linda como a Telminha...   

Telma olha com ar expressivo para Anabel.

 

TELMA

-  Eu também gosto muito da Anabel... Tanto que vou rouba-la...

ANABEL

Vou pegar minhas coisas.

Anabel vai buscar a maleta, enquanto Telma despede-se da filha e de André.

 

TELMA

-  Deus abençôe voces dois... voces tres...

ANDRÉ

Obrigado por tudo.

JULIANA

Obrigada, mamãe.

Anabel volta com a maleta. Abraça Juliana e André.

 

ANABEL

-  Que voces sejam muito, muito felizes... Voces merecem.

JULIANA

Obrigada, amiga... Que voce também seja muito feliz.

ANDRÉ

-  Muito sucesso pra voce, Anabel, na linha internacional.

As duas saem e o casal fica sozinho. André abraça Juliana.

 

ANDRÉ

-  Enfim... sós.

Beijam-se. Juliana desprende-se dos braços de André, puxa-o pela mão, em direção ao quarto.

 

JULIANA

-  Vem ver...

Entram no quarto. Está bem diferente. Móveis novos e a cama , nova, bem diferente da antiga, colocada em outro ângulo. André está alegremente surpreendido. Juliana puxa-o pela mão até a cama, e faz uma expressão de convite. André entende. Beijam-se com paixão. André puxa Juliana para a cama. Vai beijando seu rosto, pescoço. No audio o tema de amor do casal. Camera faz  uma lenta panorâmica, corrigindo para o chão. Uma calcinha cai em quadro. Fade.

 

 

 

Sequência   53     -       APARTAMENTO DE JULIANA    INT  /  NOITE

 

É madrugada. Riquinho está em frente à porta do apartamento de Juliana. Apanha uma chave do bolso e beija-a, com ar irônico. Diz para si mesmo.

 

RIQUINHO   -  (OFF)

Obrigado, Geni.

Abre a porta do apartamento e entra. Está tudo silencioso. Vai até a porta do quarto de Juliana. Olha o casal dormindo e faz uma careta. Caminha silenciosamente até o outro quarto, apanha Telminha, um bebê-conforto, fraldas e mamadeiras e sai.

 

 

 

Sequência 54    -      APARTAMENTO DE JULIANA   INT /  DIA

 

O dia amanhece. Juliana acorda. Olha com um sorriso para André, adormecido. De repente, uma nuvem de preocupação passa por seu rosto. Levanta e vai até o quarto da filha. O berço está vasio.  Desespera-se.

 

JULIANA

-  Cadê minha filha? ...  Telminha...

André, a Telminha sumiu.

André chega correndo.

 

JULIANA

A Telminha sumiu, André!

ANDRÉ

-  Como, sumiu?

JULIANA

Sumiu... Não está no berço.

ANDRÉ

Não é possível.

Os dois correm até a porta de saída. Está apenas encostada. Abrem-na. No hall, tudo silencioso. Voltam e percorrem todo o apartamento. Nada.

 

JULIANA

-  Roubaram minha filha, André.

ANDRÉ

-  Eu não sei como... eu mesmo verifiquei a porta... estava trancada...

JULIANA

-  Alguém entrou aqui, André... e levou a minha filha... Mas, por que?... por que?

ANDRÉ

-  Não faço a menor idéia...

Vamos chamar a polícia...

JULIANA

-  Isso... chama logo.

André vai ao telefone e disca.

 

ANDRÉ

-  É da polícia?... é sobre um sequestro... um bebê...........

É... foi agora de noite... Nós acordamos e ela não estava mais no berço..............................................

Está bem, eu vou até ai.

André desliga o telefone.

 

ANDRÉ

-  Eu tenho que ir até lá, formalizar a queixa.

JULIANA

-  Eu vou com voce...

ANDRÉ

-  Não, amor. É melhor voce ficar aqui. Se for um sequestro, eles podem telefonar.

Juliana está na maior aflição.

 

JULIANA

-  Está bem, eu fico aqui... Mas vai logo...

André segura Juliana carinhosamente, pelos ombros.

 

ANDRÉ

-  Amor, procure se acalmar... Eu vou preparar um calmante pra voce.

André vai até a copa preparar o calmante. Juliana ajoelha-se e começa a rezar.

 

JULIANA

-  Santa Maria, mãezinha do céu, me ajuda, protege minha filhinha... protege minha filhinha. Faz com que ela volte sã e salva pra mim...

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus...

André volta com o calmante.

 

ANDRÉ

-  Toma, Vai ficar mais calma.

E olha, tenha fé... Confia... Vai dar tudo certo. A Telminha vai voltar pra nós.

André e Juliana abraçam-se e André sai. Juliana fica andando pra lá e pra cá, desesperada. Pára, junta as mãos, eleva o rosto.

 

JULIANA

-  Santa Maria, mãezinha do céu, protege minha filhinha... protege ela. Faz com que ela volte sã e salva pra mim...

Ruído de chave na porta. Juliana assusta-se. A porta se abre. É Anabel, que percebe logo a angustia da amiga.

 

ANABEL

- O que foi?...

JULIANA

A Telminha sumiu... foi roubada.

Anabel fica atônita.

 

ANABEL

-  Roubada?... Como?

JULIANA

-  Nós acordamos e ela não estava mais no berço...

Juliana mostra a porta da rua.

 

JULIANA

 E a porta estava aberta.

ANABEL

-  E voces não têm idéia de quem foi?

JULIANA

Só pode ter sido aquele bandido...

ANABEL

O que te...

JULIANA

-  É... Ele é conhecido como Riquinho.

Anabel leva um susto.

 

ANABEL

-  Riquinho?

JULIANA

-  É... André me disse o nome dele.

Anabel pergunta a si mesma se será o mesmo Riquinho da sua adolescencia... Só pode ser...

 

ANABEL

Ah, miserável.

Anabel lembra-se da casa abandonada. Se for mesmo Riquinho o sequestrador, talvez tenha levado a menina para lá.

 

JULIANA

E se ele roubou a menina pra ficar com ela?... Se ele nunca mais vai devolver minha filha?

 

 

ANABEL

 Nem pense nisso!  Aquele desgraçado só está querendo dinheiro.

Anabel aproxima-se da janela e olha na direção da casa abandonada. Fala para si mesma, em voz alta.

 

ANABEL

É possível que ele tenha ido pra lá.

JULIANA

Ido pra lá?... pra onde?

Juliana aproxima-se da janela.

 

ANABEL

Pra uma casa abandonada...  Fica depois desse cajueiral...

Juliana olha na direção em que Anabel aponta.

 

JULIANA

-  Me explica isso, pelo amor de Deus... Que casa abandonada é essa?

ANABEL

Foi minha casa quando eu era criança...

Juliana, espanta-se.

 

JULIANA

-  Tua casa?... não estou entendendo...

ANABEL

-  Isso não tem importância, agora.

 

JULIANA

-  E por que aquele bandido iria pra lá?

 

ANABEL

Porque nós fomos amigos de infância...

JULIANA

-Como?... Voce e aquele bandido...?

ANABEL

O Riquinho foi meu vizinho... Era meu amigo...

Foi ele quem matou meu pai...

Juliana está cada vez mais espantada.

 

JULIANA

-  Matou teu pai? ... Então, ele é um assassino...

Ele vai matar a minha filha!

Juliana está descontrolada. Anabel segura-a com força pelos ombros.

 

ANABEL

Não vai, não, Juliana. Te acalma. O Riquinho não é tão mau assim...

 

JULIANA

Não é mau? Um assassino, estuprador, não é mau?

ANABEL

Me escute, Juliana. Não foi assim como voce pensa... Meu pai me violentava sexualmente... Eu só tinha 12 anos. O Riquinho me amava... Ele pegou meu pai me forçando... Matou ele pra me defender... Entende?

Juliana está atônita

 

JULIANA

Meu Deus!... Que coisa terrível!...

ANABEL

Vê, amiga... não fique aflita. Eu acho que ele só está querendo dinheiro.

JULIANA

-  Voce disse que ele pode ter ido pra essa casa abandonada...

Toca o telefone. Juliana corre para atender. É André.

 

ANDRÉ

-  Oi, amor, sou eu... só pra saber se voce está bem...

JULIANA

-  A Anabel tá aqui, comigo. Ela acha que aquele bandido pode tá escondido numa casa abandonada que tem aqui perto...

ANDRÉ

-  Casa abandonada?...

JULIANA

-  A Anabel conhece ele... foram amigos de infância...ela morou nessa casa...

ANABEL

-  Deixa eu falar com ele, Juliana.

JULIANA

-  Fala aqui com ela...

Anabel pega o telefone

 

ANABEL

André, não leve a polícia lá. Eu vou falar com ele. Tenho certeza que ele vai me ouvir.

 

ANDRÉ

-  Eu vou com a polícia, mas a gente fica de longe... só pra garantir...

ANABEL

-  Está bem  André. Voce sabe qual é a casa? É uma que fica depois desse cajueiral, aqui ao lado do prédio... assim a uns 500 metros...

ANDRÉ

-  Eu sei mais ou menos onde é... Vá com cuidado, Anabel. Esse cara pode ser perigoso.

ANABEL

-  Eu sei me defender, André.

Anabel desliga o telefone e se prepara para sair.

 

JULIANA

Eu vou com voce, Anabel.

 

ANABEL

-  De jeito nenhum!  Eu vou só...

JULIANA

Eu quero ir buscar minha filha...

Anabem segura Juliana pelos ombros.

 

ANABEL

-  Quer estragar tudo, Juliana?

Confia em mim... Eu tenho que ir só...

JULIANA

Está bem... eu confio em voce... Mas pelo amor de Deus, faz tudo que puder pra trazer minha filha...

 

ANABEL

-  Claro que eu vou fazer, Juliana. fica tranquila... Vai dar tudo certo... voce vai ver.

Anabel sai e Juliana volta às suas preces.

 

JULIANA

-  Pai nosso que estás no céu... Santificado seja o teu nome... Oh, meu Deus, me ajuda... Minha mãezinha do céu, me ajuda... Faz com que a minha filha volte sã e salva...

 

 

 

Sequência  55       CASA ABANDONADA     INT / DIA

 

Riquinho está na casa abandonada. Telminha dorme em outro aposento, sob o efeito de alguma droga. Rico ouve passos aproximando-se. Levanta a arma e se esconde. Anabel chama em voz baixa.

 

ANABEL

Riquim!

Rico percebe que não é inimigo. Anabel entra. Rico supreende-se.

 

RIQUINHO

-  Anabel?

Que ce quê aqui?

Anabel olha para Rico com carinho.

 

ANABEL

-  Tanto tempo, não?

Voce mudou pouco...

Anabel olha em volta.

 

 

ANABEL

Cadê a menina?

Riquinho fica na defensiva.

 

RIQUINHO

Que menina? Tá doida, é?

Anabel não responde. Ela sabe que a menina está na casa. Tenta outra tática. Procura um lugar para sentar e senta. Riquinho reluta mas acaba sentando também.

 

ANABEL

-  A vida foi dura com voce...

E tudo por minha culpa...

RIQUINHO

- Num foi tua culpa. Foi daquele desgraçado...

ANABEL

Voce fez aquilo pra me defender...

Eu nunca pude esquecer isso Riquim...

Rico olha para Anabel como quem olha o Paraíso perdido.

 

RIQUINHO

E eu nunca esqueci voce, Belinha.

Anabel emociona-se. É todo um passado distante que retorna.

 

ANABEL

-  Eu fecho os olhos e vejo nós dois aqui, ainda crianç[LP4] as...

Foi um tempo duro... mas deixou saudade...

Rico está preocupado.

 

RIQUINHO

Que é que ce quer comigo, Belinha?

 A coisa agora é outra.

Anabel retorna ao presente. Lembra a que veio.

Riquinho recupera-se e volta a mostrar sua natureza atual. Levanta e fala com rudeza

 

RIQUINHO

Vamo deixar de lêro e desocupa. Num tô pra ouvir besteira.

Anabel não dá atenção à grosseria de Rico. Continua falando em tom manso.

 

ANABEL

Ela é uma pessoa maravilhosa, Rico. Ela podia ter feito aborto, mas não fez...

Anabel fala intencionalmente. Sabe que vai tocar num ponto fraco de Rico.

 

ANABEL

Eu me lembro do que voce me contou... quando viu sua mãe fazendo um aborto... Lembra? Voce se escondeu pra ver... Mas só dava pra ouvir... o ruído das curetas, rasgando o bebê...

Rico fica silencioso por instantes. Está emocionado.

 

RIQUINHO

Nunca vou esquecer aquilo...

Depois que elas saíram eu fui ver... Só vi um bracinho, com a mãozinha bem pequenininha... deste tamaninho... (mostra com os dedos).

Anabel percebe que é o momento de voltar ao ataque.

 

ANABEL

Pois é Rico. Ela não fez isso com teu filho...

Merece consideração, não acha?

Rico está com o íntimo muito desarrumado. É como se algo houvesse quebrado dentro dele.

 

RIQUINHO

Tó precisando de grana.

ANABEL

Eu te arranjo... Eu ganho bem. Tenho um dinheiro guardado. Te dou tudo...

Rico não sabe o que dizer... Anabel volta à carga. Está sendo sincera.

 

ANABEL

Num confia em mim, Riquim?

Acha que eu ia te trair?

Rico faz não com a cabeça.

 

ANABEL

Vamo embora. Cadê a menina?

Rico vai em direção ao outro aposento para pegar a menina. Está com a arma na mão. Quando passa diante de uma janela aberta, é visto de fora e um policial grita.

 

 

POLICIAL

- Aqui é a polícia. Voce está cercado, Rico. Saia com as mãos pra cima.

Rico olha para Anabel com doloroso olhar de acusação.

 

RIQUINHO

Num ia me trair, não é?

Ce me paga, desgraçada.

Rico levanta a arma na direção de Anabel.

 

ANABEL

-  Eu não te traí, juro.

De fora os policias atiram e Rico é ferido gavemente. A arma cai de sua mão. Com dificuldade vai até onde está a criança. Senta no chão, junto dela.

 

 

 

Sequência  56           APARTAMENTO DE JULIANA    INT  /  DIA

 

Juliana, junto à janela, está em grande aflição. Seus olhos vão do telefone à direção da casa abandonada.Não suporta a espera e sai correndo.

 

 

 

Sequência  57         CASA ABANDONADA        INT  / DIA

 

Flash back - sequência  34

Os policiais entram, seguidos de André. Anabel e André correm para junto da menina e vêem que ela está dormindo tanquilamente. Rico está moribundo. Olha para a menina e em seguida para André. Fala com dificuldade.

 

RIQUINHO

Cuida dela...

Rico tenta aproximar-se da criança. Está nas últimas. Sabe que está morrendo. Olha para André.

 

- Meu sangue... não é ruim, não... André. A vida... é que... foi ruim... pra mim.

Riquinho vira-se com dificuldade para olhar a filha.

 

-  Voce... vai ser diferente. Vai ter... mãe e pai... de verdade.

Pergunta a André.

 

-  Como é o ... nome... ?

André está emocionado. Alí, diante de alguém que está morrendo, seu bom coração fala mais alto que o ódio.

 

ANDRÉ

-  O nome dela é Telma. A gente chama de Telminha.

 

RIQUINHO

- Telminha... lindo...

Linda... Telminha...

Rico morre suavemente, caindo com o rosto virado para a filha. Um policial vira-o com o pé. Há um sorriso em seu rosto. André apanha Telminha e verifica que ela está bem. Está emocionado. Foram muitos acontecimentos dramáticos nas últimas horas. Seus olhos estão marejados de lágrimas. Abraça a criança com muita ternura, beija-lhe o rostinho, as mãozinhas, o cabelo. Levanta o olhar. Por entre as lágrimas vê no alto a imagem de N. Sra. com a flor na mão.

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Flash back sequencia 34   -   sonho de André

 

No alto, Nossa Senhora com a flor na mão.

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Continua Sequencia  57

 

André olha para Telminha e compreende. Juliana está chegando, aflitíssima. Vê a filha nos braços de André, Riquinho morto no chão.

 

JULIANA

-  Ela está bem?

ANDRÉ

Acho que sim. Está dormindo. Deve ter tomado alguma coisa pra dormir...

Anabel ajoelha-se ao lado do corpo de Rico, chorando. André vai saindo do aposento com Telminha nos braços, seguido de Juliana. Chegando lá fora, entrega-lhe a menina.

 

ANDRÉ

-  Pega... Telminha Flor.

Juliana apanha a filha sem entender o porque do nome acrescido de Flor. Olha seu corpinho, as mãozinhas, tudo, para ver se ela está bem.

 

JULIANA

Telminha Flor... Que lindo, André.

ANDRÉ

-  Gostou?

JULIANA

Adorei.

ANDRÉ

-  Se voce quizer, quando eu for registra-la, posso colocar o nome Telma Flor.

Juliana está surpresa.

 

 

 

 

JULIANA

-  Voce?... registrá-la?

ANDRÉ

-  Geralmente, não é o pai quem vai registrar os filhos? Então? Qual é o espanto?

Juliana sorrí, feliz. Olha para André, quase chorando de emoção.

 

 

JULIANA

-  Pode registrá-la como Telma Flor. O nome é lindo.

Imagens de Anabel chorando ao lado de Rico, os policiais vasculhando a casa e Juliana e André saindo com a menina.

 

 

 

Sequência   58       EM MEIO À NATUREZA       EXT  /  DIA

 

André e Juliana estão voltando para casa, levando Telminha adormecida. Caminham por entre os cajueiros. Chegam junto de um que tem um galho baixo, grosso e comprido, na horizontal. Sentam-se. Juliana tem Telminha no colo. Alguns takes mostram o casal integrado com a natureza, o azul do céu por entre as folhagens, formigas em fila carregando pedaços de folhas, pássaros cantando... . Câmera os focaliza de um ângulo que os mostra diante de uma abertura nas folhagens, vendo-se ao longe o mar. Câmera vai baixando e se aproximando lentamente, enquanto conversam. André olha em volta, olha ao longe, pensativo, e depois para Juliana, como que tentando lembrar algo. Segura nas mãos dela e fala com convicção.

 

 

ANDRÉ

-  Pode parecer loucura, amor, mas eu tenho a nítida impressão de que em algum tempo... em algum lugar no passado, nós marcamos este encontro.

 

Juliana sorri... Lembra da cena que reviveu. 

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Flash Back seq. 39

 

André fala com desespero.

 

ANDRE

-  E eu vou te procurar, querida... nem que seja no fim do mundo... Eu vou te encontrar... e vamos ficar juntos... juntos...

Juliana está morrendo. Faz um soberano esforço para falar.

 

JULIANA

-  Um dia... um dia...

 

Câmera mostra em plano detalhe as mãos dos dois entrelaçadas. Uma lágrima cai sobre o dorso da mão de Juliana.

 

 

 

Fusão para as mãos dos dois entrelaçadas de forma igual. A lágrima desaparece aos poucos. Juliana passa a mão levemente no local onde caíra a lágrima. Olha André com carinho, passa carinhosamente a mão pelo seu rosto... Sorri, um sorriso enigmático...

 

 

JULIANA

- Quem sabe...

Levantam-se e continuam a caminhar, abraçados, até desaparecerem atrás dos pés de cajueiro. Sobre essas imagens passam os caracteres finais.

 

FIM