UM FORRÓ NO UMBRAL

Peça teatral espírita

 

 

PERSONAGENS

 

ANASTÁCIO - Homem de seus 40 ou 50 anos aproximadamente.

JERÔNIMO – Administrador do setor.

ENFERMEIRO – Trabalhador.

MARIETA

MANUEL

SUZANA – Pessoa sempre satisfeita e contente, apesar das situações.

            ABORTADO - VOZ (a bacia pode conter algo, simulando um feto abortado)

MULHER DO ANASTÁCIO

 

CENÁRIO UMBRALINO

 

OBS. O cenário é organizado de forma a deixar perceber que um forró está acontecendo ao lado,  com uma fogueira e uma sanfona desafinada tocando, sendo que o palco ocupa apenas uma ponta desse ambiente.

 

(Palco na penumbra.

Anastácio cambaleia nos sofrimentos de um enfarte; aperta o peito com as mãos... Cai, estrebuchando nas angustias da desencarnação e finalmente fica imóvel.

Começa-se a ouvir alguns gemidos, gargalhadas e uivos distantes, que vão se aproximando, e também vão surgindo reflexos das labaredas da fogueira, numa das entradas laterais do palco. Ao mesmo tempo também vão se aproximando os sons do forró, a sanfona desafinada e estridente tocando música de forró. O palco vai ficando mais iluminado, com os reflexos das luzes alaranjadas e avermelhadas da fogueira.

O ambiente umbralino vai se aproximando mais e com ele Jerônimo, administrador daquele núcleo, entra no palco, postando-se a um canto, observando. Atrás dele vão surgindo algumas figuras grotescas de dançarinos a se arrastarem cansadamente, suados e com as roupas em desalinho, sendo possível perceber que apenas uma ponta do ambiente está no palco.

Anastácio também começa a dançar junto com os outros, movido por forças estranhas. Tenta parar e não consegue. Deixa-se arrastar naquela dança estranha, enquanto vai gritando)

                                     

ANASTÁCIO   -   Mas o que é isso?... Será que estou ficando louco? Por que não consigo parar?

(Desesperado, levanta o rosto para o alto)

Meu Deus, o que está acontecendo?

(Durante mais um minuto continua essa cena, com Anastácio misturado aos outros dançarinos, desesperado, suplicando ajuda a Deus)

Meu Deus, me ajuda... Tem misericórdia de mim!!!

(De repente a música para e todos se estendem no chão, exaustos. Só continuam os reflexos da fogueira e vez por outra um gemido)

Ai, meu Deus, o que é isso?...

(Apalpa-se, belisca-se)

Acho que isto é um pesadelo... Quero acordar...

JERÔNIMO   - (Jerônimo se aproxima. O tom da voz denota piedade)

                        Passou a vida inteira em centro espírita e não percebe que já desencarnou...

ANASTÁCIO   -  Eu...?  Desencarnei...?

                        Que brincadeira é essa?

(Reflete um pouco, esfrega o rosto e, convencido de que morreu, faz uma expressão de desespero... Chora... Aos poucos reage e fala, revoltado)

Então é assim?... Uma vida inteira votada ao Espiritismo... e termino num horrível e asqueroso forró?...

(Olha na direção do núcleo do forró)

No Umbral... com certeza!

(Desesperado, agarra Jerônimo pela camisa e pergunta, aos gritos)

O que significa isto? Alguém tem que me explicar!!!

JERÔNIMO   -  Calma, Anastácio... quer complicar ainda mais sua situação?

ANASTÁCIO   -  (Olhando mais atentamente para Jerônimo)

Mas você é o Jerônimo... Você foi diretor da área doutrinária do centro...  Como é que veio parar aqui?

(Esfrega os olhos, o rosto, como a querer libertar-se de um pesadelo)

JERÔNIMO   -  Coisas da vida, meu caro...

ANASTÁCIO   -   Só posso estar ficando louco...

JERÔNIMO   -   Não, Anastácio. Você não está louco... nem eu. Nós apenas nos enganamos, na Terra..

ANASTÁCIO   -  Como?... Então o espiritismo é mentira? Tudo aquilo que aprendemos é mentira?

JERÔNIMO  -  Não, meu amigo... A mentira estava em nós mesmos.

ANASTÁCIO   -  Mas isso é um absurdo, uma injustiça! (Olha com ar de superioridade para

Jerônimo)

Você, na verdade, merece estar aqui, porque nunca foi um espírita decente. Além de irresponsável, sempre foi devasso... Pensa que não sabíamos? Chegou ao cúmulo de seduzir uma jovem da Mocidade... e o que foi que fez?... Hein?

(Jerônimo baixa a cabeça, envergonhado)

Induziu a garota a fazer aborto...

Todos nós sabíamos disso...

JERÔNIMO  - (Levanta o rosto, com ar de profunda mágoa)

E não me disseram nada!

Vocês são quase tão culpados quanto eu. Vocês, que se davam ares de grandes espíritas, praticantes do Evangelho...

Tinham resposta para tudo... na ponta da língua... como se fossem os porta-vozes do plano superior.

Você, então, Anastácio, que era o mais procurado pelas pessoas que buscavam orientação, por que nunca me repreendeu?... Por que nunca me aconselhou?

(Anastácio abre a boca para responder, mas... dizer o quê? Jerônimo, abatido ao peso da mágoa, deixa-se cair no chão e põe a cabeça entre as mãos. Sua fala é quase num lamento)

Eu sabia que aquilo estava errado, mas a tentação foi grande demais. A garota me deu bola e... foi uma paixão furiosa... Depois, a gravidez, o medo da mulher descobrir... o escândalo. Eu sabia que vocês tinham conhecimento de tudo, mas como ninguém me aconselhou... como nada disseram... achei que estavam aceitando tudo com naturalidade e eu também acabei acreditando que não estava tão errado assim.

ANASTÁCIO  -  Meu Deus!... Eu nunca tinha pensado por esse prisma.

                        (Como que falando a si mesmo)

Mas você tem razão... Numa comunidade espírita as culpas de um atingem também aqueles que nada fazem para ajudá-lo a se corrigir.

(A música começa de novo e todos vão sendo arrastados, como por estranha força, para a dança. Só Jerônimo parece imune a ela. Numa das viravoltas da dança, Anastácio tropeça e cai, arrastando outro dançarino ao chão. Ao olhar-lhe o rosto, reconhece-o)

Manoel!!! Você aqui?... (Ia estender-lhe a mão, mas observa, horrorizado, que suas mãos estão enroladas em panos sujos de sangue, de horrível aparência. Manoel procura esconder as mãos atrás das costas, envergonhado)

MANOEL  -  Espero que não permaneça muito tempo por aqui...

Eu, bem que mereço... e nem sei quando vou sair. Talvez até me mandem mais pra baixo. (Anastácio arregala os olhos, sem entender)

 Aqui é uma espécie de região intermediária. Os que carregam culpas mais pesadas e ficam, é porque algo sustou sua queda. No meu caso, foram as preces das pessoas que curei.

ANASTÁCIO – É... Quanto a você é fácil entender que esteja aqui. Você era médium... espírita... e todos

nós sabíamos que começou a cobrar pelas curas que realizava. (Em tom de reprovação) Você ganhou verdadeira fortuna com o uso da mediunidade.

MANOEL( Baixa os olhos e fala com voz magoada)

É verdade... E vocês não me disseram nada. Só falavam pelas costas...

Principalmente você, tão zeloso pela pureza doutrinária. Eu era pobre, precisava manter a família. Aí, comecei a receber presentes e quando me dei conta, tinha ido longe demais.

Por que você não me disse nada? Eu achava que se estivesse tão errado assim, os companheiros me chamariam a atenção. Como ninguém me censurou... fui caindo mais e mais...

(A música recomeça e enquanto são arrastados para o turbilhão alucinante, Manoel grita, revoltado)

Por que você não me repreendeu? Se tivesse brigado comigo, me desmoralizado, agredido... teria sido diferente.

(Quando a música para outra vez, Anastácio encosta-se numa parede, reclamando, revoltado)

ANASTÁCIO - Que situação! E eu que achava que ao desencarnar, seria recebido em Nosso Lar...  Tantos anos dedicado à causa...

Que ironia!!!... Em vez de Nosso Lar... este horrível Forró...

Em vez do Ministro Clarêncio, vindo me receber... Um bando de estropiados... (geme) Aaaaaaaa meu Deussssssss... não dá pra agüentar... (Recompõe-se lentamente)

Mas o pior de tudo... é essa sensação de culpa...

(Ao virar-se, cambaleia e para não cair, agarra-se no cabelo de uma mulher que está  próxima. Ela dá um grito de dor, voltando-se para Anastácio, que, espantado, a reconhece.

Marieta!!!???

Você também está aqui?

MARIETA - Anastácio???...

Nunca esperei que viesse pra cá... Você... sempre tão certinho...

ANASTÁCIO - É... nem eu esperava...

E você... uma das melhores palestrantes que tivemos no centro???!!! Como é que veio parar aqui?

MARIETA -  Enganos, meu caro... enganos...

ANASTÁCIO – Quer dizer que você veio pra cá por engano?... Como é que pode?

MARIETA – Não, não! O engano foi meu...

                        Eu fazia belas e emocionantes palestras... e me achava o máximo...

Eu vivia muito ocupada em estudar a Doutrina, porque queria ter sempre na ponta da língua a resposta para qualquer pergunta. Eu sentia uma grande satisfação em poder “esmagar” os outros num debate, com minhas argumentações... muitas vezes, ferinas.

Na verdade, Anastácio, eu amava a mim mesma, à minha vaidade... Eu não pratiquei a fraternidade... Não respeitei o meu próximo, como deveria, não respeitei as suas opiniões, seus pontos de vista.

Eu achava que era a dona da verdade... Mas não percebi que a verdade tem muitas facetas... Uma para cada momento evolutivo.

E vocês que me criticavam pelas costas... nunca tiveram fraternidade suficiente para conversarem comigo e me mostrarem meus enganos.

ANASTÁCIO – (Fica pensativo, por alguns instantes)

Você disse uma coisa que só agora estou conseguindo perceber...

(Fala lentamente, como que degustando a idéia)

A Verdade tem muitas facetas... Uma para cada momento evolutivo.

MARIETA – Exatamente!!! E é por não entendermos isto que geramos tanta discussão, tanta discórdia,

tanta divisão...

(Reflete um pouco)

Eu não fui alteritária...

ANASTÁCIO – Autoritária?

MARIETA – Não. Eu disse alteritária...

ANASTÁCIO – O que é isso?

MARIETA –  Ser alteritário significa ter uma relação fraterna e respeitosa com os que pensam diferente,

ou são diferentes de nós... Entende? (Pensa um pouco)

Bezerra de Menezes disse que “A diversidade é uma realidade irremovível da seara espírita”. Quer dizer que nós precisamos construir a fraternidade nos meios espíritas, apesar das divergências, respeitando-as e procurando aprender com as diferentes opiniões.

ANASTÁCIO –  (Em tom de revolta)

                        Você diz, precisamos... Como, precisamos? Estamos mortos... desencarnados...

perdemos a nossa chance... (Põe-se a chorar, em grande desespero. Jerônimo se aproxima)

JERÔNIMO – Calma, Anastácio, calma...

(A música volta a tocar e Anastácio é arrastado por aquela força, misturando-se aos demais. Instantes depois a música pára e Anastácio encosta-se na parede, arfante. Os outros estendem-se no chão, exaustos. Jerônimo e Marieta se aproximam)

ANASTÁCIO  - Por que você não é arrastado pela música, assim como nós outros?

JERÔNIMO – Porque sou o administrador...  Pedi aos planos mais altos para permanecer mais

tempo por aqui. Necessito muito de reflexão... de buscar a minha verdade interior...

MARIETA – É... é nessa verdade interior que está o verdadeiro caminho da evolução.

                        (Silencia por instantes, meditativa. Anastácio ouve com atenção)

Nós, seres humanos, costumamos não aceitar aqueles que não se encaixam em nossos modelos e, com isso, cuidamos de mostrar as diferenças deles como sendo defeitos.

JERÔNIMO – Você agora disse uma dura verdade. Queremos sempre que os outros se guiem pelos

nossos parâmetros, sem respeitar a sua individualidade.

Por que sempre pretendemos ser os donos da verdade?

MARIETA – Porque somos vaidosos... E, com isso, ficamos tão atentos vigiando severamente a

melhora dos outros, que deixamos de lado a única tarefa que cabe exclusivamente a nós mesmos, o nosso próprio crescimento interior.

JERÔNIMO – Você tem razão.

                        De modo geral, sentimos verdadeira necessidade de fiscalizar os atos alheios,

procurando diminuí-los. Em nosso orgulho, acreditamos que as falhas deles diminuem o peso das nossas.

MARIETA – (Suspirando)

Quanto engano, meu Deus... Quanto engano vivenciamos na Terra... Quantas máscaras

 usamos, tentando esconder nossa própria consciência!

ANASTÁCIO – (Apontando, espantado, na direção do núcleo do forró)

Mas aquele ali não é o Onofre?

JERÔNIMO – Ele mesmo...

ANASTÁCIO – Como é que pode?... Um líder espírita tão importante? Que teria feito de tão

grave assim?

JERÔNIMO – Um líder espírita importante... você disse tudo. Um líder espírita precisa entender que

a sua vida, suas atitudes, ações e também omissões são exemplos que ele passa e que muitos irão guiar-se por eles. A responsabilidade de um líder é infinitamente maior...

ANASTÁCIO – Mas o Onofre sempre foi um bom exemplo, creio eu.

JERÔNIMO – Engano seu. Ele era bom exemplo em muitos casos, em outros, não.

                        Lembra aquela vez em que tentamos implantar reuniões voltadas à reforma interior, nos                                  centros da nossa área de atuação?

ANASTÁCIO – Lembro, sim. Seriam oficinas e vários outros recursos que certamente iriam ajudar

muito as pessoas ... e a nós mesmos... em nosso crescimento interior.

JERÔNIMO – Exatamente... e essa reforma, ou esse crescimento, passaria a ser prioridade                                                nesses centros.

ANASTÁCIO – Sim... mas o que tem isso a ver?...

JERÔNIMO – O Onofre foi contra, não permitiu... e esse fato causou prejuízos evolutivos a todos nós e                 também aos centros que iriam participar.

ANASTÁCIO – É verdade... E pensar que eu também fui contra...

JERÔNIMO - E, além disso, ele não soube construir um ambiente fraterno e alteritário nas                                      instituições que dirigiu. Era muito dado a críticas. Tudo ele criticava, desde as instituições                    até aos companheiros de atividades. Nada escapava às suas críticas, e isto gerava um                                    ambiente pesado, um clima de hostilidade, inaceitável numa Casa espírita.

ANASTÁCIO – É... eu me lembro...

Mas você falou em alteritário? Já ouvi essa palavra outras vezes aqui, mas não sei o que significa.

JERÔNIMO – (Jerônimo sorri amavelmente)

Vejamos você mesmo como exemplo de falta de alteridade. Você sempre primou pela pureza doutrinária. Não era tanto por amor à causa espírita, mas principalmente para poder impor seus pontos de vista.

Lembra?...

Em nome da pureza doutrinária você cometeu muitos erros. Proibiu aquela reunião de Evangelho com idosos, promovido pela Iracema, que era psicóloga, só porque ela estava inserindo práticas como o relaxamento e visualizações, além de algumas atividades de integração entre os membros do grupo.

Você não se preocupou em analisar os benefícios do relaxamento e das visualizações, nem a importância da integração entre aqueles velhinhos.

Também não valorizou o que é o mais importante para o espírita... e para qualquer ser humano...

(Anastácio fica olhando de forma interrogadora para Jerônimo, por alguns instantes)

O crescimento interior... Não é essa a meta primordial do Espiritismo?

Alteridade é isso, meu caro... é ter disposição para aceitar e aprender com os que são e pensam diferente de nós... Admitir a diversidade de opiniões e práticas, desde, é claro, que não fujam aos princípios básicos do Espiritismo.

A pessoa alteritária não impõe... ela respeita.

(Anastácio senta no chão, baixa a cabeça e fica meditativo. Suzana se aproxima e senta-se a seu lado)

SUZANA – Pensei que você fosse demorar mais na Terra...

ANASTÁCIO – Suzana? O que faz aqui? Você... que também foi Presidente da nossa Casa... aqui, neste

horrível lugar?...

SUZANA – (Suzana fica pensativa por instantes)

                        Por isso mesmo, Anastácio... por isso mesmo...

Pelo cargo que eu ocupava deveria ter tido muito mais humildade, mais fraternidade.

Eu tinha todos os ensinamentos de Jesus na ponta da língua... Mas na hora de praticá-los...

O que eu falava não era condizente com as minhas atitudes, principalmente aquelas mais internas... do pensamento... dos sentimentos...

ANASTÁCIO -  Mas eu acho isso injusto... Castigos tão horríveis como este, para culpas ou faltas

tão pequenas...

SUZANA – Isto aqui não é castigo, Anastácio... nem é horrível...

Horrível é o que tem mais lá embaixo...

Este aqui é o setor das faltas menores. Aqui, estagiamos a fim de podermos perceber as nuances de uma conduta não fraterna... pequenos detalhes que não quisemos observar quando encarnados.

Aqui adquirimos consciência dos muitos males que provocamos com nossas atitudes...

Veja, por exemplo, o caso da Silvia... (Aponta em direção do núcleo do forró)

                        Aquela, ali, de blusa amarela...

A Silvia era do “Centro Jesus de Nazaré”. Quando a Maria Eulália, uma trabalhadora da casa adoeceu gravemente, nenhum dos companheiros foi visitá-la... muito menos, colocar-se a disposição para ajudar no que fosse possível. Todos simplesmente ignoraram a situação difícil da companheira.

ANASTÁCIO – E por que só ela veio pra cá?

SUZANA – Calma, amigo. Os outros ainda não desencarnaram...

ANASTÁCIO – Não... Não pode ser... Nunca ouvi dizer que alguém tenha sido atirado no Umbral só

porque deixou de visitar um companheiro doente...

SUZANA – O problema não está no fato de não terem ido visitar Maria Eulália, mas na frieza que

demonstraram, com relação a uma companheira de atividade espírita.

A Silvia também trabalhava na recepção, no centro. Ela recebia as pessoas com frieza,  com certo ar de superioridade, quando deveria ser fraterna, acolher a todos com simpatia e calor humano.

ANASTÁCIO – Você fala como se fosse fácil ser fraterno.

SUZANA - Claro que não é fácil... Mas aqui eu tenho tido muito tempo para meditar... E cheguei a uma

conclusão interessante, que venho testando comigo mesma. E olha que os resultados são surpreendentes.

ANASTÁCIO – Que conclusão?

SUZANA – Reflita comigo: os espíritas fazem palestras, ouvem palestras, lêem verdadeiras enxurradas

de mensagens edificantes, de livros de teor evangélico, fazem reuniões de Evangelho... e se     perdem em tantos detalhes...

ANASTÁCIO – Não estou entendendo.

SUZANA – Todo esse esforço não visa à reforma interior?

ANASTÁCIO – Sim...

SUZANA – Acontece que para a parte mais importante dessa reforma só é necessária uma                            única ação, que é básica, fundamental. Basta imprimir sempre em si mesmo, ou

seja, desenvolver sempre, um estado de espírito fraterno, com humildade e contentamento.

ANASTÁCIO – (Medita um pouco e um leve sorriso vai tomando conta de seu rosto)

Está aí uma coisa em que eu nunca tinha pensado. Se eu conseguir manter sempre um estado de espírito fraterno, não preciso me preocupar em me policiar, porque sendo realmente fraterno, não vou praticar atos contrários às leis maiores...

Meu Deus!!! Uma coisa tão simples!!!

SUZANA – Simples como as grandes verdades.

Digamos que você tem alguns valores negativos que deseja eliminar, como por exemplo: o orgulho... a vaidade, o desamor e a impaciência. Para conseguir algum resultado vai ter que estar sempre atento, se policiando, para não praticar o orgulho, a vaidade, o desamor e nem a impaciência... Certo?

ANASTÁCIO – É verdade.

Mas com a minha receita, basta você se ocupar apenas em desenvolver esses dois estados de espírito... Mais nada. Os resultados são muito mais amplos e profundos, porque você não combate os valores negativos, mas constrói os positivos, entende?

ANASTÁCIO – Realmente...

Essa sua receita... é um verdadeiro achado...

Mas você falou em dois estados de espírito, a fraternidade e o...

SUZANA – Contentamento.

ANASTÁCIO – Não entendi... Por que o contentamento?

SUZANA – O contentamento é um verdadeiro elixir de vida... É fundamental para o equilíbrio do ser

humano, a sua saúde e bem-estar. Já pensou, uma pessoa fraterna... mas triste, depressiva, espalhando vibração pesada por onde passa?

Para mim, Espiritismo é luz para a mente e amor e alegria para o coração. Isto dá plenitude ao ser.

ANASTÁCIO – Realmente... é impressionante. E você... neste horrível forró, demonstra serenidade... e

até  mesmo alegria...

(O enfermeiro que havia se aproximado, entra na conversa)

ENFERMEIRO – Este “horrível forró”, como você diz é coisa nova no mundo espiritual. Ele foi organizado em vários locais como este, nos umbrais do Brasil e também de outros países. É um recurso fundamental na transição do movimento espírita para um patamar mais elevado de consciência... Afinal, já estamos em plena transição para mundo de regeneração...

JERÔNIMO - Este tipo de reduto também é conhecido como incubadora da alma.

Aqui, acontecem as grandes transformações, os grandes aprendizados das nossas vidas...

Somos assim como as sementes que são enterradas no seio da terra para começarem a germinar...

Estamos enterrados aqui, para começarmos a transmutar a nossa natureza inferior em luz...

Descemos a este inferno, a fim de começarmos a nos alçar a níveis mais elevados de consciência.

ANASTÁCIO – Não entendi.

JERÔNIMO – Aqui é aquele momento em que começamos a perceber com maior clareza a nossa

própria essência... É quando passamos a sentir intensamente a necessidade de vivenciar a nossa verdade mais profunda... sem nenhuma sombra de hipocrisia, sem qualquer máscara, sem subterfúgios...

ANASTÁCIO – Não estou entendendo...

ENFERMEIRO - Os espíritas com menores cargas de erros ou faltas vêm estagiar aqui, para poderem

aprofundar-se mais em si mesmos, vasculhar as suas razões mais profundas, descer até às profundezas da própria consciência em busca da verdade, sem máscaras.

ANASTÁCIO – Verdade sem máscaras? E existe alguma verdade mascarada?

ENFERMEIRO – As religiões cristãs criaram o sentimento de culpa nas pessoas, para melhor poderem

dominá-las. Como a culpa é um sentimento feio, as pessoas cuidaram de cobri-la com máscaras as mais diversas, a fim de poderem sentir-se melhor.

(Anastácio faz um gesto de estranheza)

SUZANA – Aqui nos reunimos diariamente, assistidos por psicólogos. Eles nos ajudam a não

mascararmos nossas inclinações negativas e, principalmente, a dinamizarmos os valores positivos. Isto é muito mais produtivo e ajuda a eliminar os sentimentos de culpa, que são prejudiciais.

ENFERMEIRO -  A ordem, aqui, é o crescimento interior da criatura, e não o seu massacre sob o peso

do carma.

Nas nossas reuniões cada um fala de si mesmo, dos seus desacertos, quando na Terra, procurando entender melhor a si próprio.

SUZANA – E é interessante observar que a maioria dos novatos declara-se inocente. Pela ótica deles, são

realmente almas puras... Mas aqui são induzidos a mergulhar fundo nas próprias consciências, a procura das razões profundas para os seus atos...

Isto porque muitos atos ou atitudes, até mesmo louváveis, quando são tiradas todas as máscaras, mostram intenções escusas, como a vaidade, a sede de poder, o despeito, a egolatria... e também a omissão, em nome de falsos valores...

JERÔNIMO – Veja o seu próprio caso, caro Anastácio. Nas poucas horas em que está aqui, já mudou

muitas das suas convicções, não é verdade?

ANASTÁCIO – É verdade... Nunca me passou pela cabeça que eu usava máscaras... Agora estou vendo

que usava..

ENFERMEIRO –  Contam que no final do século XX, num memorável encontro no mundo espiritual,

Bezerra de Menezes lançou as diretrizes para o terceiro período do Espiritismo, que se iniciou com o novo século.

Esse deverá ser o período da ATITUDE, ou seja, a fraternidade e a alteridade, na prática... Postas em ação... não apenas nas palavras.

Aqui, é a pré-escola dos futuros espíritas... Daqueles que decidirem engajar-se na construção da nova humanidade.

SUZANA –  E olha que essa construção não é trabalho apenas para os espíritas. No mundo todo vem

surgindo movimentos no sentido de mais fraternidade e alteridade em todos os relacionamentos.

ANASTÁCIO -  E a prática da caridade... Onde fica?

SUZANA –  Fazer caridade pode ser merecimento... Aqui, cuidamos da evolução (Em tom brincalhão)

Não tem muito espírita que acha que fazendo caridade está ganhando bônus-hora e garantindo um espaço em Nosso Lar?

Caridade é uma coisa... Evolução é outra, entende?

Na Terra, nos meios espíritas, pela grande dificuldade que representa a reforma interior, a maioria acaba substituindo-a por estudos e ações caritativas... Mas não é a mesma coisa.

A nossa evolução não decola se não buscarmos, por todos os meios, o nosso crescimento                interior.

ANASTÁCIO -  Que é justamente o mais difícil...

A música recomeça arrastando novamente os dançarinos cansados, suados, sofridos...

Finalmente para outra vez. Anastácio deixa-se cair no chão e põe-se a chorar amargamente. Aos poucos vai se acalmando. Move-se e sua mão toca numa bacia com os restos mortais de um abortado.

Ouvem-se batimentos cardíacos desordenados. Está horrorizado)

ANASTÁCIO – Mas o que é isso? Um abortado?... Essa, não!!! Desse aí, tenho certeza de não carregar

nenhuma culpa. Nunca promovi nem permiti abortos.

ABORTADO - . (Com voz lamentosa)

Eu fui levado a um centro espírita e fiquei esperando minha vez de ser atendido. Tinha

certeza de que receberia alívio e poderia recompor meu corpo espiritual. Esperei com toda paciência enquanto você doutrinava um espírito que havia sido assassinado. Parece que era alguém muito importante e você passou a maior parte da sessão conversando com ele, fazendo perguntas e mais perguntas. Quando finalmente chegou a minha vez, era hora de encerrar e você não me deixou incorporar. Eu me desesperei e me agarrei à médium, mas você disse que era hora de encerrar e que ninguém mais poderia “receber” nenhum espírito. Eu fiquei tão revoltado, com tanto ódio de você, que fui arrastado para este lugar.

ANASTÁCIO - Ah, eu me lembro do caso. Mas, não tive culpa. Se os dirigentes não cuidam da

disciplina, a sessão vira bagunça.

ABORTADO (Em tom humilde e de choro) Eu não queria bagunçar nada. Só queria alívio para o

meu sofrimento, que era grande demais...

ANASTÁCIO – (Senta-se no chão, profundamente chocado)

Que situação, meu Deus!!!

Quando que eu poderia imaginar... Quanto engano em nós, quando na Terra!!!

Quanto engano, quanta empáfia... quanto desamor!!!

(Olha para o abortado e fala, com o olhar perdido ao longe)

O que será mais importante, a disciplina em nome da caridade... Ou a caridade em nome do amor? (Grita, com a voz engasgando na garganta)

Como é difícil evoluir, meu Deus... Como é difícil!!!

(Suzana e Jerônimo se aproximam)

SUZANA – Não é tão difícil assim, Anastácio...

                        Lembra-se da minha receita?

ANASTÁCIO -  É verdade... Você falou numa receita... Como é mesmo?

JERÔNIMO – (Olha intencionalmente para Suzana que balança a cabeça afirmativamente. Pensa um pouco, como a procurar as palavras)

                         A Suzana e eu estamos elaborando uma espécie de agenda mínima, que pretendemos repassar para os nossos irmãos reencarnados. Nessa agenda, seguindo orientações do Dr. Bezerra, vamos colocar os pontos principais a serem observados por quem deseja realmente evoluir.

SUZANA –  Nós acreditamos que a grande dificuldade em nossa evolução espiritual é que os valores negativos que precisamos transmutar em positivos são tantos... multiplicam-se em tantas nuances e detalhes que acabamos nos perdendo em meio a tudo isso.

Mas se organizarmos uma agenda mínima com os pontos mais importantes, estaremos trabalhando o cerne da questão. Assim, fixando-nos em apenas quatro ou cinco pontos, será muito mais fácil cumprirmos um roteiro evolutivo que irá alavancar nosso crescimento interior, de forma bem mais segura, proveitosa me profunda.

ANASTÁCIO – (Em tom triste) Se eu tivesse tido acesso a esse tipo de idéias, a essa agenda mínima de que vocês falam, certamente não teria vindo para este horrível lugar.

                         (Silencia por instantes, antes de continuar)

                         – Nos últimos anos, venho desenvolvendo uma teoria que vem ao encontro do que vocês disseram. Tenho observado que o grande vilão da nossa evolução é a memória, ou melhor, a falta dela. Sempre que nos decidimos a proceder de tal ou qual maneira, só percebemos que falhamos depois da palavra dita, da emoção sentida ou do ato praticado. Aí é tarde. Mas se, de acordo com a idéia de vocês, pudermos memorizar os pontos fundamentais...

SUZANA –  (Entusiasmada) Olha só, Jerônimo, isso da memorização de que fala o Anastácio vem complementar nossa idéia. Observe só a importância disso! Com uma agenda mínima, com apenas quatro ou cinco pontos fundamentais, será bem fácil criar procedimentos que ajudem a gerar memória; que funcionem como lembretes.

JERÔNIMO – É isso mesmo! (Dirige-se a Anastácio)

                         – Podemos “roubar” sua idéia?

ANASTÁCIO – Claro que podem. Será um grande prazer para mim, poder contribuir com algo tão fundamental para a nossa evolução.

JERÔNIMO – E o melhor é que vamos levar em breve essa agenda mínima para os reencarnados. Já está tudo mais ou menos acertado.

SUZANA –  E você vai colaborar conosco!

                         (Antes que Anastácio possa dizer algo, o enfermeiro se aproxima e o segura pelo braço. Fala gentilmente)

ENFERMEIRO – Vem. Quero mostrar-lhe algo...

Está vendo aquele pavilhão?

ANASTÁCIO -  Sim, estou vendo... Está cheio de doentes... (mostra-se espantado) Parece que eles

estão olhando para mim... Um ar de súplica, como se eu pudesse ajudá-los...

ENFERMEIRO - Não estranhe, Anastácio. Estes doentes são apenas parte daqueles que deixaram de ser

atendidos, por sua culpa...

ANASTÁCIO - Por minha culpa? Só pode ser engano. Eu sempre procurei ser um bom espírita.

Bem... quero dizer, eu dediquei a minha vida inteira ao Espiritismo e, principalmente, à doutrinação de espíritos sofredores.

ENFERMEIRO – Isso é verdade. Mas a sua tarefa sofreu muitos prejuízos por causa da sua vaidade e

orgulho. (Anastácio abre a boca para retrucar, mas se cala)

Sim, Anastácio. Sou eu o enfermeiro que conduz os espíritos doentes ao socorro mediúnico no Centro onde você trabalhava. Os doentes deste pavilhão deveriam ter sido socorridos no grupo que se desfez, em razão de sua vaidade e falta de fraternidade.

ANASTÁCIO – Mas, eu não sou vaidoso.

ENFERMEIRO - É sim, meu caro. Você foi sempre considerado o melhor doutrinador da casa e essa

idéia lhe subiu à cabeça. No início, quando entrava na sala das reuniões suas vibrações eram de amor e desejo de ajudar. Mas aos poucos foi se empolgando com a admiração que sua doutrinação provocava em algumas pessoas, e em si mesmo.

E aí... quando entrava na sala, já não tinha mais aquela vibração de amor, de afeto... Você  só ficava pensando em como falaria em tais e quais situações.

Seu pensamento, em vez de buscar o Alto, ficava girando em torno dos temas brilhantes da doutrinação e, como você era o principal responsável pelo grupo, este começou a decair... até que se extinguiu.

Se você e o grupo tivessem se empenhado profundamente na reforma interior, na construção de atitudes verdadeiramente fraternas...

(Anastácio baixa a cabeça, angustiado)

ANASTÁCIO – (O ambiente umbralino vai se afastando lentamente, durante a cena e ele fica                                 sozinho no palco)

Meu Deus!!!

Eu que li tantos depoimentos de espíritos que esperavam ser recebidos com honras no mundo espiritual, mas se deparavam com realidades amargas...

Nunca pensei em me ver numa situação como esta...

Oh, arrependimento... como machuca!!! Como machuca!!!

Ah, se eu pudesse voltar à vida... se pudesse...

(Atira-se de joelhos, baixa a cabeça e balbucia com humildade)

Meu Deus, tem piedade de mim!!!

Tem piedade de mim!!!

Tem piedade de mim!!!

(O rosto molhado de pranto, chora, angustiado)

Tem piedade de mim!!!

Me deixa voltar a viver...

Ah, meu Deus, me ajuda... me ajuda...

Tem piedade de mim!!!

MULHER DO ANASTÁCIO – ( Entra com um pacote nas mãos e se dirige ao marido,

 sacudindo-o)

                        Anastácio! Acorda!!!

Anastácio... Para com isso. Você está chorando...

Deve ter sido algum pesadelo terrível...

(Anastácio abre os olhos. Custa a entender que estivera sonhando)

                        Calma, querido, você teve um sonho mau...

ANASTÁCIO – Sonho mau? (Levanta-se de um pulo e começa a rir e chorar ao mesmo tempo)

                        Sonho mau?

Foi o melhor sonho que eu já tive... o mais importante!! O mais importante de todos...

(Ajoelha-se novamente, levantando o rosto e as mão para o alto)

Obrigado, meu Deus... Obrigado... Obrigado...

(Levanta-se de novo, fica pensativo por instantes)

Agenda Mínima para Evoluir... Como será que vai chegar?

(A mulher lhe entrega o pacote que trazia nas mãos)

MULHER DO ANASTÁCIO – Vieram entregar esse pacote pra você... Disseram que era urgente.

(Os outros membros do elenco vão se aproximando, ficando em semicírculo atrás de Anastácio, com ar curioso. Este abre o pacote que contém os opúsculos Agenda Mínima para Evoluir

ANASTÁCIO –  (com ar curioso)

Olha só...  Agenda Mínima para Evoluir...

(Estremece e exclama como quem descobre algo importantíssimo)

É aquela Agenda de que a Suzana falou...

Meu Deus!... Isto é incrível!!!

(Olha para a platéia e fala com ar sério)

Mas é verdadeiro...

(Com ares de muita alegria os atores apanham os opúsculos e descem do palco para distribuí-los com a platéia. Em seguida retornam, para os aplausos)

                                  

 

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OBSERVAÇÃO: Edições Caminhos de Harmonia ((85) 3249-6812) ou caminhos@bemviver.org  publicou o opúsculo Agenda Mínima para Evoluir, que pode fornecer aos grupos de teatro a preço de custo. Seria muito interessante terminar a peça com a sua distribuição ao público, caso seja viável.

Caso contrário, pensar em outro encerramento.